terça-feira, 8 de janeiro de 2013

8 de janeiro de 1959: Fidel Castro e Che Guevara entram triunfantes em Havana liderando a Revolução

Fidel Castro e Che Guevara 

Em 8 de janeiro de 1959, guerrilheiros liderados por Fidel Castro, desciam da Sierra Maestra, entravam triunfantes em Havana e derrubavam a corroída ditadura de Fulgencio Batista, fazendo não só uma revolução, mas mudando para sempre a história da América Latina, ignorando a geografia, dando um novo rumo à Guerra Fria.

Mais do que mudar o curso da história de um país pobre e corrompido por sucessivos governos corruptos, a Revolução Cubana rompeu com as elites latifundiárias que sempre dominaram os países latino-americanos, desafiou a hegemonia dos Estados Unidos, em pleno auge da Guerra Fria, formando um país de governo socialista a escassos 150 quilômetros da península da Flórida. A saga de Fidel Castro, Che Guevara e dos guerrilheiros da Sierra Maestra, percorreu o mundo, transformando Cuba no sonho de modelo social com que o povo do Terceiro Mundo se identificava. A imagem mítica de Fidel Castro e Che Guevara como heróis que venceram os opressores, libertando os oprimidos, alimentou os sonhos de muitos dos jovens idealistas dos anos sessenta, alguns deles protagonistas do Maio de 1968 em Paris.

Cinquenta e quatro anos depois, Cuba, moeda de troca entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos, é um país devastado pelos embargos sofridos por décadas, pobre e às margens das lembranças da revolução. Com o fim da Guerra Fria, a queda do muro de Berlim, o desmembramento da URSS, o país foi deixado à deriva, isolado em um regime que se extinguiu no mundo.

Fidel Castro manter-se- ia no poder até agosto de 2006, quando uma doença intestinal o afastou provisoriamente, sendo substituído definitivamente em 24 de fevereiro de 2008, pelo irmão Raúl Castro. Quando entrou em Havana, a 8 de janeiro de 1959, mudando parte da história do século XX, Fidel Castro trajava um uniforme verde-azeitona e um boné de guerrilheiro que jamais deixou de usar. Muitos anos no poder e a constante mudança dos ventos históricos, foram aos poucos, tirando a imagem jovial e tenaz do guerrilheiro vencedor, a fumar o seu charuto, sendo substituída pelo semblante do homem envelhecido, visto como o último caudilho da América Latina. Assim como Fidel Castro, a revolução envelheceu, desgastou-se e foi aos poucos, esquecida com as ideologias mortas pela história.

Surge Um Novo Líder Cubano Contra a Ditadura de Fulgencio

Em 1952, um golpe militar em Cuba frustrou todas as esperanças das eleições previstas para aquele ano. Em 10 de março, Fulgencio Batista, à frente do golpe militar, subiria ao poder, construindo um governo corrupto, repressivo e sem qualquer compromisso com os setores populares, favorecendo aos interesses estadunidenses na ilha.

Diante da inércia dos partidos políticos em enfrentar o regime opressivo, eclodiriam movimentos de jovens que se opunham ao ditador. Das fileiras desses movimentos, surgiu um novo líder, Fidel Alejandro Castro Ruz, jovem advogado que desde a época de estudante na universidade de Havana, militava politicamente. Fidel Castro instigou o direito do povo à rebelião contra os tiranos do poder, preconizando a estratégia da luta armada contra a ditadura.

O novo líder preparou a luta armada e, em 26 de julho de 1953, foi proclamada uma insurreição popular, com ataques em simultâneo aos quartéis de Moncada, em Santiago de Cuba e de Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo. A operação resultou em um grande fracasso, com dezenas de combatentes presos, muitos assassinados. Fidel Castro foi preso, julgado e condenado. No julgamento, o jovem revolucionário pronunciou uma frase em sua defesa, que se converteria no programa da revolução: “A história me absolverá”.

Os Meandros de Uma Revolução

Exilado no México, Fidel Castro fundou, em 1954, o MR-26 (Movimento Revolucionário 26 de Julho), uma homenagem à data do frustrado ataque ao quartel de Moncada. O movimento propagava a revolta armada contra a repressão do governo cubano.

Em 1955 Cuba foi assolada por grandes movimentos de massas, o que obrigou o governo do ditador Fulgencio Batista a endurecer e a negar a anistia aos presos políticos, entre eles os combatentes de Moncada.

Em 2 de dezembro de 1956, Fidel Castro voltou a Cuba, desembarcando na província do Oriente. Já em terra, conquistaria ao lado de muitos combatentes, o território da Sierra Maestra, concentrando nas montanhas o núcleo inicial do exército rebelde, que rapidamente, aumentaria significativamente.

Em julho de 1957, Frank País foi assassinado, e uma greve em protesto à sua morte, paralisou quase todo o país. O governo cubano terminaria o ano com o fracasso do exército em sua ofensiva contra os guerrilheiros de Sierra Maestra, que a esta altura, já tinha formado duas novas colunas guerrilheiras, comandadas por Raúl Castro, irmão de Fidel, e Juan Almeida.

Em 1958, Fulgencio Batista decidiu exterminar de vez a insurreição dos guerrilheiros, lançando no verão dez mil homens em ofensiva sobre Sierra Maestra. Travaram-se combates ferozes e batalhas sangrentas, que resultaram na vitória dos guerrilheiros contra os homens do governo, que acossados, retiraram-se derrotados.

Outras colunas partiram de diversos pontos do país, entre elas as comandadas por Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Fidel Castro firmava-se como líder por toda a ilha, inclusive diante dos partidos da oposição. Aos poucos, os guerrilheiros conquistaram e tomaram vários povoados e pontos estratégicos.

No dia 1 de janeiro de 1959, Fulgencio Batista abandonava Cuba. Em uma última manobra, a embaixada norte-americana apoiava o general Eulogio Cantillo, que tentou criar uma junta civil e militar para assumir o poder. Fidel Castro pediu à guarnição de Santiago de Cuba que se rendesse, e ao povo que fizesse uma greve geral. A 8 de janeiro os guerrilheiros barbudos entravam em Havana. A Revolução Cubana estava consolidada.

