Por Jean-Marie Harribey [*]
O
século XX acaba num cenário de crise geral mundial: o modo de produção
capitalista estendeu-se a todo o planeta e sujeita progressivamente ao domínio
da mercadoria todas as actividades humanas, mas, sem dúvida pela primeira vez
na sua história, produz duas importantes degradações simultâneas.
A
primeira é de ordem social pois, apesar de um crescimento considerável das
riquezas produzidas, a pobreza e a miséria não recuam no mundo: 1,3 mil milhões
de seres humanos dispõem do equivalente a menos de um dólar por dia, outros
tantos não têm acesso a água potável e aos cuidados mais elementares, 850
milhões são analfabetos, 800 milhões são subalimentados, pelo menos 100 milhões
de crianças são exploradas no trabalho, e durante os quatro últimos decénios,
as desigualdades entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos em vez de 1 para
30 são agora de 1 para 80. Este desastre social toca mesmo os países mais ricos
já que os Estados Unidos contam 34,5 milhões de pessoas que vivem abaixo do
limiar de pobreza e os países da OCDE recenseiam 34 milhões de pessoas que
sofrem de fome, uns 30 milhões reduzidos ao desemprego, e muitos mais ainda cuja
situação se torna precária.
A
segunda degradação importante diz respeito à natureza e aos ecossistemas
gravemente atingidos ou ameaçados pelo esgotamento de certos recursos não
renováveis e por poluições de toda a espécie. Além disso, a maior parte das
opiniões científicas convergem no alarme quanto ao risco de aquecimento
climático ligado às emissões de gás com efeito de estufa. A origem desta crise
ecológica é sem dúvida o modo de desenvolvimento industrial conduzido sem outro
critério de julgamento que não seja a rentabilidade máxima do capital
investido, mas cuja legitimidade era assegurada pela ideologia segundo a qual o
crescimento da produção e do consumo era sinónimo de melhoria do bem-estar de
que todos os habitantes do planeta beneficiariam a mais ou menos longo
prazo.
Se
pode dizer-se que a simultaneidade destes dois tipos de desastres, social e
ecológico, não é fortuita, quer dizer, se eles são o produto do desenvolvimento
económico impulsionado pela acumulação do capital à escala planetária, e, pior
ainda, se eles são o seu produto necessário, então põe-se a questão do encontro
da crítica marxiana do capitalismo e da crítica do produtivismo cara aos
ecologistas. Ora não somente estas duas críticas nasceram separadamente, como
ainda se desenvolveram amplamente uma contra a outra, na medida em que a
primeira foi identificada durante toda a sua duração de vida com as
experiências dos países ditos “socialistas” cuja desordem ecológica – como a
social, de resto – não era inferior à dos países capitalistas, e onde a segunda
hesitou durante muito tempo no reposicionamento das relações entre o homem e a
natureza no quadro das relações sociais.
Todavia,
a conjunção de três acontecimentos criou as condições de uma aproximação entre
estas duas abordagens. Trata-se primeiro do desaparecimento dos (anti)modelos
“socialistas” que prejudicavam a utilização da teoria de Marx para fins de
crítica radical do capitalismo. O segundo acontecimento foi a liberalização
completa do capitalismo, sob a batuta dos mercados financeiros tornados
globais, que se saldou por uma inversão da relação de forças a favor do capital
e em detrimento do trabalho. O terceiro acontecimento é a convergência das
mobilizações populares e das lutas sociais contra os danos da mundialização
capitalista, nomeadamente identificando com clareza as paradas das negociações
no seio da Organização Mundial de Comércio: a recusa da mercantilização do
mundo e da privatização do seres vivos contém em si o questionamento dos dois
termos da crise que atinge sobretudo as populações mais desfavorecidas: social
e ecológico.
Este
último elemento – a luta social – não é o menor: por si só, ele funda a
possibilidade de elaborar uma crítica teórica geral de uma crise que é ela própria
global; por si só, ele justifica as pesquisas teóricas para ultrapassar uma
oposição estéril e paralisante entre uma crítica marxista tradicional das
relações sociais separadas das relações do homem com a natureza e uma crítica
ecologista simplista das relações do homem com a natureza sem referência às
relações sociais no interior das quais o homem põe em acção o seu projecto de
domesticação da natureza.
Parecem
pois reunidas as condições materiais para conduzir uma teorização materialista do
conhecimento e da transformação das relações do homem com a natureza e isso em
duas direcções: a da formulação de um materialismo naturalista e a da
reinserção da ecologia política no seio de uma análise global do capitalismo,
numa espécie de fecundação mútua de dois paradigmas. Contudo, um obstáculo de
monta se ergue diante desta aliança: um novo paradigma só triunfa ocupando o
lugar de outro. O mais verosímil é pois que a condição necessária do nascimento
de uma ecologia política marxiana ou de um marxismo ecológico seja uma
ultrapassagem completa e definitiva da forma tomada pelo marxismo tradicional
enquanto movimento de pensamento e de acção inscrito num período histórico
dado, aquele que, esquematicamente, se resumiu e reduziu à colectivização dos meios
de produção sem que as relações sociais fossem minimamente modificadas.
Inversamente, o pensamento da ecologia política não poderia aspirar ao título
de novo paradigma se não lograsse integrar-se num conjunto mais vasto visando
uma transformação social. Hoje, embora este duplo empreendimento esteja longe
do seu termo, pode dar-se testemunho de um número importante de contribuições
que vão no sentido de uma construção inovadora. Há aquelas que mostram que o
materialismo pode, em certas condições, constituir a matriz conceptual da
assunção da ecologia pela sociedade, e aquelas que definem, num outro sentido,
as bases de uma ecologia desembaraçada da ilusão de um capitalismo limpo.
