Elson de Melo(*)
Chico Mendes foi assassinado no dia 22 de dezembro de 1988 quando
saia para tomar banho no quintal de sua Casa em Xapuri(AC). Tomei conhecimento da sua morte pelo rádio na manhã
seguinte. Foi um choque para mim que havia conhecido, por ocasião do Congresso
de Fundação da CUT em 1983 na cidade de São Bernardo do Campo(SP) no pavilhão
Vera Cruz, nos encontrávamos sempre em outros eventos pelo Brasil, como no seu julgamento na Auditoria Militar no Bairro de São Jorge em Manaus(AM), na época, embora sendo Presidente do PT em Manaus e credenciado para assistir o julgamento, não pode comparecer devido não ter conseguido ser liberado na empresa que trabalhava, mas mesmo assim nos vimos depois do evento.
Passado 24 anos, ainda guardo na
memoria aquela fatídica notícia, que logo a seguir, fora confirmada na TV. Nessa
hora, muitas interrogações passam na mente dos que compartilham da mesma ideia
e de muitas lutas semelhantes, comigo não foi diferente, afinal eu ainda era
apenas um jovem que iniciava a vida como operário na Zona Franca de Manaus e como
Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, queria entender porque alguém conseguiu ter
a coragem de assassinar uma pessoa tão dócil e humanista como era o grande
Chico.
Que mal fez o Chico? Perguntava muito
inquieto e apreensivo com tudo aquilo quem aconteceu com ele, e que certamente poderá
acontecer comigo, e a qualquer pessoa que ousa desafiar a ordem estabelecida.
Garanto a vocês que somente há pouco tempo consegui entender a dimensão da luta
do Chico e dos seus camaradas seringueiros. No princípio achava que era apenas
uma questão sindical, uma espécie de reivindicação como fazemos no sindicalismo
urbano.
Não! Chico combatia a fúria do latifúndio
predador e sanguinário, desafiava com os empates que organizava os senhores do
poder instituído e a ordem estabelecida, Chico dava inicio a construção de uma
nova ordem social, uma combinação de Ecologia e Socialismo. Chico é considerado hoje como o percursor do Ecossocialismo, como afirma Michael
Löwy, em artigo: Razões e estratégias do Ecossocialismo :
“Um exemplo de uma luta desse gênero, de um
brasileiro que é para mim o precursor do ecossocialismo: Chico Mendes, um
socialista confesso e convicto, e ecológico. Chico Mendes organizou a Aliança
dos Povos da Floresta para defender a floresta como patrimônio comum dos povos
indígenas e camponeses, patrimônio do povo brasileiro em seu conjunto, e também
da humanidade. A defesa da floresta é uma causa do conjunto da humanidade
porque, como se sabe, as florestas — em particular a Amazônia — são os chamados
“poços de carbono” que absorvem os gases que estão na atmosfera. Se não
houvesse essas florestas tropicais, o processo de aquecimento global já teria
escapado de qualquer controle e já estaríamos no meio da catástrofe. O que
ainda breca um pouco o processo são as florestas tropicais. Na Aliança dos
Povos da Floresta, Chico Mendes fez um primeiro movimento em direção ao
ecossocialismo, com a ideia de propriedade comum, bem comum dos povos, bem comum
da humanidade.”
Chico Mendes está vivo em cada um de
nós...
História
de Chico Mendes
Chico Mendes, ainda criança, começou
seu aprendizado do ofício de seringueiro, acompanhando o pai em excursões
pela mata. Só aprendeu a ler aos 19 e 20 anos, já que na maioria dos seringais
não havia escolas, nem os proprietários de terras tinham intenção de criá-las
em suas propriedades.[2]
Iniciou a vida de líder sindical em
1975, como secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir de 1976 participou
ativamente das lutas dos seringueiros para impedir o desmatamento através dos
"empates" - manifestações pacíficas em que
os seringueiros protegem as árvores com seus próprios corpos.
Organizava também várias ações em defesa da posse da
terra pelos habitantes nativos.
Em 1977 participou da fundação do
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, e foi eleito vereador pelo MDB local.
Recebe então as primeiras ameaças de morte,
por parte dos fazendeiros, e começa a ter problemas com seu próprio partido, que não se identificava com suas
lutas.
Em 1979 Chico Mendes reúne lideranças
sindicais, populares e religiosas na Câmara Municipal, transformando-a em um
grande foro de debates. Acusado de subversão, é
submetido a interrogatórios. Sem apoio, não consegue registrar a denúncia de tortura que sofrera em dezembro daquele
ano.
Representantes dos povos da floresta (seringueiros, índios, quilombolas) apresentam reivindicações durante
2º Encontro Nacional, emBrasília
Chico Mendes foi um dos fundadores do Partido dos
Trabalhadores e um dos seus dirigentes no Acre,
tendo participado decomícios com Lula na
região.