Os Princípios da Revolução Cubana

Aos 32 anos, Fidel Castro entrava em Havana com o seu exército de barbudos, discursando ao país, sendo transmitido pela televisão. O povo cubano assistia deslumbrado àquele homem que sequer tivera tempo de despir o uniforme militar que usou durante os anos da guerrilha. Dono de uma oratória magnífica, o líder passou a ser chamado pelo povo apenas pelo nome de Fidel, sendo transformado em um Robin Hood, um José Martí, transfigurando-se em um herói revolucionário não só dentro de Cuba, mas internacionalmente. Enquanto discursava, uma pomba branca pousou-lhe no ombro.

O eco da vitória da revolução cubana espalhou-se rapidamente pelo mundo, sendo responsável pelo surgimento de movimentos de guerrilha na América Latina, e em alguns países da Ásia e da África. A vitória de um povo sobre a ditadura de Fulgencio Batista justificava a luta armada, a guerrilha, lema que alentou vários povos do mundo que sofriam com ditaduras seculares.

Diante da vitória, Fidel Castro trazia em sua oratória o compromisso da obrigação do novo regime de empreender uma obra social que trouxesse a saúde para todos, a alfabetização, a educação, a distribuição de terras e de casas gratuitas. O não cumprimento dessas obrigações resultaria na perda da legitimidade revolucionária.

Na consolidação da revolução, os guerrilheiros usaram as armas, mas davam mostras de humanidade.

Distanciamento dos EUA, Aproximação com a URSS

A princípio, o novo governo de Cuba furtou-se em abraçar qualquer lado dos dois blocos da Guerra Fria. Washington, apesar de reconhecer o governo castrista, tramava silenciosamente sabotagens a ele, financiando e preparando exilados cubanos para uma ação armada contra Fidel Castro. Uma dessas ações resultou numa força invasora de 2500 exilados cubanos, que desembarcam na baía dos Porcos (praia Girón para os cubanos), entre 17 e 19 de abril de 1961, com a proposta de acabar com a revolução. Fidel Castro esmagou a ação, abatendo oito aviões B-56, afundando dois barcos; a retirada dos invasores terminaria com o saldo de 1189 presos e apenas 14 assaltantes voltando para os EUA.

Logo Fidel Castro percebe que a revolução só iria sobreviver se pendesse para o lado soviético. Em 26 de outubro de 1959, o líder cubano pronuncia, pela primeira vez, um discurso hostil aos americanos. Ainda neste ano, os castristas pedem secretamente armas a Moscou, recebendo-as via Tchecoslováquia e Polônia.

As relações entre Havana e Washington continuam a degradar-se visivelmente em 1960, ano que são confiscadas terras de cidadãos estadunidenses em Cuba (hotéis, bancos, telefones, petróleo), em nome da soberania nacional. A cada retrocesso nas relações com os norte-americanos, o regime cubano aproximava-se dos soviéticos. Em fevereiro, a visita do vice primeiro ministro soviético Anastas Mikoyan a Havana, tornou pública a aproximação dos dois países. Em 8 de novembro daquele ano, pela primeira vez, Fidel Castro proclamava-se marxista, mas sem aceitar as diretrizes ideológicas e doutrinárias de Moscou.

Com a deterioração completa das relações entre Cuba e os Estados Unidos, o governo castrista temia que os norte-americanos tentassem erradicar a revolução, que a esta altura, a União Soviética já se sentia obrigada a defender. Para não correr riscos de retaliações vindas de Washington, Moscou toma a decisão de instalar em solo cubano mísseis soviéticos com ogivas nucleares. Descobertos pela CIA, este episódio tornar-se-ia o mais tenso e famoso da época da Guerra Fria, quando o mundo esteve à beira de uma catástrofe. O presidente John Kennedy, após ameaçar invadir Cuba, iniciando uma guerra nuclear, consegue que os soviéticos retirem os mísseis apontados para o seu país. Khrustchov justificaria em carta a Kennedy:

“Se você garantisse que os Estados Unidos não vão invadir Cuba, nem apoiar nenhuma força que possa ter a mesma pretensão, deixaria de existir qualquer motivo que justificasse a presença dos nossos peritos militares em Cuba.”

O presidente norte-americano aceitava a proposta sem que ninguém desse conhecimento dela a Fidel Castro. No furacão da Guerra Fria, Cuba era motivo dos jogos de poder entre as duas potências. Era a única representante no meio das Américas, de um sistema definido por Moscou, portanto, era preciso que os países da cortina de ferro a defendesse.

Cuba Treina Guerrilheiros

Mesmo diante da influência de Moscou, Fidel Castro aceita a sua ajuda econômica e a sua proteção, mas nega que segue a sua diretriz. Em 1963, Cuba cria um sistema de preparo e apoio às guerrilhas de toda a América Latina.

Em 1967, esta via castrista para a revolução é proclamada em uma conferência de solidariedade latino-americana, realizada no verão, em Havana. Na conferência o líder cubano afirma: “O dever de todo o revolucionário é fazer a revolução”.

Espalhados pelas selvas da Bolívia, vários guerrilheiros treinados em Cuba seriam mortos em combate, logo a seguir à conferência. Em outubro, Che Guevara, o único guerrilheiro cujo carisma rivalizava com o de Fidel Castro, seria morto nas selvas bolivianas, pondo fim simbolicamente, ao sonho da revolução pelas armas na América Latina, pretendida pelos barbudos guerrilheiros.

Nos anos setenta, Fidel Castro volta o seu apoio às guerrilhas na África, especificamente em Angola, para onde envia vários guerrilheiros do seu exército. Será em Cuba que os líderes brasileiros da esquerda, perseguidos pela ditadura militar, refugiar-se-ão, tendo por lá treinamento militar e prática de guerrilhas, obtendo após esses preparos, apoio logístico e econômico para retornarem clandestinamente ao Brasil. Este apoio estender-se-ia ao longo da década de setenta, até a abertura política e à promulgação da lei da anistia.

A Revolução Cubana no Século XXI

Isolada pelos embargos econômicos promovidos pelos Estados Unidos, Cuba sobrevivia graças ao apoio soviético. A ilha do Caribe servia de paraíso turístico para os países do bloco soviético, sendo muito procurada por eles.

Nos primeiros vinte anos da revolução, o castrismo erradicara da ilha o analfabetismo, a prostituição, a miséria e a desigualdade social. Cuba transformara-se num sonho e exemplo para os países do Terceiro Mundo.

