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| Fidel Castro e Che Guevara |
Em 8 de
janeiro de 1959, guerrilheiros liderados por Fidel Castro, desciam da Sierra
Maestra, entravam triunfantes em Havana e derrubavam a corroída ditadura de
Fulgencio Batista, fazendo não só uma revolução, mas mudando para sempre a
história da América Latina, ignorando a geografia, dando um novo rumo à Guerra
Fria.
Mais do
que mudar o curso da história de um país pobre e corrompido por sucessivos
governos corruptos, a Revolução Cubana rompeu com as elites latifundiárias que
sempre dominaram os países latino-americanos, desafiou a hegemonia dos Estados
Unidos, em pleno auge da Guerra Fria, formando um país de governo socialista a
escassos 150 quilômetros da península da Flórida. A saga de Fidel Castro, Che
Guevara e dos guerrilheiros da Sierra Maestra, percorreu o mundo, transformando
Cuba no sonho de modelo social com que o povo do Terceiro Mundo se
identificava. A imagem mítica de Fidel Castro e Che Guevara como heróis que
venceram os opressores, libertando os oprimidos, alimentou os sonhos de muitos
dos jovens idealistas dos anos sessenta, alguns deles protagonistas do Maio de
1968 em Paris.
Cinquenta
e quatro anos depois, Cuba, moeda de troca entre a extinta União Soviética e os
Estados Unidos, é um país devastado pelos embargos sofridos por décadas, pobre
e às margens das lembranças da revolução. Com o fim da Guerra Fria, a queda do
muro de Berlim, o desmembramento da URSS, o país foi deixado à deriva, isolado
em um regime que se extinguiu no mundo.
Fidel
Castro manter-se- ia no poder até agosto de 2006, quando uma doença intestinal
o afastou provisoriamente, sendo substituído definitivamente em 24 de fevereiro
de 2008, pelo irmão Raúl Castro. Quando entrou em Havana, a 8 de janeiro de
1959, mudando parte da história do século XX, Fidel Castro trajava um uniforme
verde-azeitona e um boné de guerrilheiro que jamais deixou de usar. Muitos anos
no poder e a constante mudança dos ventos históricos, foram aos poucos, tirando
a imagem jovial e tenaz do guerrilheiro vencedor, a fumar o seu charuto, sendo
substituída pelo semblante do homem envelhecido, visto como o último caudilho da
América Latina. Assim como Fidel Castro, a revolução envelheceu, desgastou-se e
foi aos poucos, esquecida com as ideologias mortas pela história.
Surge Um Novo Líder Cubano Contra
a Ditadura de Fulgencio
Em
1952, um golpe militar em Cuba frustrou todas as esperanças das eleições
previstas para aquele ano. Em 10 de março, Fulgencio Batista, à frente do golpe
militar, subiria ao poder, construindo um governo corrupto, repressivo e sem
qualquer compromisso com os setores populares, favorecendo aos interesses
estadunidenses na ilha.
Diante
da inércia dos partidos políticos em enfrentar o regime opressivo, eclodiriam
movimentos de jovens que se opunham ao ditador. Das fileiras desses movimentos,
surgiu um novo líder, Fidel Alejandro Castro Ruz, jovem advogado que desde a
época de estudante na universidade de Havana, militava politicamente. Fidel
Castro instigou o direito do povo à rebelião contra os tiranos do poder,
preconizando a estratégia da luta armada contra a ditadura.
O novo
líder preparou a luta armada e, em 26 de julho de 1953, foi proclamada uma
insurreição popular, com ataques em simultâneo aos quartéis de Moncada, em
Santiago de Cuba e de Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo. A operação resultou
em um grande fracasso, com dezenas de combatentes presos, muitos assassinados.
Fidel Castro foi preso, julgado e condenado. No julgamento, o jovem
revolucionário pronunciou uma frase em sua defesa, que se converteria no
programa da revolução: “A história me absolverá”.
Os Meandros de Uma Revolução
Exilado
no México, Fidel Castro fundou, em 1954, o MR-26 (Movimento Revolucionário 26
de Julho), uma homenagem à data do frustrado ataque ao quartel de Moncada. O
movimento propagava a revolta armada contra a repressão do governo cubano.
Em 1955
Cuba foi assolada por grandes movimentos de massas, o que obrigou o governo do
ditador Fulgencio Batista a endurecer e a negar a anistia aos presos políticos,
entre eles os combatentes de Moncada.
Em 2 de
dezembro de 1956, Fidel Castro voltou a Cuba, desembarcando na província do
Oriente. Já em terra, conquistaria ao lado de muitos combatentes, o território
da Sierra Maestra, concentrando nas montanhas o núcleo inicial do exército
rebelde, que rapidamente, aumentaria significativamente.
