segunda-feira, 5 de março de 2012

Tudo se junta em Manaus: o PIM como espaço de construção da sociabilidade operária

Elson de Melo

Por: Elson de Melo (*)

" A 1ª grande assembléia e a mais importante decisão.
31 de julho de 1985 os metalúrgicos dizem:
os patrões disseram não a greve é a solução!
Greve até a vitória!!!"

Dia 31 de julho de 1985, pela manhã os Diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus, fazem uma grande mobilização na entrada do Distrito Industrial, foram distribuídos panfletos convocando a Categoria para uma Assembléia Geral decisiva sobre a proposta dos trabalhadores. Além dos panfletos (mosquitinho) foi hasteada uma grande quantidade de Flâmulas Amarelas com letras pretas com os dizeres: “Assembléia decisiva hoje. Compareça!”.

A tarde no final do expediente pareciam que todos os ônibus que faziam rotas para o Distrito Industrial, foram desviados para o centro de Manaus, o destino era o Campo do Oratório na igreja de São José Operário na Esquina da Rua Ramos Ferreira com Visconde de Porto Alegre. Eram Homens e Mulheres que desciam em romaria em direção esse local. Todo esse ritual fazia parte da indignação dos trabalhadores diante da situação de salário e das condições de trabalho a que eram submetidos dentro das fabricas. Naquele momento aquela multidão de Operários e Operárias estava fazendo história. Caminhavam para realizarem a maior e a mais importante Assembléias da história dos Trabalhadores do Amazonas. Click aqui para continuar lendo...

O texto acima teve a finalidade de resgatar esse momento histórico da cidade de Manaus e a reação de uma nova classe de trabalhadores que dava os primeiros passos para sua formação esquento operários. Hoje estamos vivendo a primeira geração de Operários do Distrito Industrial de Manaus(PIM), nós que protagonizamos a primeira Greve Geral fazíamos parte do chamo de trabalhadores não operários (trabalhadores que começaram suas atividades laboral ainda no interior do Amazonas, Pará e outros estados) só para exemplificar: o Presidente do Sindicato na época Ricardo Moraes, nasceu em Catutuba interior do Município de Manicoré(AM) de onde migrou primeiro para Humaitá(AM) e depois para Manaus, este narrador Elson de Melo, nasceu na Comunidade do Novo Amazonas interior do Munícipio de Urucurituba(AM), como nós, cada trabalhador que participou daquela Greve, tem uma história parecida, viemos para Manaus em busca de um novo horizonte. O Ensaio que publico abaixo, narra um pouco desse rico momento para nossa história, penso que nossa querida Academia deveria dar uma contribuição cientifica mais aprofundada sobre a história desse complexo modelo Zona Franca de Manaus, que a cada ano afere mais e mais bilhões de dólares e o que sobra para circular em Manaus é apenas 8% desse valor, no entanto, a cidade tem que ver seus habitantes conviverem com a falta de investimento na infraestrutura urbana e com a qualidade de vida comprometida das famílias dos operários. Parabenizo o Autor Milton Melo dos Reis Filho, pelo trabalho e compartilho com os nossos leitores esse lucido e detalhado Ensaio! Cnfira e boa leitura...

* Elson de Melo ... Sindicalista


Milton Melo dos Reis Filho[1]

Resumo:

Este artigo é resultado das discussões realizadas ao longo da disciplina “Atividade Programada II - O papel da Geografia Crítica na Pesquisa Urbana e Regional” ministrada pelo professor doutor Miguel Kanai da University of California, Los Angeles (UCLA), após fazer suas inquirições iniciais sobre os vários projetos doutorais. O estudo pretende realizar uma discussão sobre a cidade de Manaus que sentiu na sua geografia o reflexo de significativas mudanças, a partir dos anos 1970, o que culminaram com a acelerada ocupação do espaço. Novos sujeitos foram atraídos pelos desafios oriundos da chamada Zona Franca de Manaus e pelo grande projeto da implantação do seu Pólo Industrial. Este que passou a ser o grande espaço de inserção do trabalhador operário nos vários setores da indústria. Busca-se descobrir a novidade nas lutas mais tradicionais do Pólo Industrial de Manaus, na ocupação do espaço, na resistência, na forma de fazer-se classe e história para o movimento social no Amazonas. Os novos ideais inseriram o Pólo Industrial de Manaus no espaço de construção e sociabilidade operária nos anos 1980.

Palavras-Chave: Manaus, Pólo Industrial, Sociabilidade Operária

Abstract:
________________________________________
This article is the result of discussions with the subject "Scheduled Activity II - The Role of Critical Geography in Urban and Regional Research" given by Professor Dr. Miguel Kanai of the University of California, Los Angeles (UCLA), after making your initial inquiries about the number of doctoral projects. The study intends to hold a discussion about the city of Manaus that he felt in his geography reflect significant changes from the 1970s, which culminated with the rapid occupation of space. New subjects were attracted by the challenges from the so-called Free Zone of Manaus and the general design of the implementation of its Industrial Pole. This one became the great space for the insertion of workers employed in various sectors of industry. Seeks to discover the novelty in the struggles of more traditional Industrial Pole of Manaus, in the space occupation, resistance, in order to make up class and history to the social movement in the Amazon. The new ideas inserted the Industrial Pole of Manaus in the space of sociability and construction workers in the 1980s.