Com o a queda do muro de Berlim em 1989, a Guerra Fria começou a agonizar, sendo a sua morte uma realidade iminente. Desfez-se o bloco soviético, desmoronou-se a própria União Soviética. Sem a proteção econômica de Moscou, isolada do mundo pelo embargo americano, a fartura esvaiu-se da ilha de Fidel Castro. Os ventos da miséria, da desigualdade social, a mão pesada do castrismo para combater os seus opositores, tudo isto tirou a legitimidade da revolução cubana diante da história e da comunidade internacional. Em 1993, no apogeu da crise econômica cubana, Fidel Castro foi obrigado a legalizar o dólar, moeda do seu maior inimigo, proporcionando a primeira reforma econômica que contradisse todos os princípios da revolução.

Cinco décadas no governo de um país desfaz qualquer utopia, porque meio século é muito tempo diante da história. Che Guevara, um dos líderes da revolução cubana, morreu em combate, jovem e no fulgor dos sonhos dos seus ideais, tornando-se um ícone para o mundo, ironicamente um mito dentro dos símbolos capitalistas que tanto repudiou. A Fidel Castro restou a passagem dos anos, o envelhecimento, a luta para manter viva a revolução, ou o seu espírito revolucionário. Ironicamente o castrismo ficou sozinho num despovoado campo socialista. A imagem do herói cubano jovem deu passagem ao velho combalido pela doença e pela história. A revolução cubana, hoje, ultrapassada pelos tempos, foi sem dúvida um marco que mudou a história da Guerra Fria.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Michael Löwy: "Sem indignação, nada de grande e significativo ocorre na história humana"


Nesta entrevista à Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, o investigador do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) diz que a dinâmica de movimentos como o dos “Indignados” é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente.
ARTIGO | ESQUERDA .NET

As revoluções sempre tomam formas imprevistas, inovadoras, originais.
Michael Löwy esteve no Brasil no final de 2012 para lançar o livro ‘A teoria da revolução no jovem Marx', que foi publicado em 1970 na França e só agora tem uma edição em português.

Durante a sua estada no país, participou de muitos eventos e falou sobre temas diversos, como literatura e a questão ecológica. Nada que surpreenda no perfil de um pesquisador que circula com desenvoltura entre o estudo dos clássicos e a análise da conjuntura atual, e isso sem abrir mão da militância política de esquerda. Nesta entrevista, ele lança mão dos conceitos que aprendeu com os clássicos – principalmente Marx e Walter Benjamin – para discutir a crise que o capitalismo atravessa e os movimentos reivindicatórios que têm surgido em diferentes cantos do mundo. Além disso, explica os princípios e limitações da ideia de ‘ecossocialismo', com a propriedade de ter sido um dos autores do Manifesto que defende essa bandeira.

Brasileiro residente na França desde 1969, Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) e responsável por um seminário na Écoles de Hautes Études en Sciences Sociales. Só em português, é autor de mais de 20 livros.

Como a teoria da revolução do jovem Marx, de que trata o seu livro, nos ajuda a entender o momento atual, com mobilizações de indignados no Estado espanhol, Grécia e vários outros países da Europa, além de movimentos de ‘ocupação' em vários locais do mundo? Esses são movimentos anticapitalistas?

Os movimentos de ‘Indignados' opõem-se às políticas ditadas pelo capital financeiro, pela oligarquia dos bancos e aplicadas por governos de corte neoliberal, cujo principal objetivo é fazer com que os trabalhadores, os pobres, a juventude, as mulheres, os pensionistas e aposentados – isto é, 99% da população – paguem a conta pela crise do capitalismo. Esta indignação é fundamental. Sem indignação, nada de grande e de significativo ocorre na história humana. A dinâmica destes movimentos é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente. É no curso de sua ação coletiva, de sua prática subversiva, que estes movimentos poderão tomar um caráter radical e emancipador. É o que explicava Marx na sua teoria da revolução, inspirada pela filosofia da práxis.

Marx escreveu no século XIX. As revoluções socialistas a que assistimos aconteceram no século 20. O que a realidade trouxe de diferente na forma como se concretizaram e na forma como se entende revolução nos séculos 19, 20 e 21?

As revoluções sempre tomam formas imprevistas, inovadoras, originais. Nenhuma se assemelha às anteriores. A Comuna de Paris (1871) foi um formidável levante da população trabalhadora da grande cidade e a Revolução Russa foi uma convergência explosiva entre proletariado urbano e massas camponesas. Nas demais revoluções do século 20, desde a Mexicana de 1911 até a Cubana de 1959, ou nas revoluções asiáticas (China, Vietname), foram os camponeses o principal sujeito do processo revolucionário. Não podemos prever como serão as revoluções do século 21: sem dúvida, não repetirão as experiências do passado. Por outro lado, existe o que Walter Benjamin chamava de ‘a tradição dos oprimidos': a experiência da Comuna de Paris inspirou a Revolução Russa e é ainda até hoje um exemplo de autoemancipação revolucionária das classes subalternas.

Com a crise capitalista de 2008 e o movimento de intervenção dos Estados para salvar a economia dos países, acreditou-se que a era neoliberal havia chegado ao fim. No entanto, tem sido intensificada cada vez mais a destruição dos direitos conquistados com o Estado de Bem-Estar Social, como temos visto acontecer na Europa (França, agora Espanha...). O que isso significa?

A intervenção dos Estados não significou de forma alguma o fim do neoliberalismo. O único objetivo desta intervenção era salvar os bancos, resgatar a dívida e assegurar os interesses dos mercados financeiros. Para este objetivo, foram sacrificadas conquistas de dezenas de anos de lutas dos trabalhadores: direitos sociais, serviços públicos, pensões e aposentadorias, etc. Para a lógica de chumbo do capitalismo neoliberal, tudo isto são ‘despesas inúteis'.

Um debate antigo da esquerda é sobre a relação entre revolução e reforma. O contexto do final do século 20 e do início do século 21, com situações como, por exemplo, a vitória eleitoral de partidos de esquerda na América Latina e mesmo em alguns países da Europa recolocam essa questão. Como analisa essa relação hoje?

