ESCRITO POR EDUARDO
GUDYNAS
QUARTA, 27 DE JULHO DE
2016
Comecemos colocando com
clareza algumas questões recentes nas relações entre a esquerda e o meio
ambiente na América Latina: os progressismos governantes atualmente são regimes
políticos distintos das esquerdas que lhes deram origem. Nessa diferenciação, a
incapacidade de abordar a temática ambiental cumpriu alguns papeis-chaves.
Assim, qualquer renovação da esquerda só é possível ao incorporar um olhar
ecológico. Caso contrário, a esquerda voltará a cair em meros progressismos.
As esquerdas
latino-americanas, pelo menos desde a década de 70, tiveram enormes
dificuldades em aceitar e abordar a problemática ambiental. Uns viam esses
temas como excentricidades burguesas importadas do norte; outros consideravam
que entorpeceriam planos de industrialização; e, finalmente, estavam os que
entendiam que na militância, por exemplo, nas fábricas, era inviável atender a
questões ecológicas.
Mas também existiam
alguns grupos que abordavam essas questões por diversas razões. Uns respondiam
a demandas cidadãs. Por exemplo: as que partiam de organizações camponesas que
denunciavam tanto injustiças econômicas como a contaminação de suas terras e
águas. Outros entendiam que uma crítica radical ao capitalismo era incompleta
se não fosse considerado o papel subordinado da América Latina como provedora
de matérias-primas (ou seja, recursos naturais). Podem se somar outras
questões, mas deve-se reconhecer que todos eles desempenhavam papeis
secundários no seio da maior parte das organizações políticas de esquerda.
As coisas não eram
melhores em nível internacional. Fosse em agrupamentos partidários ou na
reflexão teórica, a questão ambiental era minimizada ou marginalizada. Houve
esforços intensos para jogá-la debaixo dos tapetes. Por exemplo, um marxismo de
cunho ecológico (como é a proposta de John Bellamy Foster) ou a insistência em
um ecossocialismo (apontado por Michael Löwy) tiveram impactos restritos.
Uma mudança substancial
ocorreu no final dos anos 90 e princípios da década de 2000. Boa parte do
ambientalismo politicamente militante colaborou, apoiou ou participou
diretamente de conglomerados das esquerdas mais amplas e plurais que lutavam
contra governos conservadores e posturas neoliberais. Em vários países esses
grupos ganharam eleições. Houve um aporte ambientalista nas vitórias da Alianza
Pais no Equador, do PT e seus aliados no Brasil, do MAS na Bolívia e da Frente
Ampla no Uruguai. Em menor medida, na Venezuela.
Nos planos daquelas
esquerdas se incorporavam temas ambientais, em vários casos com muita
sofisticação ao propor mudanças radicais nas estratégias de desenvolvimento,
ordenamento territorial ou manejo de impactos ambientais. Uns quantos
ambientalistas entraram nesses novos governos e desde então se lançaram algumas
iniciativas dignas de nota.
O caso mais destacado
ocorreu no Equador, onde os militantes verdes colheram algumas conquistas
notáveis. Foram essenciais em instalar, por exemplo, a proposta de uma
moratória petroleira na Amazônia, não apenas como defesa de sua biodiversidade,
mas também como um aporte para a mudança da matriz energética. Eles também
representaram um apoio chave no reconhecimento dos Direitos da Natureza na
nova Constituição equatoriana, transformando-a na mais avançada do mundo nessa
matéria. A esquerda dos países do Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai) não
ponderou como devia a questão das inovações ambientais do primeiro governo de
Rafael Correa.
Mas o problema é que
essa relação entre os novos governos e a temática ambiental começou a crepitar.
Esses administradores optaram por estratégias de desenvolvimento onde se
priorizavam a metas econômicas, às custas de altos impactos ambientais. Suas
expressões mais claras foram as monoculturas, a mineração e a exploração petroleira.