Keywords: Manaus, Industrial Pole, Sociability Workers

Foi precisamente a partir dos anos 1960 que a cidade de Manaus sentiu na sua geografia o reflexo das significativas mudanças. Mudanças que culminaram com a acelerada ocupação do espaço, religando o ser aos desafios propalados pela Zona Franca de Manaus. Constitui-se um novo cenário no imaginário do homem do campo e da cidade, onde tudo se junta em Manaus. Assim como o cenário contemporâneo de Los Angeles mostrado por Soja (1993) em sua obra “Geografias Pós-Modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica”, Manaus, também, apresenta o Pólo Industrial de Manaus (PIM) como espaço de atração do trabalhador rural para a indústria. Esse novo campo no qual os trabalhadores foram inseridos passou a exigir-lhes um perfil, o do trabalhador operário. Ainda prevalecia o sonho de melhorar de vida, a busca por novas oportunidades, enfim, da realização pessoal e profissional.

A ideia do estudo de um tema vinculado à nossa história de trabalhador da indústria manauara na década de oitenta vem se somar a uma pesquisa realizada no curso de especialização em “História e Historiografia da Amazônia”, promovido pelo Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas em 2004. Amadurecido ao longo das discussões travadas no decorrer do referido curso, este tema continuou a ser construido no âmbito do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia, através das discussões em sala de aula e no processo de orientação.

Há necessidade de novas produções nesse campo temático de estudos investigativos em face do pouco que tem sido produzido em relação à história do movimento operário no Amazonas, mais enfaticamente, quando se trata exclusivamente da década de 80 do século XX.

Este estudo se justifica pela originalidade que apresenta em procurar compreender a história do operariado amazonense, a partir da fala e expressão dos próprios operários que foram os sujeitos centrais desta pesquisa. Busca-se também descobrir a novidade nas lutas mais tradicionais do Pólo Industrial de Manaus, na ocupação do espaço, na resistência, na forma de fazer-se classe e história para o movimento social no Amazonas. Novos atores sociais surgem permanentemente, aparecem e desaparecem sem cessar, e a instabilidade indica dinamismo e experimentação constantes.

Vivemos no limiar de um período pós-industrial com as transformações tecnológicas da informática e da robótica. As técnicas de produção e as articulações sociais foram alteradas. O mundo industrial centralizado e concentrador, na grande empresa e na grande cidade, cede gradativamente lugar às novas estruturas mais flexíveis e descentralizadas através de redes de computadores.

Os novos ideais inseriram o Pólo Industrial de Manaus no espaço de construção e sociabilidade operária nos anos 1980. A nova reconfiguração no espaço fabril foi marcada por disputas, avanços e recuos nos quais os principais protagonistas foram os trabalhadores. Aqueles que dividiam preocupações e ideias na tentativa da construção de uma classe social, a classe social operária no Amazonas. O fazer-se classe foi o exercício incansável do operariado amazonense. Para esse exercício o Pólo Industrial de Manaus contou com o apoio e a participação da camada expressiva de trabalhadores que passaram a alterar a ocup ação do espaço no PIM.

Novos cenários passaram a constituir-se no PIM. A começar pelo pátio da fábrica, horas de lazer, principais avenidas, principalmente a antiga Bola da Suframa. Esta representou o cenário mais marcante por ser o ponto de confluência do operariado, onde todos os ônibus que partiam das fábricas intercruzavam-se naquele local. Isso possibilitava o encontro dos trabalhadores para a realização de reuniões e deliberações necessárias ao fortalecimento da classe. A comissão de mobilização do sindicato dos trabalhadores utilizava os diferentes espaços para trabalhar em cima de Assembleia Geral com o intuito de decidir pela greve no Distrito Industrial de Manaus, caso os empresários não atendessem as reivindicações dos operários, sobretudo as econômicas.

As disputas entre operários e empresas eram de modo original, na guerra do som, porque diante das manifestações relâmpagos da presidência do Sindicato, Ricardo Moraes, a CCE atacou, nos seus auto-falantes com músicas do “Barão Vermelho”, “Paralamas do Sucesso”, e “Kid Abelha”, entre outros.

O espaço fabril alterava-se continuamente. Essa alteração ocorria quando os patrões diziam não às reivindicações do operariado e as manifestações dos operários metalúrgicos se davam por meio de bandeiras. O PIM amanhecia infestado de bandeiras, faixas e bandeiras gigantescas, conclamando os trabalhadores a se fazerem presentes às 18h30min do dia para decidirem se a categoria aceitava ou não a contra-proposta dos patrões. Se o que os patrões propusessem não agradasse aos metalúrgicos, eles entrariam em greve a partir do encerramento da Assembléia.

Em alguns casos a disputa ocorria pelo espaço da fala nos diferentes embates fabril do Pólo Industrial de Manaus. O presidente do sindicato, já rouco, suportou por quase trinta minutos a provocação dos auto-falantes da empresa, mas em dado momento não aguentou e passou a agredir a diretoria da empresa de forma mais popular. “Esses auto-falantes deveriam estar dentro do quarto da mãe do diretor da CCE” [2].

O tom foi sempre esse; quando a multidão se inflamava cada vez mais, a ponto de impedir a passagem de carros particulares, a direção da empresa mandava que os ônibus que transportavam os trabalhadores arrancassem. Quando isso ocorria, a parafernália era geral e muitos operários voltavam para suas casas a pé.