Rosa Luxemburgo já havia explicado, em seu belo livro ‘Reforma ou Revolução?' (1899), que os marxistas não são contra as reformas; pelo contrário, apoiam qualquer reforma que seja favorável aos interesses dos trabalhadores: salário mínimo, seguro médico, seguro desemprego, por exemplo. Simplesmente, lembrava ela, não podemos chegar ao socialismo pela acumulação gradual de reformas; só uma ação revolucionária, que derruba o muro de pedra do poder político da burguesia, pode iniciar uma transição ao socialismo. O problema da maioria dos governos de centro-esquerda, seja na Europa ou na América Latina, é que as ‘reformas' que aplicam são muitas vezes de corte neoliberal: privatizações, regressões no estatuto dos pensionistas, etc. Tratam-se de variantes do social-liberalismo, que aceitam o quadro económico capitalista mas, contrariamente ao neoliberalismo reacionário, têm algumas preocupações sociais. É o caso dos governos Lula-Dilma no Brasil. Temo que no caso da França (François Hollande, recentemente eleito), nem a isto chegue...

Um desafio dessa esquerda que chegou ao poder na América Latina tem sido equacionar a dependência econômica da exploração de recursos naturais (como o petróleo na Venezuela e o gás natural na Bolívia) com a tentativa de superação da lógica capitalista de destruição do meio ambiente. Na sua opinião, essa equação é possível?

Contrariamente aos governos social-liberais, os da Venezuela, Bolívia e Equador têm levado adiante uma verdadeira rutura com o neoliberalismo, enfrentando as oligarquias locais e o imperialismo. Mas dependem, para a sua sobrevivência econômica  e para financiar os seus programas sociais, da exploração de energias fósseis – petróleo, gás –, que são os principais responsáveis pelo desastre ecológico que ameaça o futuro da humanidade. É difícil exigir destes governos que deixem de explorar estes recursos naturais, mas eles poderiam utilizar uma parte do rendimento do petróleo para desenvolver energias sustentáveis – o que fazem muito pouco. Uma iniciativa interessante é o projeto ‘Parque Yasuni', do Equador, proposta dos movimentos indígenas e dos ecologistas assumida, após algumas hesitações, pelo governo de Rafael Correa. Trata-se de preservar uma vasta região de florestas tropicais, deixando o petróleo embaixo da terra, mas exigindo, ao mesmo tempo, que os países ricos paguem metade do valor (9 mil milhões de dólares) deste petróleo. Até agora, não houve iniciativas comparáveis na Venezuela ou na Bolívia.

A crítica à destruição do meio ambiente como intrínseca ao capitalismo já estava presente na obra de Marx?

Muitos ecologistas criticam Marx por considerá-lo um produtivista, tanto quanto os capitalistas. Tal crítica parece-me completamente equivocada: ao fazer a crítica do fetichismo da mercadoria, é justamente Marx quem coloca a crítica mais radical à lógica produtivista do capitalismo, à ideia de que a produção de mais e mais mercadorias é o objetivo fundamental da economia e da sociedade. O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, jogar, amar. Portanto, Marx fornece as armas para uma crítica radical do produtivismo e, notadamente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as energias do trabalhador, mas também as próprias forças da Terra, esgotando as riquezas naturais, destruindo o próprio planeta. Assim, essa perspetiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx, embora não tenha sido suficientemente desenvolvida.

O Manifesto Ecossocialista, que o sr. ajudou a escrever em 2001, diz que o capitalismo não é capaz de resolver a crise ecológica que ele produz. Como o sr. analisa as soluções a esse problema que vêm sendo apresentadas pelo capitalismo, como é o caso da economia verde?

A assim chamada ‘economia verde', propagada por governos e instituições internacionais (Banco Mundial, etc), não é outra coisa senão uma economia capitalista de mercado que busca traduzir em termos de lucro e rentabilidade algumas propostas técnicas ‘verdes' bastante limitadas. Claro, tanto melhor se alguma empresa trata de desenvolver a energia eólica ou fotovoltaica, mas isto não trará modificações substanciais se não for acompanhado de drásticas reduções no consumo das energias fósseis. Mas nada disto é possível sem romper com a lógica de competição mercantil e rentabilidade do capital. Outras propostas ‘técnicas' são bem piores: por exemplo, os famigerados ‘biocombustíveis' que, como bem diz Frei Betto, deveriam ser chamados de ‘necrocombustíveis', pois tratam de utilizar os solos férteis para produzir uma pseudogasolina ‘verde', para encher os tanques dos carros – em vez de comida para encher o estômago dos famintos da terra.

É possível implementar uma perspetiva como a do ecossocialismo no capitalismo?

O ecossocialismo é anticapitalista por excelência. Como perspetiva, implica a superação do capitalismo, já que se propõe como uma alternativa radical à civilização capitalista/industrial ocidental moderna. Por outro lado, a luta pelo ecossocialismo começa aqui e agora, na convergência entre lutas sociais e ecológicas, no desenvolvimento de ações coletivas em defesa do meio ambiente e dos bens comuns. É através destas experiências de luta, de auto-organizaçâo, que se desenvolverá a consciência socialista e ecológica.

A perspectiva ecossocialista pressupõe uma crítica à noção de progresso. Em que consiste essa crítica?

Walter Benjamin insistia, com razão, que o marxismo precisa libertar-se da ideologia burguesa do progresso, que contaminou a cultura de amplos setores da esquerda. Trata-se de uma visão da história como processo linear, de avanços, levando, necessariamente, à democracia, ao socialismo. Estes avanços teriam sua base material no desenvolvimento das forças produtivas, nas conquistas da ciência e da técnica. Em rutura com esta visão – pouco compatível com a história do século 20, de guerras imperialistas, fascismo, massacres, bombas atômicas –, precisamos de uma visão radicalmente distinta do progresso humano, que não se mede pelo PIB [Produto Interno Bruto], pela produtividade ou pela quantidade de mercadorias vendidas e compradas, mas sim pela liberdade humana, pela possibilidade, para os indivíduos  de realizarem suas potencialidades; uma visão para a qual o progresso não é a quantidade de bens consumidos, mas a qualidade de vida, o tempo livre - para a cultura, o ócio, o desporto, o amor, a democracia - e uma nova relação com a natureza. Para o ecossocialismo, a emancipação humana não é uma ‘lei da história', mas uma possibilidade objetiva.

Quais as principais diferenças entre o ecossocialismo e a forma como o socialismo real lidou com os problemas ambientais? E a socialdemocracia, conseguiu construir alternativas a essa lógica destrutiva do capital?

