MANIFESTO: CONVITE AO FUTURO
"...há gente que acredita numa mudança,
que praticou a mudança, que fez triunfar a mudança, que fez florescer a
mudança... Caramba!... A Primavera é inexorável!"
- Os comunistas, Pablo Neruda
- Os comunistas, Pablo Neruda
O mundo está, novamente, diante de uma encruzilhada histórica. Se, por
um lado, a crise da globalização neoliberal colocou a democracia das elites em
xeque, fazendo surgir movimentos anti-establishment em todo o planeta, por
outro, jogou milhões de pessoas na mais absoluta miséria, enquanto inflamou o
populismo de extrema-direita e seu discurso de ódio, violência e intolerância.
Os donos do poder não conseguem produzir saídas para a crise que sua
própria ganância criou. A instabilidade econômica produziu a maior crise de
legitimidade da democracia liberal em décadas, abrindo a oportunidade histórica
de apresentar uma saída que supere o sistema do capital. O capitalismo se
expressa enquanto forma de opressão e exploração social de classes, e por mais
que, como escreveu Marx, “tudo que é sólido se desmanche no ar”, as relações
capitalistas perpetuam essa desfiguração humana e da natureza que é a
exploração econômica e a crescente diferença de renda entre os 1% que controlam
os meios de produção de riquezas e os 99% que são subordinados em diversos
níveis às formas de exploração e alienação as mais degradantes possíveis.
No Brasil, essa crise chegou a níveis alarmantes. O golpe de abril de
2016 não só destituiu uma presidenta legitimamente eleita, como deu início a um
ciclo de ataques aos direitos sociais e à democracia sem precedentes. Na
escalada de violência da extrema-direita, lutadores e lutadoras do povo
continuaram tombando, como nossa companheira Marielle Franco. O já frágil
Estado de Direito foi sistematicamente atacado pelo pacto conservador, com
reiteradas arbitrariedades produzidas pela Operação Lava Jato, sendo a
principal delas a prisão política do ex-presidente Lula.
A vitória de Jair Bolsonaro representa a maior ameaça aos direitos do
povo brasileiro desde a redemocratização. Além de atacar os direitos sociais e
a soberania nacional, subordinando o Brasil a uma agenda econômica
ultraneoliberal, Bolsonaro é inimigo da democracia, como atestam a tutela
militar exercida pelas Forças Armadas sobre seu governo e a nomeação de Sérgio
Moro para o Ministério da Justiça. Como comprovam os vazamentos das
conversações entre o ex-juiz Moro e os membros do Ministério Público, através
do site Intercept, a Lava Jato representou uma construção midiático-jurídica
com o objetivo de estabelecer uma crescente escalada repressiva e autoritária.
Nesse contexto, os desafios da esquerda socialista mudaram de
qualidade. Já não são suficientes a luta parlamentar e a disputa eleitoral.
Embora fundamentais, elas devem vir acompanhadas de um novo ciclo de lutas sociais.
A esquerda socialista está diante do enorme desafio de se conectar com o
mal-estar que a crise da globalização neoliberal e seus efeitos produziram
sobre a classe trabalhadora e os excluídos, e transformá-lo em combustível para
incendiar a ordem burguesa e estabelecer uma agenda de futuro para construção
do Socialismo.
Para isso, é preciso apostar na unidade das forças populares e
antineoliberais, construindo uma ampla frente social e política contra
Bolsonaro e seus aliados. Mas também é necessário fortalecer os instrumentos
independentes da classe trabalhadora, como o Partido Socialismo e Liberdade.
Apesar de seus limites, o PSOL se consolidou como o partido das novas lutas
sociais e portador da bandeira de uma nova esquerda socialista, combativa e
revolucionária, mas conectada às novas dinâmicas de resistência das mulheres,
da juventude, de LGBTs, movimentos culturais, de negros e negras. Um partido
que reconhece que o racismo, o machismo, as diversas discriminações sexistas e
racistas são elementos estruturais do capitalismo dependente brasileiro; e
capaz de unir uma plataforma socialista – por salário, emprego, democracia e
soberania – a uma plataforma radicalmente libertária.
A responsabilidade histórica do PSOL é, portanto, gigantesca. E é por
essa razão que devemos aprofundar a aliança construída com os movimentos
sociais nas eleições de 2018, ao mesmo tempo em que oferecemos aos militantes
do PSOL um novo instrumento de organização política que una o passado de lutas
que está em nossas origens com o futuro de um socialismo democrático e
libertário. Construir um presente de lutas para garantir um amanhã socialista!
As diversas tendências reunidas no histórico Encontro de Junho de 2019,
após longo processo de debate e interação críticos, coordenadas pela
perspectiva histórica da luta revolucionária em defesa do socialismo e da
liberdade do povo brasileiro, da qual alguns dos agrupamentos participantes são
herdeiros há quase meio século, expressamos a disposição de dar ao PSOL as
condições necessárias para liderar o processo de reorganização da esquerda
brasileira, estabelecendo a construção de uma nova tendência nacional.
Nos orgulhamos imensamente de nossa trajetória. Somos lutadores da
revolução socialista no Brasil. Trabalhamos para que o PSOL, juntamente com
outros partidos, frentes e movimentos sociais, se torne um dos protagonistas
deste processo revolucionário. Consideramos que a contradição central da
sociedade é aquela que opõe capital e trabalho, mas sem jamais ignorar que o
capitalismo no Brasil foi montado com base no extermínio de nações, na
escravização de africanos e povos originais e na opressão das mulheres. Por
isso, a Revolução Brasileira é necessariamente popular, indígena, negra e
feminista.
Combatemos o colonialismo e o imperialismo, somos defensores do sonho
bolivariano da Pátria Grande, a ser composta pela unidade dos povos
latino-americanos. Lutamos para que as múltiplas formas de organização dos
povos do Brasil, inclusive suas representações partidárias e institucionais, sejam
capazes de instalar, defender e desenvolver um Governo Democrático e Popular,
que através de suas medidas antimonopolistas, antilatifundiárias e
anti-imperialistas abra o caminho para o Socialismo.
Praticamos a solidariedade internacional com povos e países que
enfrentam a agressão imperialista e a barbárie capitalista. Lutamos contra
todas as formas de opressão para que todos e todas possam viver, amar e desejar
com plena liberdade e respeito. Abraçamos a equidade de gênero e as causas da
população LGBT. Acreditamos no futuro e reivindicamos tradições. Somos filhos e
filhas das lutas operárias, das resistências camponesas, da Cabanagem,
Balaiada, Canudos, Contestado, Caldeirão e de tantas outras rebeliões
populares. Nosso campo de luta é a fábrica, o bairro, o quilombo, a aldeia, o
sindicato, a escola, os lares, as redes sociais e a rua.
Ao nos unirmos e unirmos nossas histórias, coletivos, mandatos,
lideranças partidárias e sociais, tomamos parte em um novo ciclo de lutas e
organização da esquerda revolucionária brasileira.
O Brasil está gestando o futuro e precisa de um instrumento partidário
capaz de trazê-lo à luz da história. Uma nova tendência que trabalhe para
fortalecer o caráter amplo, popular e socialista do PSOL é urgente e
necessária. Nos colocamos esse desafio e convidamos todos e todas que partilham
desse sonho para dar início ao novo.
Viva o povo brasileiro!
Viva a revolução brasileira!
Viva o PSOL!
Viva a PRIMAVERA SOCIALISTA.
Valinhos/SP, 30 de junho de 2019