O interior das empresas era palco dos mais variados acontecimentos e, para exemplificar, vejamos o que acontecia dentro da Dismac S/A.
  • Para a ida ao banheiro, são cinco minutos, caso demore mais cinco minutos é anotado na ficha do indivíduo, o atraso. O pessoal do escritório não pode comunicar-se com ninguém da produção. Inaugurou-se um restaurante novo, mas devido ser mais distante que o antigo, houve problema de horário com pessoal que se atrasou. Os trabalhadores fizeram uma reunião e foram reclamar o pouco tempo, e conseguiram quinze minutos para merendar. Mas acontecia que mesmo assim as pessoas que foram merendar (depois do expediente) tiveram uma surpresa: o chefe dos motoristas deu ordem para todos os ônibus saírem no horário determinado, deixando muitas pessoas que deveriam ir nas rotas porque foram merendar. Agora continua a luta pela merenda. (Arquivo P.O. Jornal O Parafuso – 05/88).
Os trabalhadores, organizados nos grupos pastorais, colocavam como desafios a efetiva solidariedade com a massa dos trabalhadores pela justiça social. Havia necessidade de uma política de formação sólida aos militantes cristãos. Neste campo de ação o eixo do ensino social da igreja centrava-se no homem, pessoa solidária e seu trabalho.

A Igreja propõe e defende a propriedade e valor do trabalho sobre o capital. Para ela o trabalhador precisa ter uma remuneração que lhe assegure e à sua família uma vida condizente com a dignidade humana, este foi o grande sentido cristão do trabalho. Na perspectiva de uma sociedade participativa e embalada pelos anseios de redemocratização e livre expressão, a Pastoral Operária resgata o princípio de liberdade como direito de organização do trabalhador através do sindicato. O trabalhador operário tinha um universo bem amplo para atuar na construção do fazer classe (comissões de apoio, na arrecadação, discussões e esclarecimentos de pauta, mobilização da categoria, distribuição de boletins, entre outras).

A década de 80 colocou o operário metalúrgico em ação. Enquanto os empresários discutiam em sua Assembléia Geral suas propostas, os dirigentes sindicais dos metalúrgicos movimentavam-se nas ruas do Distrito Industrial convocando os operários para a grande assembléia e para estudarem as propostas dos patrões. As estratégias para a mobilização se davam de várias maneiras: informes nas portas de fábricas, o trabalho da formiguinha e do mosquitinho realizados pelos próprios operários. Esse trabalho implicava na divulgação de informações e acerto para a mobilização do dia seguinte, ou seja, como o trabalhador deveria proceder ao chegar ao seu trabalho. Foi uma tarefa muito árdua, pois nos anos 1980, os meios de comunicação não expressavam com elogios os anseios da classe trabalhadora. O espaço na mídia ainda era muito direcionado ao seu público, embora, alguns veículos de comunicação, muito tardiamente, tenham colaborado.

Os anos oitenta suscitaram novas configurações na expressão identitária dos trabalhadores, cujo fenômeno não é extensivo ao conjunto dessa classe, mas à sua representatividade que se apropria de novos padrões de ação coletiva, o que nos permite falar da emergência de novos sujeitos políticos. Estes atores sociais são parte de um cenário novo, de novas práticas sociais que estavam emergindo na história social do país. Eles foram interpretados a partir de suas linguagens e valores que professavam como indicadores da emergência de novas identidades coletivas. Sader (1988) examinou com primazia este tema no livro “Quando os novos personagens entram em cena”.

É com o espírito de ousadia, da força e da coragem que os operários do Pólo Industrial de Manaus encararam este cenário. Era o novo sindicalismo que emergia assumindo uma perspectiva combativa e classista, eram os novos movimentos sociais que se forjavam de forma autônoma e por fora dos partidos políticos e da tutela do Estado num processo de auto-organização, reivindicando direitos e não trocando favores como os “velhos” movimentos do passado. Era o surgimento de uma nova sociabilidade presente em associações comunitárias onde a solidariedade e a ajuda mútua se contrapunham aos valores da sociedade burguesa, eram os novos movimentos sociais que politizavam espaços antes silenciados e enclausurados.

De onde ninguém esperava, parecia emergir novos sujeitos coletivos, criando seu próprio espaço e requerendo novos conceitos para sua inteligibilidade.

É o momento de expressão de uma cidadania voltada para o estabelecimento de relações entre as condições de existência posta para os trabalhadores, sob os auspícios do estado de direito. Sader (1988, p. 44) recorre ao modo como Thompson (1987) concebe a constituição histórica das classes sociais para reafirmar o fato de que “as classes acontecem à medida que os homens e mulheres vivem suas relações de produção e experimentam suas situações determinantes, dentro do conjunto de relações sociais com uma cultura e expectativa herdadas, e ao modelar essas experiências em formas culturais”.

Seguindo o rastro compreensivo deste autor, podemos dizer que, embora as pessoas se encontrem, numa sociedade estruturada, já determinada, a reconstituição histórica das classes depende da experiência das condições dadas, o que implica tratar tais condições no quadro de significações culturais que as impregnavam. É na elaboração dessas experiências que se identificam interesses e se constroem coletividades políticas, sujeitos coletivos e atores sociais (movimentos sociais).

A sociabilidade operária contribuiu com aplausos, reconhecimento e a qualificação da classe trabalhadora em Manaus. Além disso, a participação dos diferentes segmentos e lideranças passou a dar suporte à construção da classe operária, nos momentos de avanços nas conquistas sociais e trabalhistas. Esses momentos contaram com a presença de vários sindicatos de classe, como foi o caso do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio Varejista, que decretou ali estar para prestar em nome de sua classe, solidariedade aos grevistas. Outro líder sindical que pediu a palavra foi o representante do sindicato dos Motoristas Profissionais. Todas as igrejas católicas de Manaus reverteram a apuração durante as missas, em benefício do fundo de greve dos metalúrgicos que estavam paralisados.