O assim chamado ‘socialismo real' - muito real, mas pouco socialista - que se instalou na URSS sob a ditadura burocrática de Stalin e seus sucessores tratou de imitar o produtivismo capitalista, com resultados ambientais desastrosos, tão negativos quanto os equivalentes no Ocidente. O mesmo vale para os outros países da Europa Oriental e para a China. As intuições ecológicas de Marx foram ignoradas e se levou a cabo uma forma de industrialização forçada, copiando os métodos do capitalismo. A social-democracia é um outro exemplo negativo: nem tentou questionar o sistema capitalista, limitando-se a uma gestão mais ‘social' de seu funcionamento. Mesmo nos países em que governou em aliança com os partidos verdes, a social-democracia não foi capaz de tomar nenhuma medida ecológica radical. O ecossocialismo corresponde ao projeto de um socialismo do século 21, que se distingue dos modelos que fracassaram no curso do século 20. Ele implica uma rutura com o modelo de civilização capitalista e propõe uma visão radicalmente democrática da planificação socialista e ecológica.

A teoria da revolução no jovem Marx | Conferência de Michael Löwy (Espaço Revista CULT)


sábado, 22 de dezembro de 2012

24 anos da morte de Chico Mendes: o percursor do Ecossocialismo


Elson de Melo(*)

Chico Mendes foi assassinado no dia 22 de dezembro de 1988 quando saia para tomar banho no quintal de sua Casa em Xapuri(AC). Tomei conhecimento da sua morte pelo rádio na manhã seguinte. Foi um choque para mim que havia conhecido, por ocasião do Congresso de Fundação da CUT em 1983 na cidade de São Bernardo do Campo(SP) no pavilhão Vera Cruz, nos encontrávamos sempre em outros eventos pelo Brasil, como no seu julgamento na Auditoria Militar no Bairro de São Jorge em Manaus(AM), na época, embora sendo Presidente do PT em Manaus e credenciado para assistir o julgamento, não pode comparecer devido não ter conseguido ser liberado na empresa que trabalhava, mas mesmo assim nos vimos depois do evento.

Passado 24 anos, ainda guardo na memoria aquela fatídica notícia, que logo a seguir, fora confirmada na TV. Nessa hora, muitas interrogações passam na mente dos que compartilham da mesma ideia e de muitas lutas semelhantes, comigo não foi diferente, afinal eu ainda era apenas um jovem que iniciava a vida como operário na Zona Franca de Manaus e como Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, queria entender porque alguém conseguiu ter a coragem de assassinar uma pessoa tão dócil e humanista como era o grande Chico.

Que mal fez o Chico? Perguntava muito inquieto e apreensivo com tudo aquilo quem aconteceu com ele, e que certamente poderá acontecer comigo, e a qualquer pessoa que ousa desafiar a ordem estabelecida. Garanto a vocês que somente há pouco tempo consegui entender a dimensão da luta do Chico e dos seus camaradas seringueiros. No princípio achava que era apenas uma questão sindical, uma espécie de reivindicação como fazemos no sindicalismo urbano.

Não! Chico combatia a fúria do latifúndio predador e sanguinário, desafiava com os empates que organizava os senhores do poder instituído e a ordem estabelecida, Chico dava inicio a construção de uma nova ordem social, uma combinação de Ecologia e Socialismo. Chico é considerado hoje como o percursor do Ecossocialismo, como afirma Michael Löwy, em artigo: Razões e estratégias do Ecossocialismo :

Um exemplo de uma luta desse gênero, de um brasileiro que é para mim o precursor do ecossocialismo: Chico Mendes, um socialista confesso e convicto, e ecológico. Chico Mendes organizou a Aliança dos Povos da Floresta para defender a floresta como patrimônio comum dos povos indígenas e camponeses, patrimônio do povo brasileiro em seu conjunto, e também da humanidade. A defesa da floresta é uma causa do conjunto da humanidade porque, como se sabe, as florestas — em particular a Amazônia — são os chamados “poços de carbono” que absorvem os gases que estão na atmosfera. Se não houvesse essas florestas tropicais, o processo de aquecimento global já teria escapado de qualquer controle e já estaríamos no meio da catástrofe. O que ainda breca um pouco o processo são as florestas tropicais. Na Aliança dos Povos da Floresta, Chico Mendes fez um primeiro movimento em direção ao ecossocialismo, com a ideia de propriedade comum, bem comum dos povos, bem comum da humanidade.

Chico Mendes está vivo em cada um de nós...

História de Chico Mendes  

Chico Mendes, ainda criança, começou seu aprendizado do ofício de seringueiro, acompanhando o pai em excursões pela mata. Só aprendeu a ler aos 19 e 20 anos, já que na maioria dos seringais não havia escolas, nem os proprietários de terras tinham intenção de criá-las em suas propriedades.[2]

Iniciou a vida de líder sindical em 1975, como secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir de 1976 participou ativamente das lutas dos seringueiros para impedir o desmatamento através dos "empates" - manifestações pacíficas em que os seringueiros protegem as árvores com seus próprios corpos. Organizava também várias ações em defesa da posse da terra pelos habitantes nativos.

Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, e foi eleito vereador pelo MDB local.

Recebe então as primeiras ameaças de morte, por parte dos fazendeiros, e começa a ter problemas com seu próprio partido, que não se identificava com suas lutas.

Em 1979 Chico Mendes reúne lideranças sindicais, populares e religiosas na Câmara Municipal, transformando-a em um grande foro de debates. Acusado de subversão, é submetido a interrogatórios. Sem apoio, não consegue registrar a denúncia de tortura que sofrera em dezembro daquele ano.

Representantes dos povos da floresta (seringueirosíndiosquilombolas) apresentam reivindicações durante 2º Encontro Nacional, emBrasília
Chico Mendes foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e um dos seus dirigentes no Acre, tendo participado decomícios com Lula na região.

Em 1980 foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional a pedido de fazendeiros da região, que procuraram envolvê-lo no assassinato de um capataz de fazenda, possivelmente relacionado ao assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores de BrasiléiaWilson Sousa Pinheiro.

Em 1981 Chico Mendes assume a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até sua morte. Candidato a deputado estadual pelo PT nas eleições de 1982, não consegue se eleger após isso ele começa a sofrer ameaças de mortes.

Acusado de incitar posseiros à violência, foi julgado pelo Tribunal Militar de Manaus, e absolvido por falta de provas, em 1984.