Em 1980 foi enquadrado na Lei de Segurança
Nacional a pedido de fazendeiros da região, que procuraram
envolvê-lo no assassinato de um capataz de fazenda, possivelmente relacionado
ao assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia, Wilson
Sousa Pinheiro.
Em 1981 Chico Mendes assume a direção
do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até sua morte. Candidato a deputado estadual pelo PT nas eleições de
1982, não consegue se eleger após isso ele começa a sofrer ameaças de mortes.
Acusado de incitar posseiros à
violência, foi julgado pelo Tribunal Militar de Manaus, e absolvido por falta de provas, em 1984.
Liderou o 1º. Encontro Nacional dos
Seringueiros, em outubro de 1985, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS),
que se tornou a principal referência da categoria. Sob sua liderança a luta dos seringueiros pela
preservação do seu modo de vida adquiriu grande repercussão nacional e
internacional. A proposta da "União dos Povos da Floresta" em defesa da Floresta Amazônica busca
unir os interesses dos indígenas, seringueiros, castanheiros,
pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e populações ribeirinhas, através
da criação de reservas extrativistas. Essas reservas preservam asáreas indígenas e
a floresta, além de ser um instrumento da reforma agrária desejada pelos
seringueiros.
Em 1986 participa das eleições daquele
ano pelo PT-AC candidato a Deputado estadual ao lado de outros candidatos entre
eles Marina Silva para
Deputada federal, José Marques de Sousa o
Matias para Senado, e Hélio
Pimenta para Governador, não sendo nenhum deles eleito.[3]
Em 1987, Chico Mendes recebeu a visita
de alguns membros da ONU, em Xapuri, que puderam ver de perto a
devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causadas por projetos
financiados por bancos internacionais. Dois meses depois leva estas denúncias
ao Senado norte-americano e à reunião de um
banco financiador, o BID. Os financiamentos a esses projetos são
logo suspensos. Na ocasião, Chico Mendes foi acusado por fazendeiros e
políticos locais de "prejudicar o progresso", o que aparentemente não
convence a opinião pública internacional. Alguns meses depois, Mendes recebe
vários prêmios internacionais, destacando-se o Global 500,
oferecido pela ONU, por sua luta em defesa do meio ambiente.
Ao longo de 1988 participa da
implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre.
Ameaçado e perseguido por ações organizadas após a instalação daUDR no
Estado, Mendes percorre o Brasil, participando de seminários, palestras e
congressos onde denuncia a ação predatória contra a floresta e as violências
dos fazendeiros contra os trabalhadores da região.
Após a desapropriação do Seringal
Cachoeira, em Xapuri, propriedade de Darly Alves da Silva,
agravam-se as ameaças de morte contra Chico Mendes que por várias vezes
denuncia publicamente os nomes de seus prováveis responsáveis. Deixa claro às
autoridades policiais e governamentais que corre risco de perder a vida e que
necessita de garantias. No 3º Congresso Nacional da CUT,
volta a denunciar sua situação, similar à de vários outros líderes de
trabalhadores rurais em todo o país. Atribui a responsabilidade pela violência
à UDR. A tese que apresenta em nome do Sindicato de Xapuri, Em Defesa
dos Povos da Floresta, é aprovada por aclamação pelos quase seis mil delegados
presentes. Ao término do Congresso, Mendes é eleito suplente da direção
nacional da CUT. Assumiria também a presidência do Conselho Nacional dos
Seringueiros a partir do 2º Encontro Nacional da categoria, marcado para março
de 1989, porém não sobreviveu até aquela data.
Morte de Chico
Mendes
Em 22 de dezembro de 1988,
exatamente uma semana após completar 44 anos, Chico Mendes foi assassinado com
tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa,[4] quando saía de casa para tomar
banho. Chico anunciou que seria morto em função de sua intensa luta pela
preservação da Amazônia, e buscou proteção, mas as autoridades e a imprensa não
deram atenção. Casado com Ilzamar Mendes (2ª esposa), deixou dois filhos,
Sandino e Elenira, na época com dois e quatro anos de idade, respectivamente.
Em 1992, foi reconhecida, através de exames de DNA, uma terceira filha.
Após o assassinato de Chico Mendes mais
de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e
ambientalistas se juntaram para formar o "Comitê Chico Mendes". Eles
exigiam providencias e através de articulação nacional e internacional
pressionaram os órgãos oficiais para que o crime fosse punido.
Em dezembro de 1990, a justiça brasileira
condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira,
responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão. Darly fugiu em fevereiro de
1993 e escondeu-se num assentamento do INCRA,
no interior do Pará, chegando mesmo a obter
financiamento público do Banco da Amazônia sob
falsa identidade. Só foi recapturado em junho de 1996. A falsidade ideológica
rendeu-lhe uma segunda condenação: mais dois anos e 8 meses de prisão (Fonte: Wikipédia).
(*) Elson de Melo é Sindicalista

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