Em
julho de 1957, Frank País foi assassinado, e uma greve em protesto à sua morte,
paralisou quase todo o país. O governo cubano terminaria o ano com o fracasso
do exército em sua ofensiva contra os guerrilheiros de Sierra Maestra, que a
esta altura, já tinha formado duas novas colunas guerrilheiras, comandadas por
Raúl Castro, irmão de Fidel, e Juan Almeida.
Em
1958, Fulgencio Batista decidiu exterminar de vez a insurreição dos
guerrilheiros, lançando no verão dez mil homens em ofensiva sobre Sierra
Maestra. Travaram-se combates ferozes e batalhas sangrentas, que resultaram na
vitória dos guerrilheiros contra os homens do governo, que acossados,
retiraram-se derrotados.
Outras
colunas partiram de diversos pontos do país, entre elas as comandadas por
Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Fidel Castro firmava-se como líder por
toda a ilha, inclusive diante dos partidos da oposição. Aos poucos, os
guerrilheiros conquistaram e tomaram vários povoados e pontos estratégicos.
No dia
1 de janeiro de 1959, Fulgencio Batista abandonava Cuba. Em uma última manobra,
a embaixada norte-americana apoiava o general Eulogio Cantillo, que tentou
criar uma junta civil e militar para assumir o poder. Fidel Castro pediu à
guarnição de Santiago de Cuba que se rendesse, e ao povo que fizesse uma greve
geral. A 8 de janeiro os guerrilheiros barbudos entravam em Havana. A Revolução
Cubana estava consolidada.
Os Princípios da Revolução Cubana
Aos 32
anos, Fidel Castro entrava em Havana com o seu exército de barbudos,
discursando ao país, sendo transmitido pela televisão. O povo cubano assistia
deslumbrado àquele homem que sequer tivera tempo de despir o uniforme militar
que usou durante os anos da guerrilha. Dono de uma oratória magnífica, o líder
passou a ser chamado pelo povo apenas pelo nome de Fidel, sendo transformado em
um Robin Hood, um José Martí, transfigurando-se em um herói revolucionário não
só dentro de Cuba, mas internacionalmente. Enquanto discursava, uma pomba
branca pousou-lhe no ombro.
O eco
da vitória da revolução cubana espalhou-se rapidamente pelo mundo, sendo
responsável pelo surgimento de movimentos de guerrilha na América Latina, e em
alguns países da Ásia e da África. A vitória de um povo sobre a ditadura de
Fulgencio Batista justificava a luta armada, a guerrilha, lema que alentou
vários povos do mundo que sofriam com ditaduras seculares.
Diante
da vitória, Fidel Castro trazia em sua oratória o compromisso da obrigação do
novo regime de empreender uma obra social que trouxesse a saúde para todos, a
alfabetização, a educação, a distribuição de terras e de casas gratuitas. O não
cumprimento dessas obrigações resultaria na perda da legitimidade
revolucionária.
Na
consolidação da revolução, os guerrilheiros usaram as armas, mas davam mostras
de humanidade.
Distanciamento dos EUA,
Aproximação com a URSS
A
princípio, o novo governo de Cuba furtou-se em abraçar qualquer lado dos dois
blocos da Guerra Fria. Washington, apesar de reconhecer o governo castrista,
tramava silenciosamente sabotagens a ele, financiando e preparando exilados
cubanos para uma ação armada contra Fidel Castro. Uma dessas ações resultou
numa força invasora de 2500 exilados cubanos, que desembarcam na baía dos
Porcos (praia Girón para os cubanos), entre 17 e 19 de abril de 1961, com a
proposta de acabar com a revolução. Fidel Castro esmagou a ação, abatendo oito
aviões B-56, afundando dois barcos; a retirada dos invasores terminaria com o
saldo de 1189 presos e apenas 14 assaltantes voltando para os EUA.
Logo
Fidel Castro percebe que a revolução só iria sobreviver se pendesse para o lado
soviético. Em 26 de outubro de 1959, o líder cubano pronuncia, pela primeira
vez, um discurso hostil aos americanos. Ainda neste ano, os castristas pedem
secretamente armas a Moscou, recebendo-as via Tchecoslováquia e Polônia.
As
relações entre Havana e Washington continuam a degradar-se visivelmente em
1960, ano que são confiscadas terras de cidadãos estadunidenses em Cuba
(hotéis, bancos, telefones, petróleo), em nome da soberania nacional. A cada
retrocesso nas relações com os norte-americanos, o regime cubano aproximava-se
dos soviéticos. Em fevereiro, a visita do vice primeiro ministro soviético
Anastas Mikoyan a Havana, tornou pública a aproximação dos dois países. Em 8 de
novembro daquele ano, pela primeira vez, Fidel Castro proclamava-se marxista, mas
sem aceitar as diretrizes ideológicas e doutrinárias de Moscou.