Liderou o 1º. Encontro Nacional dos Seringueiros, em outubro de 1985, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que se tornou a principal referência da categoria. Sob sua liderança a luta dos seringueiros pela preservação do seu modo de vida adquiriu grande repercussão nacional e internacional. A proposta da "União dos Povos da Floresta" em defesa da Floresta Amazônica busca unir os interesses dos indígenas, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas. Essas reservas preservam asáreas indígenas e a floresta, além de ser um instrumento da reforma agrária desejada pelos seringueiros.
Em 1986 participa das eleições daquele ano pelo PT-AC candidato a Deputado estadual ao lado de outros candidatos entre eles Marina Silva para Deputada federal, José Marques de Sousa o Matias para Senado, e Hélio Pimenta para Governador, não sendo nenhum deles eleito.[3]

Em 1987, Chico Mendes recebeu a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, que puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causadas por projetos financiados por bancos internacionais. Dois meses depois leva estas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Os financiamentos a esses projetos são logo suspensos. Na ocasião, Chico Mendes foi acusado por fazendeiros e políticos locais de "prejudicar o progresso", o que aparentemente não convence a opinião pública internacional. Alguns meses depois, Mendes recebe vários prêmios internacionais, destacando-se o Global 500, oferecido pela ONU, por sua luta em defesa do meio ambiente.

Ao longo de 1988 participa da implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre. Ameaçado e perseguido por ações organizadas após a instalação daUDR no Estado, Mendes percorre o Brasil, participando de seminários, palestras e congressos onde denuncia a ação predatória contra a floresta e as violências dos fazendeiros contra os trabalhadores da região.

Após a desapropriação do Seringal Cachoeira, em Xapuri, propriedade de Darly Alves da Silva, agravam-se as ameaças de morte contra Chico Mendes que por várias vezes denuncia publicamente os nomes de seus prováveis responsáveis. Deixa claro às autoridades policiais e governamentais que corre risco de perder a vida e que necessita de garantias. No 3º Congresso Nacional da CUT, volta a denunciar sua situação, similar à de vários outros líderes de trabalhadores rurais em todo o país. Atribui a responsabilidade pela violência à UDR. A tese que apresenta em nome do Sindicato de Xapuri, Em Defesa dos Povos da Floresta, é aprovada por aclamação pelos quase seis mil delegados presentes. Ao término do Congresso, Mendes é eleito suplente da direção nacional da CUT. Assumiria também a presidência do Conselho Nacional dos Seringueiros a partir do 2º Encontro Nacional da categoria, marcado para março de 1989, porém não sobreviveu até aquela data.

Morte de Chico Mendes

Em 22 de dezembro de 1988, exatamente uma semana após completar 44 anos, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa,[4] quando saía de casa para tomar banho. Chico anunciou que seria morto em função de sua intensa luta pela preservação da Amazônia, e buscou proteção, mas as autoridades e a imprensa não deram atenção. Casado com Ilzamar Mendes (2ª esposa), deixou dois filhos, Sandino e Elenira, na época com dois e quatro anos de idade, respectivamente. Em 1992, foi reconhecida, através de exames de DNA, uma terceira filha.

Após o assassinato de Chico Mendes mais de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o "Comitê Chico Mendes". Eles exigiam providencias e através de articulação nacional e internacional pressionaram os órgãos oficiais para que o crime fosse punido.

Em dezembro de 1990, a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão. Darly fugiu em fevereiro de 1993 e escondeu-se num assentamento do INCRA, no interior do Pará, chegando mesmo a obter financiamento público do Banco da Amazônia sob falsa identidade. Só foi recapturado em junho de 1996. A falsidade ideológica rendeu-lhe uma segunda condenação: mais dois anos e 8 meses de prisão (Fonte: Wikipédia).

(*) Elson de Melo é Sindicalista


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Castells vê “expansão do não-capitalismo”

Culturas econômicas alternativas teriam sido reforçadas pela crise. Mas sociólogo adverte: sistema não entrará em colapso por si mesmo

Por: Manuel Castells

Entrevista a Paul Mason | Tradução: Gabriela Leite | Imagem: Binho Ribeiro

O professor Manuel Castells é um dos sociólogos mais citados no mundo. Em 1990, quando os mais tecnologicamente integrados de nós ainda lutavam para conseguir conectar seus modens, o acadêmico espanhol já documentava o surgimento da Sociedade em Rede e estudava a interação entre o uso da internet, a contracultura, movimentos de protesto urbanos e a identidade pessoal.

Paul Mason, editor de notícias econômicas da rádio BBC, entrevistou o professor Castells na London School of Economics (Escola de Economia de Londres) sobre seu último livro, “Aftermath: The Cultures of Economic Crisis” (“Resultado: as Culturas da Crise Econômica”), ainda sem tradução para português.

Castells sugere que talvez estejamos prestes a ver o surgimento de um novo tipo de economia. Os novos estilos de viver dão sentido à existência, mas a mudança tem também um segundo motor: consumidores que não têm dinheiro para consumir.

São práticas econômicas não motivadas pelo lucro, tais como o escambo, as moedas sociais, as cooperativas, as redes de agricultura e de ajuda mútua, com serviços gratuitos – tudo isso já existe e está se expandindo ao redor do mundo, diz ele. Se as instituições políticas vão se abrir para as mudanças que acontecem na sociedade – é cedo para saber. Seguem trechos da conversa.

O que é surgimento de novas culturas econômicas?

Quando menciono essa Cultura Econômica Alternativa, é uma combinação de duas coisas. Várias pessoas têm feito isso já há algum tempo, porque não concordam com a falta de sentido em suas vidas. Agora, há algo mais — é a legião de consumidores que não podem consumir. Como não consomem — por não terem dinheiro, nem crédito, nem nada — tentam dar sentido a suas vidas fazendo alguma coisa diferente. Portanto, é por causa das necessidades e valores — as duas coisas juntas — que isso está se expandindo.

Você escreveu que as economias são culturais. Pode falar mais sobre isso?

Se queremos trabalhar para ganhar dinheiro, para consumir, é porque acreditamos que comprando um carro novo ou uma nova televisão, ou um apartamento melhor, seremos mais felizes. Isso é uma forma de cultura. As pessoas estão revertendo essa noção. Pelo contrário: o que é importante em suas vidas não pode ser comprado, na maioria dos casos. Mas elas não têm mais escolha porque já foram capturadas pelo sistema. O que acontece quando a máquina não funciona mais? As pessoas dizem “bem, eu sou mesmo burro. Estou o tempo todo correndo atrás de coisa nenhuma”.

Qual a importância dessa mudança cultural?