Foi gerada uma relação perversa, já que à medida que mais se aprofunda esse
perfil extrativista, menos podem ser atendidas as questões ambientais, e mais
protestos e resistências cidadãs se acumulam. Muitos ambientalistas que estavam
dentro dos governos se afastaram e os que permaneceram se desprenderam de seus
compromissos com a natureza. Algo similar ocorreu em outras áreas,
especialmente nas políticas sociais. É desta maneira que estava em marcha a
divergência entre as esquerdas plurais e abertas iniciais e um novo estilo
político, o chamado progressismo.
A maturação no sentido
do progressismo ocorreu em todos os países. Apesar de que em alguns casos se
citava Marx ou Lênin, em todos se acentuou a subordinação aos mercados globais
como provedores de matérias-primas, os planos de ataque à pobreza se
enforcaram, sobretudo em pacotes de assistências monetizadas, e se romperam as
relações com muitos movimentos sociais. Esse progressismo não é neoliberal, mas
está claro que abandonou os compromissos daquelas esquerdas iniciais em
questões como a radicalização da democracia, a ampliação das dimensões da
justiça e a proteção do patrimônio ecológico.
Hoje se admite que esse
progressismo está em crise, como é evidente no Brasil, e inclusive perdeu eleições
nacionais (Argentina) e regionais (Bolívia). Mas passou despercebido para
alguns que nessa diferenciação entre esquerdas e progressismos a temática
ambiental jogou um papel-chave. O progressismo aceitou os impactos ambientais
dos extrativismos, já que priorizou como opção econômica a exportação de
matérias-primas. Por sua vez, à medida que escalava a resistência cidadã a tais
empreendimentos, os regimes passaram a ignorar, rechaçar e até criminalizar as
organizações da sociedade que punham em evidência os impactos negativos destes
extrativismos.
Há muita pouca da
sensibilidade social de esquerda em um governo que impõe a comunidades
camponesas um projeto de megamineiração ou force a entrada de petroleiras
dentro de terras indígenas, ou ameace exilar membros de ONGs que alertam sobre
esses impactos.
Os progressismos, à
medida que mais se distanciam da esquerda, mais se fundem em contradições
teóricas e práticas. Não se duvidou, assim, em apelar a misturas bizarras entre
citações marxistas e denúncias ao imperialismo, junto de acordos comerciais com
empresas transnacionais que levavam seus recursos naturais e humanos. Invocavam
o povo, mas não hesitaram em criminalizar os protestos sociais e inclusive em
alguns casos passaram à repressão aberta.
A lição destas
experiências é que a ausência de uma dimensão ambiental na esquerda, na América
Latina e neste momento histórico, não constitui um pequeno déficit. Pelo
contrário, é um dos fatores que explica porque a esquerda perdeu sua essência
para transformar-se em meros progressismos.
No entanto, uma esquerda
própria do nosso continente deve abordar as questões ambientais porque a
América Latina se caracteriza por uma enorme riqueza ecológica. Aqui se
encontram as maiores reservas de áreas naturais e as maiores disponibilidades
de solos agrícolas. O uso que se faz desse patrimônio ambiental não só envolve
as necessidades de nossa população, mas nutre múltiplas cadeias produtivas
globais com enormes repercussões geopolíticas.
Ademais, uma esquerda do
século 21 deve ser ecológica porque a atual evidência indica, sem lugar a
dúvidas, que estamos superexplorando esses recursos, que as capacidades do
planeta para lidar com os impactos ambientais foram excedidas e problemas
planetários como as mudanças climáticas já estão se manifestando. Portanto,
pensar uma esquerda sem ecologia seria uma aposta desconectada da América
Latina e da conjuntura atual.
Finalmente, o
compromisso desta nova esquerda está na justiça social e ambiental, onde uma
não pode ser alcançada sem a outra. Isto permite um reencontro com muitos
movimentos sociais, um redescobrimento dos problemas reais das estratégias de
desenvolvimento atuais e um chamado à renovação teórica. É por isso que nessa
íntima associação entre a justiça social e ambiental estão os maiores desafios
para a renovação das esquerdas na América Latina.
Eduardo Gudynas é
analista da CLAES (Centro Latino Americano de Ecologia Social) em Montevidéu.
Traduzido por
Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.
Fonte: Correio da Cidadania

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