1. O materialismo como matriz conceptual da
ecologia
A
obra de Marx propõe um quadro conceptual que, em primeiro lugar, coloca a
actividade social dos seres humanos no interior de um ambiente material
natural, e, em segundo lugar, opera uma distinção radical entre o processo de
trabalho em geral e o processo de produção capitalista. Contudo, no seio desta
obra, subsistem várias dificuldades cuja resolução é indispensável para se
poder nela integrar a problemática ecologista.
A sociedade na natureza
Verifica-se
um primeiro consenso entre os autores que hoje se reclamam de Marx e se
interessam pela ecologia: existem condições materiais naturais indispensáveis à
actividade humana, e isso independentemente do modo de produção. “A natureza é
o corpo não orgânico do homem” ou então “o homem é uma parte da natureza”, escrevia
Marx, [1965, p.62] nos Manuscritos de 1844 . Desde logo,
segundo Ted Benton, as posições filosóficas de Marx e Engels dizem
simultaneamente respeito ao naturalismo e ao materialismo. À primeira vista
esta concepção da natureza como “corpo não orgânico do homem” poderia ser
interpretada como meramente utilitarista. Alfred Schmidt [1994, p.113] opõe-se
a esta interpretação pois Marx afasta-se de uma tal concepção herdada das Luzes
para adoptar uma posição dialéctica: “No homem, a natureza atinge a consciência
de si mesma e une-se a si mesma graças à actividade teórico-prática deste
último”.
James
O'Connor (1992), fundador da revista americana da ecologia socialista, Capitalism,
Nature, Socialism , prossegue referindo que a diferença fundamental
entre, por um lado, as condições naturais da produção e, por outro, as forças
produtivas consideradas habitualmente pelo marxismo assim como as suas
condições superestruturais de exercício, repousa no facto de que as primeiras
não são produzidas. Como estas condições naturais objectivas não são produzidas
e como a sua existência é apresentada ex ante , isso institui
uma abordagem materialista da ecologia e estabelece um primeiro ponto de
encontro com os princípios da termodinâmica de que Nicholas Georgescu-Roegen
[1971; 1975] foi um dos primeiros a tirar as consequências para a economia: “a
entropia de um sistema fechadoaumenta continuamente (e
definitivamente) e em direcção a um máximo; quer dizer que a energia utilizável
é continuamente transformada em energia inutilizável até que desapareça
completamente” [1995, p. 81-82] pois o desenvolvimento económico assenta na
utilização inconsiderada do stock terrestre de energia acumulado ao longo do
tempo. Ponto de encontro mas não identidade porque, como o sugere René Passet
[1996, p. XVII], Marx e Engels estão sem dúvida mais próximos da ideia de uma
“destruição criadora” de um Ilya Prigogine [1979] do que de uma degradação
inexorável do universo. Todavia, Juan Martinez-Alier [1992-a, p.21; 1992-b,
p.183-184] recorda que, para N. Georgescu-Roegen como para Vladimir Vernadsky
[1924] [1] a
Terra é um sistema aberto porque recebe energia exterior proveniente do Sol e
assim processos de crescimento e de complexificação podem aí desenrolar-se no
decurso do tempo.
O
facto de a actividade humana se desenvolver no seio de uma envolvente natural
legitima a “gestão normativa sob constrangimento” preconizada por R. Passet.
Autores como Georgescu-Roegen e R. Passet, que não se reclamam do marxismo,
aproximam-se contudo dele quando põem em causa a redução do social ao económico
e a maneira de pensar a economia apenas em termos de equilíbrios.
A distinção entre o processo de trabalho em
geral e o processo de produção capitalista
Desde
o início do Capital , Marx distingue o processo de trabalho em
geral, que é uma característica antropológica, cuja finalidade é produzir
valores de uso próprios para satisfazer necessidades humanas, e o processo de
trabalho específico do modo de produção capitalista, que representa apenas uma
fase da história humana, cuja finalidade é produzir mais-valia que permita
valorizar o capital. No segundo caso, a produção de valores de uso deixa de ser
uma finalidade para não ser mais do que um meio do valor de que a mercadoria é
o suporte. A partir deste instante, explica Jacques Bidet (1992;1999), existe a
possibilidade de as verdadeiras necessidades sociais não serem satisfeitas e
de, pelo contrário, externalidades, “contra-utilidades” sociais serem
engendradas por um modo de produção “polarizado pelo lucro” (1992, p. 103). O
princípio da crítica ecologista está portanto já, pelo menos implicitamente
segundo T. Benton e J. Bidet, contido nesta distinção estabelecida por
Marx.
Contudo,
Marx consagrou o essencial da sua obra a analisar a contradição, a seus olhos
fundamental, saída da exploração da força de trabalho: a dificuldade para o
capital de fazer produzir e seguidamente de realizar a mais-valia. E Marx teria
em parte desprezado, embora estando consciente delas, as consequências
ecológicas do desenvolvimento do capitalismo. Para o explicar, T. Benton avança
a hipótese de ele ter subestimado as “condições naturais não manipuláveis”
(1992, p. 66) do processo de trabalho e de ter sobrestimado o papel e as
capacidades técnicas do homem. Marx não teria assim podido desligar-se da
perspectiva prometeica de que o século XIX está impregnado e ter-se-ia tornado
culpado de condescendência ou, pelo menos, de falta de vigilância para com
aquilo a que os ecologistas chamam hoje o produtivismo. Esta censura é
contestada por Reiner Grundman (1991) que considera que não se pode assimilar a
vontade de utilizar a natureza na perspectiva de satisfazer necessidades humanas
a um projecto de destruição automática e deliberada desta. A razão disso reside
em que destruir a natureza se voltaria contra a satisfação dessas necessidades.