É fundamental, porque desencadeia uma crise de confiança nos dois maiores poderes do mundo: o sistema político e o financeiro. As pessoas não confiam mais no lugar onde depositam seu dinheiro, e não acreditam mais naqueles a quem delegam seu voto. É uma crise dramática de confiança – e se não há confiança, não há sociedade. O que nós não vamos ver é o colapso econômico per se, porque as sociedades não conseguem existir em um vácuo social. Se as instituições econômicas e financeiras não funcionam, as relações de poder produzem transformações favoráveis ao sistema financeiro, de forma que ele não entre em colapso. As pessoas é que entram em colapso em seu lugar.

A ideia é que os bancos vão ficar bem, nós não. Aí está a mudança cultural. E grande: uma completa descrença nas instituições políticas e financeiras. Algumas pessoas já começam a viver de modo diferente, conforme conseguem – ou porque desejam outras formas de vida, ou porque não têm escolha. Estou me referindo ao que observei em um dos meus últimos estudos sobre pessoas que decidiram não esperar pela revolução para começar a viver de outra maneira – o que resulta na expansão do que eu chamo de “práticas não-capitalistas”.

São práticas econômicas, mas que não são motivadas pelo lucro – redes de escambo, moedas sociais, cooperativas, autogestão, redes de agricultura, ajuda mútua, simplesmente pela vontade de estar junto, redes de serviços gratuitos para os outros, na expectativa de que outros também proverão você. Tudo isso existe e está se expandindo ao redor do mundo.

Na Catalunha, 97% das pessoas que você pesquisou estavam engajadas em atividades econômicas não-capitalistas.

Bem, estão entre 30-40 mil os que são engajados quase completamente em modos alternativos de vida. Eu distinguo pessoas que organizam a vida conscientemente através de valores alternativos de pessoas que têm vida normal, mas que têm costumes que podem ser vistos como diferentes, em muitos aspectos. Por exemplo, durante a crise, um terço das famílias de Barcelona emprestaram dinheiro, sem juros, para pessoas que não são de sua família.

O que é a Sociedade em Rede?

É uma sociedade em que as atividades principais nas quais as pessoas estão engajadas são organizadas fundamentalmente em rede, ao invés de em estruturas verticais. O que faz a diferença são as tecnologias de rede. Uma coisa é estar constantemente interagindo com pessoas na velocidade da luz, outra é simplesmente ter uma rede de amigos e pessoas. Existe todo tipo de rede, mas a conexão entre todas elas – sejam os mercados financeiros, a política, a cultura, a mídia, as comunicações etc –, é nova por causa das tecnologias digitais.

Então, nós vivemos numa Sociedade em Rede. Podemos deixar de viver nela?

Podemos regredir a uma sociedade pré-eletricidade? Seria a mesma coisa. Não, não podemos. Apesar de agora muitas pessoas estarem dizendo “por que não começamos de novo?” É um grande movimento, conhecido como “decrescimento”. Algumas pessoas querem tentar novas formas de organização comunitária etc.

No entanto, o interessante é que, para as pessoas se organizarem e debaterem e se mobilizarem pelo decrescimento e o comunitarismo, elas têm que usar a internet. Não vivemos numa cultura de realidade virtual, mas de real virtualidade, porque nossa virtualidade – significando as redes da internet – é parte fundamental da nossa realidade. Todos os estudos mostram que as pessoas que são mais sociáveis na internet são também mais sociáveis pessoalmente.

Existem diversos grupos que hoje protestam sobre o assunto A, amanhã sobre o assunto B, e à noite jogam World of Warcraft (jogo RPG online de aventura). Mas será que eles vão conseguir o que Castro e Guevara conquistaram?

O impacto nas instituições políticas é quase insignificante, porque elas são hoje impermeáveis a mudanças. Mas, se você olhar para o que está acontecendo em termos de consciência… há coisas que não existiam três anos, como o grande debate sobre a desigualdade social.

Em termos práticos, o sistema é muito mais forte do que os movimentos nascentes… você atinge a mente das pessoas por um processo de comunicação, e esse processo, hoje, acontece fundamentalmente pela internet e pelo debate. É um processo longo, que vai das mentes das pessoas às instituições da sociedade. Vamos usar um exemplo histórico: a partir do fim do século XIX, na Europa, existiam basicamente os Conservadores e os Liberais, direita e esquerda. Mas então alguma coisa aconteceu – a industrialização, os movimentos da classe trabalhadora, novas ideologias. Nada disso estava no sistema político. Depois de vinte ou trinta anos, vieram os socialistas e depois a divisão dos socialistas… e os liberais basicamente desapareceram. Isso mudará a política, mas não por meio de ações políticas organizadas da mesma maneira. Por quê? Porque as redes não necessitam de organizações hierárquicas.

Onde isso vai dar?

Tudo isso não vai virar uma grande coalizão eleitoral, não vai virar nenhum novo partido, nenhum novo coisa nenhuma. É simplesmente a sociedade contra o Estado e as instituições financeiras – mas não contra o capitalismo, aliás, contra insitituições financeiras, o que é diferente.

Com esse clima, acontece que nossas sociedades se tornarão cada vez mais ingovernáveis e, em consequência, poderá ocorrer todo tipo de fenômeno – alguns muito perigosos. Veremos muitas expressões de formas alternativas de política, que escaparão das correntes principais de instituições políticas tradicionais. E algumas, é claro, voltando ao passado e tentando construir uma comunidade primitiva e nacionalista para atacar todos os outros movimentos e, finalmente, conseguir ter uma sociedade excluída do mundo, que oprime seu próprio povo.

Mas acontece que, em qualquer processo de mudança social desorganizada e caótica, todos esses fenômenos coexistem. E o modo como atuam uns contra os outros vai depender, em última análise, de as instituições políticas abrirem suficientemente seus canais de participação para a energia de mudança que existe na sociedade. Então talvez elas possam superar a resistência das forças reacionárias que também estão presentes em todas as sociedades.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Conjuntura e projetos


ESCRITO POR WLADIMIR POMAR       

Há algumas análises sobre a presente conjuntura no Brasil, na América Latina e no mundo, para os quais haveria atualmente três grandes projetos em disputa. De um lado, o projeto do grande capital das corporações transnacionais, ainda hegemônico do ponto de vista econômico, ideológico, político e militar, que tenta se renovar e gerar um novo ciclo de acumulação e de controle. De outro, haveria um projeto de integração capitalista, no qual as burguesias locais procurariam desenvolver o capitalismo e realizar sua própria acumulação, mesmo em contradição com o grande capital hegemônico.

