ESCRITO POR, HEITOR ESCALAMBRINI COSTA
SÁBADO, 18 DE SETEMBRO DE 2016
Toda minha vida profissional foi em defesa intransigente das
fontes renováveis de energia, particularmente da energia solar e eólica.
Defendia e defendo o modelo de implantação descentralizado (geração próxima do
local de consumo) por entender que esta concepção de geração é a que menos
afeta o meio ambiente e as pessoas.
Todavia em nosso país temos constatado que os “negócios do
vento”, dentro da lógica mercantil, onde a energia é uma mera mercadoria, a
geração tem ocorrido em larga escala com parques eólicos contendo centenas de
máquinas eólicas, e por conseguinte grandes superfícies de terras ocupadas. As
áreas escolhidas são aquelas cujos ventos são mais forte, locais de altitude ou
em áreas costeiras.
O Nordeste brasileiro concentra 80% de toda geração eólica
no país, e o bioma Caatinga e as áreas costeiras são as mais impactadas. O que
significa que populações ribeirinhas (pescadores e catadores de mariscos) e
agricultores familiares, posseiros, sofrem as consequências das instalações em
larga escala, muitas vezes privados de seu modo de vida, além da destruição
ambiental provocada pela implantação em larga escala dos aerogeradores.
O que lamentavelmente não é dito pela propaganda enganosa é
que NÃO existe energia limpa e de baixo custo. Energia eólica, como qualquer
outra fonte energética provoca danos socioambientais. E que o preço cobrado por
MWh produzido por esta fonte energética, não leva em conta os custos socioambientais
provocados.
O modelo “ofertista” de energia, tendo a frente como
principal incentivador a Empresa de Planejamento Energético (EPE), alardeia a
necessidade de construção de mais e mais usinas geradoras de energia para
atender a demanda do país. E neste caminho que “surfa” os negócios do vento. Hoje
o setor de “marketing” deste setor, aliada a grandes grupos empresariais do
setor de comunicação constitui um poderoso e eficaz instrumento inibidor do
debate transparente da questão energética no país, inclusive sobre as opções
adotadas.
Um exemplo desta aliança empresarial (mídia-empresas do
vento) é claramente percebida nas matérias do Jornal do Commercio de
Pernambuco. Os textos difundidos a respeito da energia eólica estão muito longe
de serem matérias jornalísticas. São na verdade informes publicitários de
empresas ligadas aos “negócios do vento”. São alardeadas para o público leitor,
informações deturpadas, tendenciosas e unilaterais.
Nem uma palavra é dada aos moradores do entorno dos parques
eólicos, as entidades ambientalistas, aos sindicatos de trabalhadores rurais, a
estudiosos do tema. Nem mesmo a igreja que tem denunciado, o que tornou lugar
comum como consequência social da implantação dos parques eólicos, a existência
dos chamados “filhos do vento”.
O que se verifica de fato é a atuação do poder econômico
sobre a informação. Aliança que “empobrece” o jornalismo pernambucano/brasileiro.
Que transforma jornalistas em meros reprodutores de releases das empresas
interessadas em vincular sua própria “verdade”. E assim manipular a opinião
pública.
Existe neste jornalismo uma transgressão da ética, nenhum compromisso
com a autenticidade dos fatos, abrindo mão de qualquer abordagem de informar
mostrando as “duas faces da moeda”.
Energia e meio ambiente são temas da maior importância na
discussão mundial sobre o aquecimento
global. O momento vivido das mudanças climáticas e seus graves efeitos ao povo
do semiárido merecem tratamento com mais seriedade e imparcialidade. E não
somente como “negócios”.
Heitor Scalambrini Costa é Professor
aposentado da Universidade Federal de Pernambuco

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