Numa tentativa de melhor adequação aos novos padrões sindicais foi preciso que os trabalhadores no seu local de trabalho começassem a se organizar. Neste enfrentamento direto com os patrões que se dava no cotidiano fabril só os operários podiam lutar. Foi exatamente nesse contexto que propuseram as comissões de fábrica. Os trabalhadores dentro das fábricas passaram a conversar sobre os seus problemas, condições de trabalho, demissões, alimentação e transportes, equipamentos de produção, dentre outros. Esta organização foi sendo feita gradativamente, conversando individualmente porque não era interessante ser demitido, mas continuar dentro da fábrica organizando os operários. Nas paradas de ônibus poucos conversavam. Este silêncio não contribuía em nada. Era importante começar a conversar porque era deste ato que surgiam as inquietações. Sentia-se, então, a necessidade de que todos os operários se empenhassem para a criação das comissões de fábrica o quanto antes.

Entre estes militantes não havia um modelo pronto e acabado, mas sempre se buscou a construção coletiva. E, neste caso específico, as comissões de fábrica era uma organização a fazer. Na década de 80 já se conseguia visualizar algumas experiências concretas no então Distrito Industrial. Os trabalhadores estavam fazendo os seus caminhos, encontrando e discutindo seus problemas com dificuldades, mas com uma vontade imensa de apressar a organização dos trabalhadores. As comissões de fábrica foram também uma bandeira de luta da CUT, portanto, era preciso começar a participar da história contribuindo na construção das comissões de fábrica no interior das empresas.

O operariado amazonense deve muito a Sociedade Civil organizada porque esta montou de forma solidária uma infra-estrutura capaz de dar suporte completo no dia da eleição do sindicato (rádio amador para acompanhar todos os passos das urnas, pessoas suficientes, carros e seguranças). Contribuiu com a logística para a retomada do Sindicato em 1983. Este foi, pois, um processo muito rico, uma compreensão de sociedade civil e de seu papel, o que nos dias de hoje não presenciamos acontecimentos semelhantes no campo da militância operária. Os tempos são outros, aquele era um tempo de afirmação identitária e de construção de uma concepção de classe.

Nos anos oitenta, precisamente em 1985, registrou-se a maior greve no Distrito Industrial de Manaus. A Bola da Suframa pôde contar com a participação de trinta mil trabalhadores. Então o número de trabalhadores marchando nas ruas do Distrito Industrial era enorme. Foi uma das greves de maior repercussão que já houve no nosso Estado, na nossa cidade, foi um momento histórico. Foi uma greve geral da categoria. O movimento foi tão forte que conseguiu abarcar várias outras categorias não participantes da categoria metalúrgica.

Foi no clima da solidariedade que a cidade de Manaus parecia toda juntar-se no PIM. A solidariedade aos operários era vista por vários ângulos, impressionando o próprio presidente, Ricardo Moraes, do Sindicato dos Metalúrgicos com a proposta rápida e amiga da população de Manaus. As parabenizações aos trabalhadores pelos seus atos e ousadias soavam em tom de incentivo, salientando que a greve é um direito de todos os trabalhadores e afirmando que sairiam vitoriosos na batalha travada contra a exploração dos trabalhadores brasileiros. A cidade inteira parecia estar solidária, menos a Polícia Militar. Porém, esta já entendia que estava ali para defender a propriedade privada, que para isso foi inventada. Ela jamais poderia cometer os excessos, tão comuns, da Velha República. Um ato que também chamou muito a atenção foi a atitude de uma senhora de seus 60 anos. Ela foi ao Sindicato, com um pequeno embrulho nas mãos. Era uma mulher visivelmente pobre e humilde. E foi com toda a humildade que ela entregou ao Fundo de Greve meio quilo de café, “para os meninos que querem ganhar mais para ajudar a família a não passar fome” (Reis Filho, 2008, p. 127). Como ela fez questão de deixar bem claro.

O gesto desta senhora remonta todo o espírito da solidariedade operária, ou seja, uma compreensão da sociedade civil em relação aos trabalhadores do Parque Industrial de Manaus. Na década de oitenta a ação coletiva era algo presente nos corações e mentes da humanidade, todos lutavam em prol das causas comuns, oposto do que visualizamos na sociedade capitalista, globalizada, onde o senso da sociabilidade perdeu sua importância. Na década de oitenta, segundo Blass (1992, p. 10) “o imaginário político, os vínculos afetivos criados no desenrolar das lutas, a solidariedade e paixões envolvem-se nas práticas grevistas”. Hoje a luta pelo que é “nosso” perdeu completamente a sua preferência em detrimento do que é “meu”. As lutas sociais não mais envolvem a coletividade, perderam seus referenciais.

Nunca é demais lembrar que a competitividade não se dá apenas com empresas e com o comércio e geral, mas por ser ideológica ela passa a se dar com as pessoas também. As pessoas se tornam competitivas entre si quebrando os princípios sociais da solidariedade e os princípios éticos que permitem uma convivência social. Esta áurea de competitividade acirrada gera a chamada “violência estrutural” que tem como base o fato de todos serem chamados a competir sob a lógica global da reprodução capitalista: “Num mundo globalizado, regiões e cidades são chamadas a competir e diante de tais regras atuais de produção e dos imperativos atuais de consumo, a competitividade se torna também uma regra de convivência entre as pessoas” (Santos, 2001, p.57).