Marginalmente a esses dois projetos de caráter capitalista haveria um terceiro, de cunho popular, que objetivaria reorganizar a economia de cada país no sentido de dar solução aos problemas do povo, principalmente os relacionados à fome e à falta de terra, trabalho, moradia e educação. A primeira lacuna dessa análise reside no fato de que as conjunturas dos países centrais – Estados Unidos e Europa Ocidental – são diferentes das conjunturas dos países africanos, asiáticos e latino-americanos. Além disso, a conjuntura de cada um dos países desses blocos difere em muitos aspectos.

Por exemplo, a crise norte-americana tem raízes profundas na crescente desindustrialização da sua economia, na desregulamentação quase completa do seu sistema financeiro especulativo, no monstruoso déficit fiscal do seu Estado, em grande parte decorrente das despesas em armamentos e guerras, e na crescente incapacidade da sua população em manter o emprego e a capacidade de consumo. A crise na Europa está relacionada com a política alemã, e em parte francesa, de manter suas indústrias à custa da desindustrialização dos demais países europeus, cujas sociedades passaram a funcionar à custa de transferências financeiras, aparentemente como doações, que causaram grandes rombos fiscais nos Estados. Enquanto o governo Obama procura resolver a crise dos Estados Unidos através de políticas de incentivo industrial e de tributação das grandes fortunas, políticas emparedadas pelo Congresso, o governo alemão está forçando os países europeus quebrados a aplicarem arrochos neoliberais. Do ponto de vista político, a reação conservadora à crise nos Estados Unidos e na Europa continua se fortalecendo, inclusive com o surgimento de correntes ultradireitistas, enquanto a reação popular ainda parece não ter objetivos nem direção política claros.

As conjunturas de cada país latino-americano também diferem. Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Chile, que nunca conseguiram desenvolver uma indústria própria de porte e, em vários casos, nem mesmo uma agricultura moderna, embora possuam grandes reservas de recursos naturais, se veem às voltas com a necessidade de se industrializarem, até mesmo para explorar melhor alguns desses recursos, além de enfrentarem classes dominantes muito reacionárias. A Argentina e o Brasil, que já tiveram uma indústria desenvolvida, praticamente quebrada pelo período neoliberal, se encontram diante da necessidade de reconstruir suas indústrias nacionais, tendo como eixo a nova revolução científica e tecnológica e o fato de que a maior parte do parque industrial, que restou da destruição neoliberal, se encontra monopolizada por corporações transnacionais. E ambos também enfrentam a crescente concentração agrária, voltada para o mercado internacional, paralelamente a um constante processo de expropriação das economias agrícolas familiares, responsáveis pela produção para o mercado interno e, portanto, pela seguridade alimentar de suas sociedades.

Paradoxalmente, a quebradeira neoliberal na América Latina, que atingiu também os Estados de cada país, rachou as classes dominantes e as burguesias locais, permitindo a surpreendente vitória eleitoral de partidos de esquerda, em geral em coligação com partidos de centro e centro-direita, e o estabelecimento de governos de coalizão. Esses governos se veem, em geral, obrigados a resolver não só os problemas imediatos de profunda miséria e pobreza, analfabetismo real e funcional, desemprego, ausência de assistência médica etc. etc., mas também os problemas estruturais relacionados com o desenvolvimento da infraestrutura econômica e da indústria, reforma agrária, reforma política etc. etc. O problema desses governos é que eles não possuem coesão, nem força política, e nem apoio social firme, para realizar as reformas estruturais, além de enfrentarem resistências diversas para resolver os problemas imediatos, inclusive dentro dos próprios partidos tidos como de esquerda. A grande fase de descenso das mobilizações sociais nesses países parece continuar, embora haja pequenos indícios de que algo se move no sentido de sair da estagnação. Porém, não há certeza de que isso se torne uma realidade a curto prazo.

Se olharmos as coisas com realismo, talvez tenhamos que reconhecer que, com exceção da Ásia, tanto os capitalismos desenvolvidos norte-americano e europeu, quanto os capitalismos em desenvolvimento na América Latina e na África, assim como os movimentos populares em quase todo o mundo, atravessam a presente conjuntura debatendo-se para sair das crises, grandes e pequenas, em que foram jogados. Seus projetos não são claros, seja para o futuro imediato, seja para o futuro de mais longo prazo. No caso dos movimentos sociais, alguns acham que podemos lutar pelo socialismo sem passar pelas dores do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, parecendo retomar do início uma discussão da socialdemocracia operária do final do século 19 e começo do século 20. Outros acham que desenvolver as forças produtivas significa apenas desenvolver os meios de produção, a tecnologia e a capacidade de produção. Esquecem que, para um projeto popular, o aspecto mais importante do desenvolvimento das forças produtivas consiste no crescimento da força social da classe dos trabalhadores assalariados e de sua luta econômica, social e política. Em outras palavras, já deveria estar suficientemente claro que um projeto popular, para se cristalizar no mundo atual, seja nos países desenvolvidos, seja nos países em desenvolvimento, precisa ter o capitalismo como contraponto.

No caso brasileiro, como no caso de alguns outros países latino-americanos, africanos e asiáticos em que vigora o capitalismo, e nos quais a esquerda se tornou governo, ou parte importante de governos de coalizão, sem que existam fortes mobilizações reformistas e/ou revolucionárias, a situação é ainda mais complexa. Esses governos precisam ter como eixo de sua ação o revigoramento quantitativo e qualitativo da classe dos trabalhadores assalariados, o que só pode ser feito se houver o crescimento do capitalismo, em especial do capitalismo intensivo em trabalho.

A engenharia política, social e econômica necessária para isso passa por planos de desenvolvimento e investimento que saibam combinar adequadamente o crescimento de indústrias intensivas em capital, ou em ciências e tecnologias, e de indústrias que empreguem tecnologias tradicionais, mas empreguem muitos trabalhadores. Portanto, paradoxalmente, projetos populares nesses países não podem abdicar de tratar dessa questão. Mesmo porque não passa de ilusão supor que haverá uma retomada dos movimentos populares de massa sem ter como suporte um poderoso contingente de trabalhadores assalariados.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Sindicalismo em Tempo de Pandemia Covid-19

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