Ora parece-nos que esse argumento só poderia ser avançado se as práticas de
destruição da natureza fossem intencionais, decididas em função de uma tal
finalidade destrutiva. Se a acumulação do capital resultasse de um projecto
colectivo consciente, não haveria nenhuma razão lógica para que o imperativo de
poupar a natureza não pudesse substituir-se ao de a maltratar, e isso
significaria que o princípio de precaução poderia, potencialmente, inscrever-se
na actividade capitalista. O menos que se pode dizer é que isso parece duvidoso
e, portanto, não se pode isentar totalmente Marx de ter sido uma vítima –
consentidora? – do mito do progresso.
A
discussão precedente introduz a ideia de que o desenvolvimento do capitalismo
engendraria duas contradições. A primeira é aquela a que Marx consagrou toda a
sua vida: ao criar os conceitos de força de trabalho e de mais-valia e ao fazer
da teoria do valor uma teoria crítica das relações sociais capitalistas, Marx
desnuda o antagonismo fundamental entre o capital e o trabalho cuja resolução
só será conseguida com o comunismo. E ele teria descurado no plano teórico uma
“segunda contradição” do capitalismo.
Esta
noção foi exposta por J. O'Connor e vários autores de Capitalism,
Nature, Socialism como Enrique Leff (1986), Paul Burkett (1996),
Stuart Rosewarne (1997), Tim Stroshane (1997) e é retomada por J. Bidet (1992;
1999). A definição desta segunda contradição carece de precisão e varia um
pouco de autor para autor. Para J. O'Connor ela diria respeito aos custos, já
não examinados exclusivamente sob o ângulo económico, mas também os custos dependentes
de “categorias sociológicas ou políticas” (1992, p. 33). Enquanto a primeira
contradição se manifestaria mais na dificuldade em realizar a mais-valia do que
em produzi-la, seria o contrário para a segunda. Esta comportaria dois
aspectos: o primeiro seria, segundo J. Bidet, a privação dos membros da
sociedade “da capacidade de conferirem um sentido à sua existência”. (1992, p.
104); o segundo estaria relacionado, tanto em J. O'Connor quanto em J. Bidet
(1992, p. 105), à “exteriorização de um certo número de custos da produção
social”.
Impõem-se
várias observações. Primeiro, a contradição entre capital e trabalho – aquela
que aqui se designa por primeira – reúne as duas dificuldades que são produzir
e realizar mais-valia: é falso opor sobreacumulação do capital e subconsumo
pois estes dois pontos são indissociáveis e corolários um do outro. Segundo, os
autores, analisando a contradição designada por segunda, deslizam da noção de
externalização para a de exteriorização. O que é que justifica qualificar a
contradição ecológica do capitalismo de contradição “externa” e reservar a
caracterização de contradição “interna” do processo de produção capitalista
apenas para a exploração da força de trabalho (J. Bidet, 1999, p.296)?
Parece-nos que tal constitui um retrocesso quanto ao postulado materialista da
necessária inserção da produção capitalista no ambiente natural. Desde logo, a
primeira e a segunda contradição são ambas internas ao modo de produção
capitalista e não podem portanto ser separadas: sem a exploração da natureza, a
do trabalho não teria tido suporte material, e sem a exploração do trabalho, a
da natureza não teria podido estender-se e generalizar-se; daí decorre que a
crise social e a crise ecológica são as duas faces de uma mesma realidade. [2] De
resto, J. Bidet, a quem se juntou Daniel Bensaïd (1993), aprova André Gorz
(1978; 1992) quando este estabelece um laço entre o reforço da crise ecológica
e a baixa da taxa de lucro. E J. O'Connor confirma este laço dizendo que o
capital reduz as suas possibilidades de rentabilidade à medida que sujeita à
sua lei as condições naturais da produção. Enfim, em terceiro lugar, a privação
da capacidade de dar um sentido à existência não é senão a alienação, já
analisada por Marx e sobretudo completamente ligada à exploração. É verdade que
a destruição da natureza engendrada pela actividade capitalista implica uma
perda de sentido, mas se os desastres ecológicos fossem traduzidos pelo simples
conceito filosófico de alienação ter-se-ia necessidade da ciência chamada ecologia para
os conhecer?
As dificuldades teóricas que persistem
As
questões levantadas precedentemente deixam aparecer a persistência de
dificuldades teóricas que, no seio da investigação marxista actual sobre a
ecologia, se opõem ainda a uma simbiose autêntica. Elas incidem essencialmente
sobre as hipóteses e as finalidades do modelo marxiano.
Em primeiro lugar, a distinção entre as diversas formas do processo de trabalho será suficiente para analisar as relações do ser humano com a natureza? Por outras palavras, o processo de produção capitalista será o único responsável da destruição ou da fragilização dos ecossistemas? Se a actividade humana se contentasse com a produção de valores de uso desapareceria toda e qualquer contradição entre esta actividade e o conjunto dos equilíbrios biológicos? Isso não é certo, e sabe-se que algumas sociedades tecnicamente pouco desenvolvidas e não sujeitas à lei do lucro podem ter que recorrer a práticas agrícolas que esgotam rapidamente os solos. Inversamente, no seio de sociedades tecnicamente avançadas, o desaparecimento do capitalismo é a condição necessária mas não suficiente de uma co-evolução equilibrada dos sistemas vivos. É o que se depreende da verificação estabelecida por J. Martinez-Alier (1987) segundo o qual nem a planificação nem o mercado resolvem o problema da ausência de uma medida comum entre o presente e o futuro. [3] Poder-se-á situar a origem profunda do reconhecimento tardio da questão ecologista pelo marxismo na “insuficiência metaestrutural” da abordagem de Marx, quer dizer no facto de ele ter estabelecido uma identidade entre capitalismo e mercado, proibindo que se pensasse o uso do mundo? Tal é a tese de J. Bidet (1999, p. 297) que tem a vantagem de ligar propriedade, poder e ética.