Não há mais uma divisão nítida entre o comportamento das pessoas de forma que a política (cerne da atividade de organização humana) passa a ser dominada pelas empresas; daí a expressão “da política dos Estados a política das empresas”. A globalização tem levado as pessoas a se comprometer ideologicamente com o capital gerando uma competitividade excessiva, destruindo toda a solidariedade social. “A globalização mata a noção de solidariedade, desenvolve no homem a condição primitiva de cada um por si, como se voltássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade pública e particular a um quase nada” (Santos, 2001, p.65).

Mas na década de 80 a solidariedade operária não pára. Diversas entidades manifestavam apoio aos trabalhadores. A Associação dos Docentes da Universidade do Amazonas – ADUA, que contribuiu com um milhão de cruzeiros; o Sindicato dos Assistentes Sociais que contribuiu com duzentos mil e dois carros; a Associação dos Professores Profissionais do Amazonas – APPAM cedeu um mimeógrafo; o apoio do público; PCdoB; Convergência Socialista; Sindicato dos Vidros e Cristais; Partido dos Trabalhadores- PT; Partido Comunista do Brasil – PCB; Pastoral Operária; Setor Jurídico, Hospital Universitário Getúlio Vargas; CNBB – Norte I; Centro da Defesa dos Direitos Humanos; CIMI; AGB; Serviço Paz e Justiça; Associação Nacional dos Professores Universitários de História; diversos políticos amazonenses também apoiaram e colaboraram com o fundo de greve.

Toda a expressão dessas entidades convergia para a mobilização e construção da classe operária, alterando cotidianamente a rotina dos trabalhadores. Eles entraram em cena na década de 80 e o grande palco foi o Pólo Industrial de Manaus. Tudo parecia convergir para este lugar. Um lugar que já concentrava indústrias, crescimento de emprego, investimento financeiro mas que contrastava com uma periferalização provocada pela tão sonhada Zona Franca de Manaus, o que ocasionou a migração desenfreada do homem do campo.

O interior das fábricas representou o palco para o crescente número de grupos de operários organizados. Para isso foi incansável a atuação dos grupos dirigentes, um trabalho muito longo. Esses trabalhadores saíam nos finais de semana ou à noite de todos os dias e cada dirigente do Sindicato tinha que visitar um operário na sua casa. Sua tarefa, além de participar das reuniões, era, também, de levar informações para o Sindicato. Aqueles que eram simpáticos ao Sindicato passavam a fazer parte da categoria e se organizar junto com os operários dentro do Sindicato. Este novo membro passava a ser dirigente na fábrica dele com um grupo de dez a vinte pessoas em cada empresa.

Em 1986, quando aconteceu a greve, estavam 100% das grandes fábricas organizadas. Elegeu-se 20 fábricas – entre elas Moto Honda, Gradiente, Phillips, Evadin, CCE, Yamaha, Sharp - e, assim sucessivamente as grandes empresas da época. Este momento qualificou verdadeiramente os operários como responsáveis pelo movimento e não apenas os dirigentes. Embora a força da representação dos dirigentes fosse muito forte, essa distribuição de função, essa socialização da liderança foi fundamental para o surgimento de novos líderes.

Na época surgia a lambada, uma tendência musical de ginga e embalo na dança. Este estilo com muito molejo foi inserido na festa por ocasião da greve. A festa ajudou a tirar a monotonia da greve, aquela cara dura da greve. A introdução da festa na greve se constituiu numa questão positiva, porque o operário sentia-se no seu espaço e externava sua subjetividade.
  • A greve é minha, o espaço é meu, eu sou o dono da greve, esse espaço é meu. Eu sou o dono da greve, eu danço, eu canto, eu namoro. Na época o pessoal namorava muito na sombra, no pátio da empresa. Assumiram esse espaço como deles. O que eles não faziam durante o dia no almoço, no café da manhã, passaram a fazer. A liberdade de expressão só se faz quando tem certeza da sua liberdade. Para exemplificar, o pessoal diz assim: - tem mulher que se separa porque o seu marido não dança, não leva para festa, então lá na fábrica também era privado esse direito, de repente ela dizia: eu tenho esse direito eu vou aqui dançar, vou brincar, vou abraçar, vou beijar, é minha a greve, eu estou em greve, e pronto. Não era uma coisa que divertia, que destoava da greve, não, ao contrário, fortalecia porque era uma coisa dele, era um exercício de liberdade da greve, era um espaço construído na consciência dos operários em formação (R. M entrevista 05/2008)[3].
O depoimento deste ex-dirigente sindical revela a importância atribuída à festa pelos operários amazonenses. Para eles as greves eram mais do que descanso ou diversão porque concebidas como se fossem suas, e não preparadas para eles. Neste cenário, os próprios grevistas são os músicos, eles deixam de ser meros expectadores, para se tornarem atores de um espetáculo onde são as principais personagens. O modo como os operários se comportavam durante as manifestações grevistas traduz todo um sentimento coletivo do que representa cada momento de sua militância. Eles transgrediam seus espaços porque se sentiam libertos da fadiga e do marasmo que era sua função na linha de produção.

