DEMETRIO CHEROBINI, CORREIO DA CIDADANIA
Todo
mandato é minucioso e cruel
eu
gosto das frugais transgressões
Mario
Benedetti
Nos
últimos anos, com as manifestações mais explosivas da crise do capital, muitas
foram as tentativas de construção de mediações de combate que possibilitassem
aos trabalhadores do mundo realizar reivindicações de variados tipos. Diversos
foram os países em que homens e mulheres saíram organizadamente às ruas para
questionar uma multiplicidade de acontecimentos, entre eles o fato de que as
decisões fundamentais, de cunho político, econômico e social, que afetavam
diretamente suas vidas, estavam sendo tomadas à revelia de suas vontades (1).
Até mesmo o Brasil, guardadas as devidas proporções, foi palco para o
pronunciamento de numerosas vozes, que, descontentes, clamavam por melhores
condições de existência (2).
Essas
organizações desempenham uma tarefa verdadeiramente árdua e indispensável:
tomam ruas, ocupam praças, elaboram modos criativos de protesto, montam
piquetes, pressionam, fazem agitação, enfrentam a repressão violenta do Estado,
executam princípios de uma ação que se pode considerar como negativa em relação
a essa ordem na qual a dinâmica sócio-metabólica se desenvolve sem que os
sujeitos que a sustentam tenham a possibilidade de dar a ela um rumo consciente
e coletivamente planejado.
A
grande limitação de tais movimentos - e este é o seu calcanhar de Aquiles - é
que são incapazes de transcender a ação meramente negativa (ou defensiva) e
avançar no sentido de afirmar, na prática e em escala de massa, uma nova forma
de regulação do metabolismo social que aponte para a superação definitiva do complexo
contraditório do capital enquanto controlador fetichista e destrutivo da
atividade produtiva humana.
Portanto,
por mais valorosas que possamos considerar essas mediações, devemos
forçosamente concluir que elas precisam, para levar suas batalhas adiante, até
as últimas conseqüências, orientar-se de maneira ofensiva contra o capital. E
esse salto programático só pode ser efetuado se os trabalhadores souberem fazer
bom uso do instrumento cuja tarefa essencial é a de organizar as lutas de
classes de uma forma em que se consiga ir além das reivindicações concernentes
aos interesses parciais (econômicos) dos diversos setores da classe e,
conseqüentemente, colocar em questão a própria relação antagônica - uma relação
que é política, isto é, que envolve poder - existente entre capital e trabalho,
que permeia a classe como um todo.
Esse
instrumento de que estamos falando é o partido (3). A atribuição específica do
partido é a de, justamente, politizar as lutas econômicas dos trabalhadores, ou
seja, tornar-se veículo para que a consciência proletária ultrapasse o nível da
particularidade e atinja o da totalidade concreta acerca do ser da sociedade na
qual estão inseridos e que atualmente é controlada pelo sistema do capital.
Numa palavra: o partido deve servir de mediação entre a classe revolucionária e
a consciência revolucionária (4).
Para
tanto, o partido necessita ter a melhor preparação teórica e política possível
- profissionalizar-se, em todos os âmbitos da práxis revolucionária -, ao mesmo
tempo em que se mantém organicamente vinculado às fileiras proletárias. Ele não
é, nesse contexto, o causador da revolução, mas a ferramenta dialética que
ensina e aprende com os trabalhadores e que lhes possibilita apreender
concretamente as múltiplas determinações sócio-metabólicas que afetam as suas
existências.
Comprando
diariamente as lutas da classe trabalhadora, inserindo-se em seu interior,
realizando denúncias sobre as arbitrariedades do capital, fazendo agitação
político-ideológica, usando as palavras de ordem adequadas, educando e
preparando material, tática e estrategicamente as massas para a atividade
revolucionária – as batalhas ofensivas com o fim de formar mediações
alternativas de regulação da produção -, o partido se converte em elemento
efetivo de emancipação.
O
partido não pode, portanto, em hipótese alguma, permanecer a reboque das causas
economicistas dos trabalhadores, mas sim buscar a elevação da consciência das
massas a partir da conjugação de ações negativas e afirmativas em todos os
espaços passíveis de intervenção política.
Sua
própria forma de constituição interna, nesse contexto, precisa ser
prenunciadora de uma formação social qualitativamente superior. Organização e
orientação estratégica são, aqui, duas faces de uma mesma moeda. Isso quer
dizer, em outras palavras, que as mediações alternativas da luta proletária –
partido incluso - não podem se estruturar de uma maneira que reproduza a lógica
de funcionamento sócio-metabólico do capital – um modo de controle hierárquico
e fetichista da atividade produtiva.
A
proposta da ofensiva socialista de que fala Mészáros exige dos interessados na
superação do sistema esforços para a efetivação progressiva, já no presente, de
um tipo de organização diverso do que está posto pela realidade alienante do
capital.
Notas:
(1)
O ano de 2011 foi marcante nesse sentido. Para uma boa leitura acerca de tais
acontecimentos, vale a pena conferir a entrevista de Ricardo Antunes para
Valéria Nader e Gabriel Brito, “Luta pelos direitos do trabalho é hoje vital
diante da crise cabal do capitalismo”, Correio da Cidadania, 08/09/2011,
disponível em
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6262. Como explica o sociólogo brasileiro, ainda que cada uma dessas
manifestações tenha tido a sua singularidade, todas elas revelam um traço
comum: expressar um profundo descontentamento em relação à ordem em que se
inserem - ordem esta marcada, de uma forma ou de outra, pela grave crise do
capital.
(2)
Sobre esse ponto, é útil ler o bom artigo de Fernando Marcelino “Quatro lições
sobre a nova dinâmica da luta de classes no Brasil”, Correio da Cidadania,
17/02/2012, disponível em
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6816:submanchete140212&catid=25:politica&Itemid=47.
Ressalte-se, ainda, nesse contexto, o fato de que, entre os anos de 2009 e
2010, houve 964 greves no Brasil.
(3)
Apesar de não ser um tema central de sua vasta obra, Mészáros afirma que os
partidos podem ser mediações efetivas nas lutas de classes a favor dos
trabalhadores. Apresentamos algumas de suas concepções a respeito num pequeno
artigo, “Por um partido socialista de orientação estratégica ofensiva: notas a
partir de István Mészáros”, Correio da Cidadania, 18/11/2011, disponível em
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=6526&Itemid=79.
(4)
Mészáros usa o termo – retirado d’A ideologia alemã – consciência socialista de
massa para se referir à consciência revolucionária dos trabalhadores. Esse tipo
de consciência deve dar conta de compreender não somente o que precisa ser
negado pela práxis transformadora – o sistema de mediações do capital -, mas,
também, fundamentalmente, aquilo que necessita ser afirmado em seu lugar, a
comunidade dos homens e mulheres que regulam, de forma consciente e autônoma, o
metabolismo social humano.
Demetrio
Cherobini é cientista social, doutorando em Educação pela Universidade Federal
de Santa Catarina.

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