Em primeiro lugar, a distinção entre as diversas formas do processo de trabalho será suficiente para analisar as relações do ser humano com a natureza? Por outras palavras, o processo de produção capitalista será o único responsável da destruição ou da fragilização dos ecossistemas? Se a actividade humana se contentasse com a produção de valores de uso desapareceria toda e qualquer contradição entre esta actividade e o conjunto dos equilíbrios biológicos? Isso não é certo, e sabe-se que algumas sociedades tecnicamente pouco desenvolvidas e não sujeitas à lei do lucro podem ter que recorrer a práticas agrícolas que esgotam rapidamente os solos. Inversamente, no seio de sociedades tecnicamente avançadas, o desaparecimento do capitalismo é a condição necessária mas não suficiente de uma co-evolução equilibrada dos sistemas vivos. É o que se depreende da verificação estabelecida por J. Martinez-Alier (1987) segundo o qual nem a planificação nem o mercado resolvem o problema da ausência de uma medida comum entre o presente e o futuro. [3] Poder-se-á situar a origem profunda do reconhecimento tardio da questão ecologista pelo marxismo na “insuficiência metaestrutural” da abordagem de Marx, quer dizer no facto de ele ter estabelecido uma identidade entre capitalismo e mercado, proibindo que se pensasse o uso do mundo? Tal é a tese de J. Bidet (1999, p. 297) que tem a vantagem de ligar propriedade, poder e ética.
Para
se cingir o alcance desta problemática, convém previamente reabrir a discussão
sobre a existência ou não de limites temporais. A virulência com que Marx e
Engels se opuseram às teses de Malthus sobre a população marcou profundamente a
história do marxismo. Embora partindo de uma crítica fundamentalmente justa, a
vontade que tiveram de construir uma teoria sócio-histórica do capitalismo teve
sem dúvida efeitos perversos. Engels (1975) rejeitou o princípio de entropia e
condenou sem apelo a tentativa de Sergueï Podolinsky (1880-a; 1880-b; 1880-c)
de articular uma teoria do valor-trabalho e uma teoria do valor energético. Se
é verdade que é impossível reduzir todos os aspectos da actividade humana a um
gasto energético medido em calorias e que é, pois, inútil procurar um
equivalente universal, a tese de S. Podolinsky não se pode resumir a isso, pois
sustenta que, se as técnicas o permitirem, o homem pode produzir mais calorias
do que as que despende, afastando assim a perspectiva de morte térmica. [4] S.
Podolinsky abria o caminho às análises ulteriores de Howard Odum (1971) medindo
a eficácia de um sistema vivo pela sua capacidade para maximizar a sua energia
incorporada a que ele chama emergia . Então, a evolução e a
saída das actividades humanas não dependem mecanicamente de condições naturais,
mas das condições sociais e técnicas de utilização das condições naturais.
Contrariamente àquilo em que Engels tinha acreditado demasiado rapidamente, S.
Podolinsky inscrevia-se pois totalmente numa perspectiva materialista, para
mais marxista, e não merece a indignidade que ainda hoje o atinge em certos
autores marxistas. [5]
Na
realidade, as reticências de Marx e Engels e depois dos marxistas em geral, até
uma data recente, explicam-se grandemente pelo receio de que, por detrás do
argumento dos limites naturais à actividade humana, se dissimula um
conservantismo não assumido. Mas, segundo T. Benton, a questão dos limites
naturais não entra em conflito com projectos emancipadores sob condição de
identificar os elementos do processo de trabalho que são “rebeldes à
manipulação intencional” (1992, p.70), como a fotossíntese, as intervenções
humanas repetidas ou acumuladas que provocam efeitos não desejados e
indesejáveis, como o efeito de estufa, e as intervenções que ocultaram ou
modificaram certos limites, como as manipulações genéticas.
Finalmente
o problema resume-se assim: os “limites” naturais não são imutáveis,
deslocam-se no tempo e no espaço em função da organização sócio-técnica da
sociedade, mas a própria deslocação certamente não é infinita. Não teremos
então de dizer adeus à infinidade do crescimento económico que, segundo Herman
Daly (1992), não pode ser duradouro, e pensar “o para além do desenvolvimento”
que é uma “ideologia em ruína”, como nos convidam a fazê-lo Wolfgang Sachs e
Gustavo Esteva (1996) bem como Serge Latouche (1986)? “Como quer que seja, em
todos os casos, um ecossistema é uma totalidade que não se reproduz senão no
interior de certos limites e que impõe ao homem diversas séries de limitações
materiais específicas”, escreve Maurice Godelier (1984, p.44). Desta feita,
surge outro problema suscitado por Hans Jonas (1990) considerado como o
fundador de uma filosofia do respeito da vida e das condições da vida que ele
designa por princípio de responsabilidade. H. Jonas não é um
filósofo marxista, mas a sua interpelação do marxismo incide precisamente num
dos fundamentos mais importantes deste. Para ele, a ética da responsabilidade é
antinómica com a noção de utopia e, particularmente, a utopia da abundância.
Tendo em conta os limites de tolerância da natureza, a promessa de abundância
deve ser abandonada, nomeadamente porque será impossível fazer aceder os países
subdesenvolvidos ao nível dos países desenvolvidos sem recorrer ainda mais ao
progresso técnico, o que aumenta a contradição para com o princípio da
responsabilidade. As bases materiais da utopia marxista, como de resto as da ideologia
liberal, que teriam permitido passar do “reino da necessidade” ao “reino da
liberdade” (Marx, 1968, p. 1488) nunca estarão reunidas. Mesmo um autor como
Henri Maler, que no entanto se empenhou na reabilitação da utopia marxiana, é
categórico a propósito das forças produtivas herdadas do capitalismo que seriam
portadoras de emancipações: trata-se de “ilusões funestas” (1995, p. 245).