Eles encontraram no espaço da greve, além de uma sociabilização, a festa como um ato de construção cognitiva, uma vez que nesta ocasião a festa possibilitava a abertura para a luta e sociabilidade operária que, segundo Blass (apud. Perrot, 1992, p. 21) “desfazem a conduta de horários rígidos, as cadências alucinantes e introduzem em uma existência fatigante e sem trégua, a liberdade do lazer”. Em consonância com Blass (1992), a festa na greve, pode acontecer ou não depende das suas circunstâncias. Esta autora afirma que “dificilmente é preparada para tornar-se uma festa, na medida em que resulta das atividades imprevistas e espontâneas que surgem no desenrolar das lutas sociais” (Blass, 1992, p. 17). Ela faz uma distinção entre manifestação e festa. Comparando suas características, verifica-se que,
  • [...] a festa se encontra mais próxima da tradição, repetindo o ritual de reunir as pessoas com o objetivo de celebrar, comemorar. A manifestação, ao contrário, exprime a atualidade, a conjuntura, sendo pontual e mais fugaz; mesmo que seja pouco espontânea, ainda assim é possível apresentar algum grau de imprevisibilidade em seus desdobramentos [...] a festa nem sempre apresenta uma conotação política ao passo que a manifestação sempre o faz (Idem, p. 17).
Concordamos genuinamente com esta autora ao reafirmar que embora estas duas idéias sejam distintas, elas interpenetram-se de tal modo que, em alguns lugares, a festa se transforma em manifestação e, em outros, é a manifestação que empresta o ritual da festa.

Era no ato da festa que se presenciava a expressão mais clara da alegria do operariado amazonense, embora para eles o sentido da festa fosse mais abrangente, porque era neste ato de exaltação coletiva que eles expressavam o espírito de liberdade e o prazer de transgredirem as normas sociais, de romperem interditos.

Foi nesse clima que foram comemoradas não só as vitórias, mas, também, o entusiasmo do operário amazonense. Era humanamente impossível impedir a festa, mesmo quando a direção sindical não admitia. Os operários faziam desfiles, transformavam o lado monótono da greve e revelavam suas características amazônicas expressando a alegria e a sua arte. É justamente nesta perspectiva que acontecem os primeiros trabalhos voltados para a categoria operária.

Hoje a bandeira de luta do operariado amazonense gira em torno da casa própria, o direito integral à saúde, as lutas institucionais, a luta em defesa do meio ambiente, pela educação ambiental, responsabilidade social das empresas, que a Prefeitura e o Estado saneiem os igarapés, dentre outras. As bandeiras de hoje são totalmente diferentes, pela qualidade nutriente da alimentação para nossos filhos, porque as bandeiras políticas já foram conquistadas.

Hoje, o Brasil é um país dirigido por um governo que se integra mais às classes subalternizadas do que outras. A luta foi árdua para termos um governo democrático-popular, apesar de muita gente ainda passar fome.

Todos falam em educação, mas ninguém educa o ignorante, por exemplo: qual é a proposta do Estado e da prefeitura para eliminar o analfabetismo? não há. E essa é uma bandeira fundamental do Sindicato para sair do corporativismo.

À medida que você saneia o igarapé melhora a vida de muita gente, à medida que você planta mil árvores você melhora a respiração de muita gente. Então as lutas são institucionais, são várias bandeiras institucionais. Ser mais inteligente na questão da educação, na questão da alfabetização de adultos. Atualmente o espaço da luta e sociabilidade operária é outro e, sem dúvida, incomparável àquele dos anos oitenta.

Não é só a bandeira do salário. A bandeira do salário acaba sendo uma pobreza de um Sindicato que não luta, porque esta bandeira é natural. Um operário não pode ganhar menos que dois salários mínimos. Neste caso ele trabalha até as 13h00min da tarde, em seguida ocupa a sua tarde inteira para vender banana. Ele pode também trabalhar a tarde ganhando um salário mínimo e voltar de manhã para vender jaraqui e completar mil e quinhentos reais. Enfim, é melhor pagar oitocentos e trabalhar o dia inteiro do que receber quatrocentos (salário mínimo) e ficar o dia inteiro preso numa linha de montagem.

O cotidiano deste operário se inscreve numa nova maneira de abordagem social, o que para Silva (2003) representa a “história vista de baixo” que tem sido um campo fértil para esse tipo de abordagem. Vários historiadores têm procurado em um emaranhado de fontes os significados que homens e mulheres anônimos imprimiram às suas vidas, criando e manifestando representações e atos nem sempre congruentes com os temas dominantes. O poder e a política constituem uma rede de relações na qual atuam forças instáveis e permanentes movimentos de oposições, são também uma possibilidade de os “de baixo” extraírem recursos materiais e simbólicos de circunstâncias plena de ambiguidade e tensões.

Como os operários deixaram poucos registros sobre suas vidas, menos se desvenda o que realmente pensavam. É nesse sentido que tentamos fazê-los contar parte de suas experiências, a partir de uma série de fontes, que nem sempre tiveram a intenção de ser a expressão de sua própria voz.

Os vínculos com advogados, jornalistas, políticos e intelectuais não eram apenas uma opção instrumental para a mediação dos conflitos nos limites da ordem e do direito. Havia também a aposta de que a educação e a tomada de consciência dos trabalhadores dependiam da intenção esclarecedora de intelectuais saídos da burguesia. Na década de oitenta, ainda não se ouvia falar em crimes envolvendo disputas pelo controle da direção do sindicato.