Com a
deterioração completa das relações entre Cuba e os Estados Unidos, o governo
castrista temia que os norte-americanos tentassem erradicar a revolução, que a
esta altura, a União Soviética já se sentia obrigada a defender. Para não
correr riscos de retaliações vindas de Washington, Moscou toma a decisão de
instalar em solo cubano mísseis soviéticos com ogivas nucleares. Descobertos
pela CIA, este episódio tornar-se-ia o mais tenso e famoso da época da Guerra
Fria, quando o mundo esteve à beira de uma catástrofe. O presidente John
Kennedy, após ameaçar invadir Cuba, iniciando uma guerra nuclear, consegue que
os soviéticos retirem os mísseis apontados para o seu país. Khrustchov
justificaria em carta a Kennedy:
“Se
você garantisse que os Estados Unidos não vão invadir Cuba, nem apoiar nenhuma
força que possa ter a mesma pretensão, deixaria de existir qualquer motivo que
justificasse a presença dos nossos peritos militares em Cuba.”
O
presidente norte-americano aceitava a proposta sem que ninguém desse
conhecimento dela a Fidel Castro. No furacão da Guerra Fria, Cuba era motivo
dos jogos de poder entre as duas potências. Era a única representante no meio
das Américas, de um sistema definido por Moscou, portanto, era preciso que os
países da cortina de ferro a defendesse.
Cuba Treina Guerrilheiros
Mesmo
diante da influência de Moscou, Fidel Castro aceita a sua ajuda econômica e a
sua proteção, mas nega que segue a sua diretriz. Em 1963, Cuba cria um sistema
de preparo e apoio às guerrilhas de toda a América Latina.
Em
1967, esta via castrista para a revolução é proclamada em uma conferência de
solidariedade latino-americana, realizada no verão, em Havana. Na conferência o
líder cubano afirma: “O dever de todo o revolucionário é fazer a revolução”.
Espalhados
pelas selvas da Bolívia, vários guerrilheiros treinados em Cuba seriam mortos
em combate, logo a seguir à conferência. Em outubro, Che Guevara, o único
guerrilheiro cujo carisma rivalizava com o de Fidel Castro, seria morto nas
selvas bolivianas, pondo fim simbolicamente, ao sonho da revolução pelas armas
na América Latina, pretendida pelos barbudos guerrilheiros.
Nos
anos setenta, Fidel Castro volta o seu apoio às guerrilhas na África, especificamente
em Angola, para onde envia vários guerrilheiros do seu exército. Será em Cuba
que os líderes brasileiros da esquerda, perseguidos pela ditadura militar,
refugiar-se-ão, tendo por lá treinamento militar e prática de guerrilhas,
obtendo após esses preparos, apoio logístico e econômico para retornarem
clandestinamente ao Brasil. Este apoio estender-se-ia ao longo da década de
setenta, até a abertura política e à promulgação da lei da anistia.
A Revolução Cubana no Século XXI
Isolada
pelos embargos econômicos promovidos pelos Estados Unidos, Cuba sobrevivia
graças ao apoio soviético. A ilha do Caribe servia de paraíso turístico para os
países do bloco soviético, sendo muito procurada por eles.
Nos
primeiros vinte anos da revolução, o castrismo erradicara da ilha o
analfabetismo, a prostituição, a miséria e a desigualdade social. Cuba
transformara-se num sonho e exemplo para os países do Terceiro Mundo.
Com o a
queda do muro de Berlim em 1989, a Guerra Fria começou a agonizar, sendo a sua
morte uma realidade iminente. Desfez-se o bloco soviético, desmoronou-se a
própria União Soviética. Sem a proteção econômica de Moscou, isolada do mundo
pelo embargo americano, a fartura esvaiu-se da ilha de Fidel Castro. Os ventos
da miséria, da desigualdade social, a mão pesada do castrismo para combater os
seus opositores, tudo isto tirou a legitimidade da revolução cubana diante da
história e da comunidade internacional. Em 1993, no apogeu da crise econômica
cubana, Fidel Castro foi obrigado a legalizar o dólar, moeda do seu maior
inimigo, proporcionando a primeira reforma econômica que contradisse todos os
princípios da revolução.
Cinco
décadas no governo de um país desfaz qualquer utopia, porque meio século é
muito tempo diante da história. Che Guevara, um dos líderes da revolução
cubana, morreu em combate, jovem e no fulgor dos sonhos dos seus ideais,
tornando-se um ícone para o mundo, ironicamente um mito dentro dos símbolos
capitalistas que tanto repudiou. A Fidel Castro restou a passagem dos anos, o
envelhecimento, a luta para manter viva a revolução, ou o seu espírito
revolucionário. Ironicamente o castrismo ficou sozinho num despovoado campo
socialista. A imagem do herói cubano jovem deu passagem ao velho combalido pela
doença e pela história. A revolução cubana, hoje, ultrapassada pelos tempos,
foi sem dúvida um marco que mudou a história da Guerra Fria.
Fonte:
Blog virtualia






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