Devemos por tal motivo desinteressar-nos da melhoria das condições materiais de
existência? Não, responde H. Jonas, mas “é muito necessário libertar a
exigência da justiça, da bondade e da razão do isco da utopia” (1990, p. 296).
O princípio de responsabilidade não é, para H. Jonas, compatível com o
princípio de esperança de Ernst Bloch (1977, 1982, 1991). A renúncia à abundância
em H. Jonas deve ser aproximada da noção do “suficiente” em A. Gorz: o
estabelecimento de uma norma do suficiente é incompatível – por via da
autolimitação das necessidades e do esforço consentido que ela implica – com a
busca do rendimento máximo que constitui a essência da racionalidade e da
racionalização económicas” (1992, p. 22) [6] .
De
certo modo, H. Jonas antecipa a rejeição do primado das forças produtivas que
Alain Lipietz, economista e teórico ecologista vindo do marxismo, exprime.
Reduzindo, diz este último, a história do género humano à sua actividade
transformadora, o marxismo “não tem base de sustentação relativamente à
ecologia humana” (1996, p.187) [7] pois
o respeito da diversidade biológica é um princípio de vida e aquele que deve
prevalecer sobre todos os outros. A primeira censura de A. Lipietz é excessiva:
se Marx tivesse reduzido a história do homem à sua história produtiva, o
trabalho teria contido em si mesmo o seu próprio fim – a praxis por
oposição à poiesis -. Em contrapartida, Marx errou sem dúvida
ao considerar a história produtiva como a pré-história humana, condição de
acesso à verdadeira história. A segunda censura tem mais fundamento, mas
paradoxalmente é a que revela o carácter radicalmente incompleto de uma
ecologia que não estivesse inserida numa perspectiva de transformação
social.
2. A ecologia inserida nas relações sociais
As
dificuldades teóricas encontradas pelo pensamento marxista para cingir a
questão ecologista são a imagem invertida daquelas que obstam ainda a uma
integração das lutas ecologistas numa luta global contra o capitalismo. Esta
questão não deixa de evocar os conceitos de desencastramento-reencastramento de
Karl Polanyi (1983) a quem J. O'Connor (1992, p. 30-31) se refere de resto
abertamente para teorizar uma ecologia socialista.
A
ecologia política afadiga-se a desviar-se de uma crítica do produtivismo de
fraco alcance não vendo neste senão a busca de uma “produção sem outra
finalidade que não seja ela mesma”, tal como o define Jean-Paul Deléage (1993,
p. 12). Ora, a crítica que se trata de conduzir é a da produção que não tem
outra finalidade que não seja o valor mercantil pelo lucro que contém, com
desprezo por todos os valores de justiça e de respeito da vida.
A ecologia e o valor
A
tomada de consciência dos desequilíbrios ecológicos obrigou a teoria económica
neoclássica a integrar nos seus modelos as externalidades negativas imputáveis
ao desenvolvimento económico das sociedades modernas: a economia do ambiente
tornou-se assim uma disciplina em plena extensão que tenta reintroduzir no
cálculo económico tradicional os custos sociais engendrados pela degradação do
ambiente. Internalizando pelo mercado as externalidades deste, graças a taxas
ou a licenças para poluir negociáveis [8] a
economia dominante pensa promover a “valorização” dos bens naturais, ou ainda
determinar e ter em conta um pretenso valor económico intrínseco da natureza,
até então, dizem-nos, ignorado.
Mas esta operação – qualificada de sustentabilidade fraca porque conta com uma possível substituibilidade entre elementos naturais esgotados e produtos manufacturados – ameaça perverter a de uma ecologia política que se deixasse apanhar pela miragem da internacionalização cuja problemática encerra várias contradições teóricas inultrapassáveis.
Mas esta operação – qualificada de sustentabilidade fraca porque conta com uma possível substituibilidade entre elementos naturais esgotados e produtos manufacturados – ameaça perverter a de uma ecologia política que se deixasse apanhar pela miragem da internacionalização cuja problemática encerra várias contradições teóricas inultrapassáveis.
A
primeira é apenas poder reter, dentre o conjunto dos custos sociais engendrados
por actividades produtivas poluentes, os custos monetários prejudiciais a
outras actividades. Para mais, esta restrição não é susceptível de ser
assumida: primeiro, explica Elmar Altvater (1991;1992), porque a exploração
pelo capitalismo dos recursos naturais impõe uma velocidade de utilização
superior à dos ciclos naturais; depois, de acordo com R. Passet (1996), porque
implica reduzir o tempo biológico a um tempo económico por interposta taxa de
actualização; e, finalmente, porque, como o demonstrou David Pearce
(1974) [9] ,
ela só faz intervir uma penalidade monetária da poluição quando o limiar de
auto-depuração dos ecossistemas é ultrapassado, baixando-o assim
inexoravelmente.
A
impossibilidade de avaliar monetariamente os elementos naturais não produzidos,
de outro modo que não seja através do cálculo do custo de produção da sua
exploração económica ou do custo de produção da reparação dos danos que lhes
são causados, explica-se em verdade porque a natureza não tem valor económico
intrínseco, contrariamente ao que pretendem os economistas neoclássicos que
fingem melindrar-se pelo facto de a economia política ter tradicionalmente
desprezado o “valor” da natureza. Hoje vários teóricos ecologistas,
nomeadamente Gunnar Skirbekk (1974), J. Martinez-Alier (1992-a), E. Altvater
(1997), E. Leff (1999) e Jean-Marie Harribey (1997; 1999), inscrevendo-se no
quadro da renovação do marxismo, demonstraram que esta asserção era um puro
contra-senso. Se a luz do sol, o ar e a água puros, ou qualquer outro recurso,
condicionam a vida, e se se partir da ideia de que estes elementos têm um valor
económico intrínseco, então tal valor só poderia ser infinito. Ora, um valor
económico ou um preço infinitos para bens ou serviços disponíveis são
contra-sensos. Um tal erro lógico pode ser cometido porque a velha distinção
aristotélica entre valor de uso e valor de troca é rejeitada pelos economistas
neoclássicos que assimilam as duas noções, sem ver que o valor de uso é uma
condição necessária do valor de troca mas que a recíproca não é verdadeira.