Embora o espaço fosse de todos, como de praxe, pessoal ligado a partido político também dividiu esse território. O artigo de Simão Pessoa publicado no jornal “A Crítica” denunciava:
  • o pessoal ligado ao PCdoB agiu como um Midas ao contrário: onde eles tocavam, virava merda – Além de agredir dois diretores do Sindicato (Élson e Ionacy) queriam capitanear a greve para fazer proselitismo babaca e filiar os grevistas. Quando aprenderão a não misturar as coisas (política partidária com política sindical) é algo que, sinceramente, não saberia responder, mas fica a advertência.
  • Lamentavelmente, o espaço de luta e sociabilidade operária se complicava ainda mais quando neste cenário, transitavam pessoas com este perfil. Apesar das divergências, pode-se dizer que o operariado do PIM vivenciou não só momentos repressivos por parte do empresariado. Mas valeu a pena porque refletiu à classe empresarial o adotar de novas posturas comportamentais de seres civilizados, não de guardas pretorianos.
  • Em toda democracia existem impasses e compete aos envolvidos resolvê-los da melhor maneira possível, como foi feito. O mais era revanchismo, que cheirava a Velha República, que cheirava a Ditadura. (Arquivo P.O – A Ccrítica 08/1985).
A solidariedade operária abriu caminhos para uma tomada de ação do trabalhador do PIM. A informação de que os trabalhadores estavam organizando um Fundo de Greve espalhou-se rapidamente pela cidade. Em todos os segmentos sociais o apelo repercutiu, impreterivelmente, nas associações e entidades de classe. Nas igrejas: as missas de domingo (04/08/85), recolheram donativos dos fiéis para os grevistas; no meio artístico: o poeta Dori Carvalho[4] declamou estes três poemas operários aos trabalhadores da Zona Franca de Manaus:

O CHEIRO DO POVO
O povo fede assim,
para que os senhores
possam cheirar bem,
o cheiro do povo
é o cheiro que vem dos senhores,
de suas minas, suas fábricas,
caminhões e máquinas,
para que os senhores possam
cheirar bem.

ENCHENTE
Como as águas desse rio
que correm para o mar
a liberdade, aqui,
um dia há de chegar.
espocando feito pororoca
arrastando o velho,
desaguando o novo,
inundando de alegria
a cara do povo.

AS TETAS DO POVO
Fiquem aí os senhores,
mamando nas tetas do povo,
enquanto o povo
mama nas tetas das pedras,
mama nas tetas da fome, cuidado!
Muito cuidado, senhores,
qualquer dia
as pedras viram armas,
qualquer dia
a fome vira raiva
qualquer dia
a casa cai.

Além da contribuição artística no sentido de clamar pelas melhorias em prol dos trabalhadores, também houve o clamor da própria sociedade, demonstrando atitudes e compartilhando de modo solidário.

Por dentro da fábrica o confronto patronal era bastante duro. Algumas empresas colocavam a polícia dentro da fábrica. A chefia de divisão, chefe de produção, seus auxiliares batiam pesado com os trabalhadores. Quem não obedecesse era demitido por justa causa para mostrar que os patrões tinham forças. Graças a uma pequena organização que os trabalhadores tinham, a consciência de classe, até por força da referência com São Paulo que fazia sua greve dentro da fábrica, em alguns casos eles resistiram. Nessa época já conseguiram organizar algumas comissões de fábrica, a empresa Caloi, por exemplo, foi a primeira empresa a conseguir uma comissão de fábrica no Estado do Amazonas.

Hoje percebemos uma manifestação muito pontual em relação à luta de classe. Cabe-nos pensar: será que na década de oitenta os trabalhadores eram mais politizados, mais militantes e de enfrentamentos? o que houve, afinal? para responder a tais questionamentos exige-se uma análise cautelosa. Atualmente convive-se com o tempo da política neoliberal. Essa política neoliberal apresenta-se com três abrangências: a questão política, social e a econômica. O que acontece? a classe trabalhadora da década de 80 comportava o perfil do trabalhador para o trabalho, poucos estudavam e os que não estudavam reuniam-se, discutiam, participavam de cursos, de atividades e de formação que ajudavam nos enfrentamentos contra o governo, produzindo, assim, novos dirigentes no movimento operário.

Durante os atos da militância, o território fabril serviu de palco para a realização de atividades prazerosas; a festa, por exemplo. Pode-se dizer que, em parte, foi um ato positivo. Por outro lado foi até negativo porque se tende a ver a dialética em tudo, nada é 100%. Mas significou a descontração dos trabalhadores.

A presença das mulheres na greve, como na de 1985, pode ser por si só, considerado um ato de transgressão social. As formas irreverentes ou selvagens de atuação grevista das mulheres, na visão de muitos, invertiam a ordem, instalavam a desordem e a ironia, que compunham o cenário da festa na greve de 1985.

Para Torres (2005) essas mulheres não foram atraídas por um projeto de vida gloriosa fora do sindicato. Elas enfrentaram situações de grandes dificuldades no âmbito da vida material em face das exigências do mercado no que se refere aos critérios de escolarização e jovialidade (?) impostas pela reestruturação produtiva. Consequentemente, elas aprenderam a lidar com as tensões das relações sociais, reconhecendo os limites de atuação na esfera pública e procurando vencer de acordo com suas estratégias.