Assumindo arbitrariamente como uma identidade valor de uso e valor de troca,
então pode-se persuadir o cidadão de que o máximo de satisfação proporcionada
pelo uso de bens e serviços passa e só pode passar pela maximização do valor de
troca, ou seja, pela mercantilização do mundo. Mas basta um contra-exemplo para
se ter a prova da vacuidade da tese da identidade entre valor de uso e valor de
troca. A luz do sol é necessária para fazer crescer o trigo e contudo o preço
do trigo não contém o “valor” da luz solar, que não tem nenhum sentido. O leite
bebido pela criança ao seio da mãe tem um valor de uso mas não tem valor de
troca, enquanto o leite em pó posto no biberão tem um valor de uso – o mesmo
que o leite materno – e um valor de troca. Assim, nem toda a riqueza é valor, o
que Aristóteles, Smith e Ricardo muito bem tinham pressentido e Marx tinha
incansavelmente repetido. Pelo contrário, o que é típico de uma externalidade
negativa é não constituir de nenhum modo uma riqueza, nem individual nem
colectiva, e no entanto ter por vezes um valor de troca: o resíduo radioactivo
durante milénios pode ser objecto de uma troca comercial apesar de não ter
nenhuma utilidade – excepto a de fazer dinheiro. Deste modo, um preço de
direito de poluir eventual não deve ser considerado como um preço económico; é
obrigatoriamente um preço sócio-político que resulta directamente da norma de
poluição a não ultrapassar considerada pela sociedade, e esta norma, por sua
vez, reflecte as relações de forças na sociedade.
Duas
opções são então possíveis para os ecologistas. Ou se voltam para o mercado
para proceder a uma melhor atribuição dos recursos pela instauração de
eco-taxas ou a venda de direitos de poluir – mas são levados a estender um
pouco mais o campo de uma contabilidade mercantil que precisamente deu provas
da sua incapacidade para levar em conta os fenómenos biológicos, o tempo e a
incerteza –, ou reconhecem a vanidade de querer objectivar em preços as coisas
da natureza e enveredam por um caminho diferente, à semelhança de José Manuel
Naredo (1999) [10] ,
para estabelecer contabilidades-matérias dos recursos naturais, contabilidades
das despesas energéticas, sob condição de não serem convertidas nem em
equivalente-trabalho nem em moeda, e elaborar funções de objectivos laborais
fora de qualquer critério de maximização do lucro. [11]
A
incomensurabilidade dos elementos naturais e das mercadorias ordinárias proíbe
portanto a aplicação da teoria do valor-trabalho[12] aos
primeiros. O “valor” da natureza pertence a um registo diferente do económico e
remete para valores situados na ordem do ético e na do político. Mas nem por
isso perde crédito a teoria do valor-trabalho cujo campo de aplicação nunca foi
nem pode ser senão o da mercadoria. Infelizmente a literatura ecologista está
cheia de escritos que testemunham uma incompreensão da teoria do valor das
mercadorias como teoria das relações sociais capitalistas que presidem à
produção destas mercadorias. Ora, a teoria chamada do valor-trabalho exprime
dois pontos fundamentais para uma problemática ecologista: por um lado ,
“é a lei do menor esforço para a produção de um valor de uso” , diz J.
Bidet (1999, p. 295), e, por outro lado, é a crítica da produção pelo lucro em
detrimento das necessidades sociais, de um uso racional da natureza e, de modo
mais geral, da justiça social. A teoria do valor está pois no centro de uma
teoria geral que integra a ecologia e a organização social.
A ecologia e a justiça
No
caso de identificar claramente a acção tendente à preservação dos equilíbrios
naturais como uma componente da acção anti-capitalista, a ecologia traz ao
marxismo uma dimensão que este não tinha tomado em conta até então: a equidade
intergeracional. A justiça social pode pois doravante ser encarada numa dupla
vertente: no presente, no seio das sociedades actuais marcadas por profundas
desigualdades em termos de poderes, de rendimentos, de condições de vida e de
trabalho, de acesso aos recursos naturais, aos cuidados, à educação, à cultura,
e, no decurso do tempo, entre as diferentes gerações, em termos de acesso aos
recursos naturais.
Na
encruzilhada da ética e da política, a relação entre ecologia e justiça social
contém pelo menos três exigências fundamentais de ordem teórica e
prática.
A
primeira exigência é a elaboração de uma teoria da justiça que integre três
dimensões: uma teoria crítica da injustiça hic et nunc , uma
teoria de uma sociedade justa e uma teoria para se ser justo numa sociedade
ainda injusta. A teoria de John Rawls (1987) não satisfaz estas condições
porque parte de uma concepção individualista do contrato social e da cooperação
que dele deve resultar. Ela afasta qualquer ideia de regulação que não seja a
que é assegurada pela ordem mercantil, supostamente eficaz. J. Bidet (1995, p.
1130-135) mostrou que esta construção não concedia nenhum lugar a um projecto
colectivo, e, sobretudo, constituía uma regressão relativamente ao imperativo
categórico kantiano não enunciando um princípio de acção a favor de uma melhor
justiça imediata. Além disso, segundo J.M. Harribey (1997), a noção rawlsiana
de bens sociais primeiros, que incide nos direitos e liberdades garantidos a
todos, deveria, a fim de ter um alcance real, ser estendida ao direito ao
acesso aos recursos naturais e ao direito ao acesso aos empregos que
condicionam o acesso aos recursos produzidos.
A
segunda exigência prende-se com a definição dos direitos de propriedade
colectivos que hoje faz cruelmente falta tanto a uma refundação de um projecto
socialista como à emergência de um projecto ecologista e, evidentemente, a um
projecto eco-socialista. O fracasso dos colectivismos – ou dos capitalismos –
de Estado, por um lado, e a imputação das degradações da natureza à ausência da
propriedade privada desta, por outro, obstam à reflexão sobre as formas que
poderia tomar a propriedade colectiva dos bens que pertencem à humanidade na
sua totalidade como o ar, a água e todos os recursos que condicionam a vida. As
análises do economista neoclássico Ronald Coase (1960) a propósito da
inatauração de direitos de propriedade privada sobre a natureza e as do biólogo
Garret Hardin (1968) sobre as enclosures procedem a uma
assimilação abusiva da propriedade colectiva à não-propriedade. As propostas
para se fundar novos direitos colectivos no presente e no futuro ainda vão no
enunciado de princípios: assim, E. Leff (1999, p. 99-100) fala de direitos de
propriedade colectivos sobre a natureza que permitam a reconstrução dos
processos de produção comunitários, estabelecidos no respeito da autonomia
cultural e no quadro de movimentos sociais.
Se
a elaboração de uma teoria da justiça e de uma teoria dos direitos de
propriedade colectivos se revela difícil, há um ponto cuja teorização é mais
fácil embora a sua aplicação seja delicada. Diz ele respeito à terceira
exigência para ligar ecologia e justiça social: a partilha dos ganhos de
produtividade e a sua afectação prioritária à diminuição da duração do trabalho
para melhorar a qualidade de vida, em detrimento do crescimento perpétuo da
produção, desde que as necessidades materiais essenciais estejam satisfeitas.
Observar-se-á que, nessa perspectiva, se trata novamente de uma reapropriação
colectiva, desta vez da riqueza criada, através da reconquista do tempo de que
o capitalismo se tinha apropriado desde a aurora da revolução industrial.
Domínio do seu tempo de vida por cada ser humano e respeito do tempo que
conduziu ao desenvolvimento e à complexificação dos sistemas vivos, tais são
precisamente os dois termos inseparáveis de uma ecologia política marxiana. [13]
Nem
a crise ecológica sucedeu à “questão social” – pois estão ligadas –, nem a
ecologia política suplantou o marxismo enquanto instrumento de análise do capitalismo
e enquanto projecto político. A ecologia política não nasce do nada e é
herdeira de perto de dois séculos de lutas sociais contra a exploração e a
alienação. Como o mostrou A. Gorz (1991), a ecologia inscreve-se na
continuidade da história operária em dois planos: o da reivindicação de justiça
social e o da contestação da racionalidade económica capitalista; mas afasta-se
dela quanto à adesão ao mito do progresso material infinito. É a razão pela
qual, inversamente, o marxismo tradicional não esgota as questões postas pela
evolução das sociedades modernas.
No
plano epistemológico, o encontro entre a teoria materialista de Marx e a
ecologia política apoia-se na recusa de um método individualista. “O
individualismo metodológico choca com a dificuldade ontológica intransponível
de ter em consideração as gerações futuras”, escreve J. Martinez-Alier (1992-a,
p.23-24). A abordagem sócio-histórica da vida dos homens é holista e o conceito
de biosfera é também holista. As relações sociais como as interacções na
biosfera são vistas de maneira dialéctica. A construção de uma ecologia
política marxiana ou de um marxismo ecológico vingará, se lograrmos ultrapassar
a fetichização das relações do homem com a natureza desligadas das relações
sociais. Dois escolhos, espelhos um do outro, são então de evitar: por um lado,
o que Jean-Pierre Garnier (1994, p.300) chama a “naturalização das contradições
sociais” (versão de um ecologismo mitigado que negaria a lógica da acumulação
do capital e as suas consequências sobre a maneira como os homens se apropriam
da natureza), e, por outro, a socialização das contradições da destruição da
natureza (versão de um marxismo trivial que se teria deixado ficar pela ideia
de que apenas as relações de propriedade pervertem o uso da técnica e da
natureza).
De
negativo, pode-se mesmo dizer que o marxismo e a ecologia política apresentam
defeitos gémeos: por exemplo, à inclinação do marxismo para uma gestão
centralizada da sociedade responde a crença de um H. Jonas na eficácia de um
poder autoritário para adoptar e impor medidas de salvaguarda, ou, ainda, o
marxismo e a ecologia são um e outro atravessados por numerosas correntes e
possuem os seus fundamentalistas respectivos.
Enfim,
uma dificuldade considerável fica por resolver no rumo de um paradigma
ecológico marxiano: que forças sociais são susceptíveis de gerar um projecto
maioritário democrático de transformação da sociedade para avançar no sentido
de maior justiça em relação às classes mais desfavorecidas e às gerações
vindouras? J. Martinez-Alier (1992-a, p. 25-26) avança prudentemente que os
movimentos sociais são portadores da aspiração ecologista pois a polarização da
riqueza agrava os saques sobre os recursos naturais e as reivindicações sociais
visando melhorar as condições de trabalho, de higiene e de segurança obrigam os
capitalistas a integrar certos custos sociais. Por outro lado, a dimensão
internacional da luta anticapitalista pode encontrar um prolongamento na
reivindicação universal de um planeta onde todos os seres vivos tenham
condições para viver. Isso só se tornará realidade através da instauração de um
direito mundial livremente consentido que seria um “direito a um uso igual”,
segundo a fórmula de J. Bidet (1999, p.305).
Costuma-se
dizer que o homem é o único ser vivo que pensa a natureza. É também o único que
pensa a sua organização social e que orienta a respectiva evolução. Por estas
duas razões, cabe-lhe uma grande responsabilidade que pode constituir a base de
um novo humanismo universalista.
NOTAS
[1] Ver J. P. Deléage [1992]
[1] Ver J. P. Deléage [1992]
[2] Ver P.
Rousset (1994) e J. M. Harribey (1997). Insistimos num ponto lógico: o
capitalismo desenvolve as duas contradições em conjunto – elas são-lhe pois
internas –, o que não significa que ele seja o único modo de produção a ter de
encarar a contradição relativamente à natureza, como veremos mais longe.
[3] J.
Martinez-Alier insiste também noutro lugar (1992-a) no facto de que o debate
entre F. Hayek e O. Lange nos anos 1930 não tinha colocado o problema da
alocação intergeracional dos recursos não renováveis.
[4] Ver F.
D. Vivien (1994; 1996).
[5] Por
exemplo, M. Husson (2000, p. 141).
[6] Ver
também A. Gorz (1988, p. 142).
[7] Estamos
longe da provocação de M. Husson (2000, p. 72): “A humanidade pode viver sem
baleias ou sem tartarugas, como aprendeu a viver sem dinossauros”. O argumento
deste outro economista marxista é que é necessário defender a biodiversidade,
não por razões utilitaristas, mas em nome de valores éticos ou estéticos. Ora,
como é justamente a posição da maior parte dos ecologistas, a condenação
pronunciada por M. Husson contra estes últimos invalida-se a si mesma. Mas,
mais importante é notar que é ténue a fronteira entre a opinião expressa atrás
por A. Lipietz e a da tendência extrema da ecologia profunda (deep ecology),
donde a dificuldade em conceber um humanismo consciente da necessidade de
respeitar todas as formas de vida, tão afastado de um antropocentrismo
utilitarista para com as outras espécies vivas como de “uma ética normativa não
humanista, até mesmo anti-humanista” que seria, diz-nos J. P. Maréchal (1997,
p. 176), “uma contradição”.
[8] A
eco-taxa vem de uma ideia de A. Pigou (1958) que data de 1920 e as licenças
para poluir negociáveis foram teorizadas por R. Coase (1960) que afirma que a
internalização dos efeitos externos pode ser obtida sem intervenção do Estado
que não seja o simples estabelecimento de direitos de propriedade e unicamente
pela negociação mercantil entre os poluídos e os poluidores, qualquer que seja
a repartição inicial dos direitos entre eles.
[9] Para
uma breve apresentação, ver J. M. Harribey (1998).
[10] No
seio da corrente dita da economia ecológica (Ecological Economics) e numa
perspectiva pós-clássica, ver também M. O'Connor (1996).
[11] Depois
da adesão do governo francês à proposta de criar um mercado dos direitos de
poluir, reforça-se a oposição entre aqueles que, como A. Lipietz (1998;1999),
lhe são favoráveis e aqueles que, como M. Husson (2000), os rejeitam
decididamente. Esta oposição será intransponível na medida em que parece que a
utilização de instrumentos económicos continua possível desde que seja
subordinada à decisão política? A eco-taxa ou o preço do direito de poluir não
podem ser preços de mercado visto que não se pode avaliar a natureza. A.
Lipietz não está em condições de afirmar que o mercado das licenças de poluir é
o melhor sistema “em teoria” porque a teoria neoclássica é
falsa de uma ponta à outra: ela reduz todos os comportamentos humanos à
racionalidade do homo oeconomicus ; ela procede como se a
dificuldade de construir funções de preferências individuais e colectivas
estivesse ultrapassada; ela ignora a interdependência entre as decisões dos
agentes; ela silencia o facto de estar hoje demonstrado que a existência de
externalidades impede o sistema concorrencial de ser um “optimum” de Pareto e
de a impossibilidade de atribuir um preço à natureza proibir o restabelecimento
desse “optimum” por uma simples eco-taxa ou uma licença de poluir mercantil;
ela considera os factores de produção – incluindo os factores naturais – como
continuamente substituíveis; e ela confunde o valor de uso e o valor de
troca.
[12] Nada se diz, claro, da chamada teoria do valor-utilidade defendida pela economia neoclássica pois ela não é sequer uma teoria do valor das mercadorias, mas simplesmente uma legitimação da apropriação deste último.
[12] Nada se diz, claro, da chamada teoria do valor-utilidade defendida pela economia neoclássica pois ela não é sequer uma teoria do valor das mercadorias, mas simplesmente uma legitimação da apropriação deste último.
[13] Numerosos
teóricos exploraram esta via; poder-se-á consultar A. Lipietz (1993) e J. M.
Harribey (1997). J. Becker e W. G. Raza (2000) tentaram integrar teoria da
regulação e ecologia política.
[*] Professor na Universidade de Montesquieu- Bordeaux IV, França. Sítio web pessoal em http://harribey.montesquieu.u-bordeaux.fr/ . Este artigo faz parte do Dictionnaire Marx contemporain (sob a direcção de Bidet J., Kouvélakis), Paris, PUF, Actuel Marx Confrontation, 2001, p. 183-200. Tradução de Fernando Ic. Martins.
[*] Professor na Universidade de Montesquieu- Bordeaux IV, França. Sítio web pessoal em http://harribey.montesquieu.u-bordeaux.fr/ . Este artigo faz parte do Dictionnaire Marx contemporain (sob a direcção de Bidet J., Kouvélakis), Paris, PUF, Actuel Marx Confrontation, 2001, p. 183-200. Tradução de Fernando Ic. Martins.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info

Nenhum comentário:
Postar um comentário