Boa parte das lideranças femininas que fizeram a história da classe trabalhadora nos anos oitenta passou a viver o grande dilema quando se pensou numa reintegração no mercado de trabalho. Isto não significa que elas tivessem feito opções erradas nas suas vidas. Mas era necessária uma harmonização entre a militância e a vida particular. Como nos mostra Torres (2005, p. 274),
  • os sonhos e utopias não se identificam com as estruturas do mundo, mas estão dentro delas por intermédio das pessoas que se recriam nelas como um processo. Não coincidem totalmente com nenhuma alternativa histórica concreta, situam-se para além numa perspectiva de abertura para adiante.
É neste tom que as mulheres abraçaram outras causas. Elas lutam para descortinar novos horizontes nas suas vidas. O tempo perdido pela causa operária não recebeu o reconhecimento por parte de seus pares (homens). Apesar disso, elas continuam lutando, buscando alternativas no sentido de preencher esta grande lacuna que ficou em suas vidas. Os sonhos e utopias apesar de não serem condizentes com os dias atuais, mas permanecem nos seus corações e mentes quando se pensa em vencer. Como lembra Scherer (2005, p. 88) “o desejo de retorno às indústrias do DI deve-se à possibilidades da carteira assinada. Com essa representação simbólica, os trabalhadores se sentem mais seguros e, ainda, pelo fato de o emprego formal garantir os serviços sociais”.

Esta vontade ficou tão latente no imaginário dessas mulheres que acabaram enveredando por outros caminhos. Suas lutas continuaram e continuam no sentido de buscar o reconhecimento da sociedade por meio da ocupação do seu espaço.

Como bem mencionei no decorrer deste ensaio, tudo parecia se juntar em Manaus. Uma cidade que teve sua geografia alterada. De um lado causada pelo expressivo êxodo rural, justificada pelas novas alternativas vislumbradas na Zona Franca de Manaus e, por outro, o sonho de trabalhar no PIM. Este que revelou os novos atores sociais no campo da luta classista no Amazonas, transformando-se no grande cenário da luta do operariado pela constituição de sua classe, o novo sindicalismo, enfim, pela construção de sua identidade coletiva tão desejada pelos trabalhadores nos anos 1980.

Mas esta estrutura sofreu seus abalos nos anos 1990, quando uma nova reconfiguração no mundo do trabalho é imposta ao trabalhador. Suas relações sociais e de produção passaram a constituir-se em novos desafios. O espaço de campo de luta foi afetado porque na então conjuntura as estratégias, as bandeiras de lutas passaram a acontecer por outros motivos. O espaço das grandes mobilizações cedeu lugar a outras atividades.

Atualmente, o que se percebe no PIM é o conhecido Calçadão, um ponto de lazer aos trabalhadores; a Bola da Suframa, hoje, recebe o nome de Centro Cultural Povos da Amazônia, aonde acontecem os eventos festivos por ocasião do Festival Folclórico de Manaus, não mais como o cenário dos principais levantes ocorridos no PIM protagonizados pelos trabalhadores, mas não deixa de lembrar aos que viveram naquela década o espaço dos grandes acontecimentos.

Bibliografia
_____________________________________
BLASS, Leila Maria da Silva. Estamos em Greve: imagens, gestos e palavras do movimento dos bancários, 1985. São Paulo: Hucitec, 1992.
PERROT, Michelle. Os Excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. Tradução Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
REIS FILHO, Milton Melo dos. Quem vai descer a Acará? Processo de construção do fazer-se classe do operariado do Parque Industrial de Manaus – Anos 1980. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia). Manaus: UFAM, 2008.
SADER, Eder. Quando os novos personagens entram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-80. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 14ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.
SCHERER, Elenise. Baixas nas carteiras: desemprego e trabalho precário na Zona Franca de Manaus. Manaus: EDUA, 2005.
SILVA, Fernando Teixeira da. Operários sem patrões: os trabalhadores da cidade de Santos no entreguerras. Campinas/SP: Editora da Unicamp, 2003.
SOJA, Edward W. Geografias Pós-Modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica / Eward W. Soja; tradução (da 2ª Ed. Inglesa) Vera Ribeiro; revisão técnica, Bertha Becker, Lia machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa II. Tradução de Renato Busatto Neto e Claudia Rocha de Almeida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
TORRES, Iraildes Caldas. As Novas Amazônidas. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2005.
FONTES JORNALÍSTICAS
Jornal A Crítica – 31/07/1985.
Jornal A Crítica – 12/08/1985.
Jornal O Parafuso - Pastoral Operária - Manaus/Am – Ano III, nº 14, Abril-Maio, 1988.
[1] Doutorando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA da Universidade Federal do Amazonas – UFAM, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas – FAPEAM e membro do Grupo de Pesquisa e Estudo Observatório Social: Gênero, Política e Poder.
[2] Cf. Jornal A Crítica, 31 de julho de 1985 – Arquivo Pastoral Operária Manaus.
[3] Entrevista realizada pela ocasião dos estudos em nível de mestrado. Cf. REIS FILHO, Milton Melo dos. Quem vai descer a Acará? Processo de construção do fazer-se classe do operariado do Parque Industrial de Manaus – Anos 1980. Manaus: UFAM, 2008.
[4] Dori Carvalho é poeta, ator e livreiro. (Arquivo P.O - Cf. A Crítica de 12/08/2008).

Sobre o Autor

Milton Melo dos Reis Filho

Possui graduação "Licenciatura Plena em História" pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM (2003); é Especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM (2004); é mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM (2008). Atualmente é doutorando na linha de pesquisa Processos Sociais, Ambientais e Relações de Poder na Amazônia do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia - PPGSCA/UFAM (2009), autor da tese "Reconstituição da Memória da Classe Operária em Manaus - uma história de resistência e de construção da identidade coletiva -", Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas - FAPEAM, integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa Observatório Social: gênero, política e poder (GEPOS) e professor estatutário da Secretaria Municipal de Educação (SEMED-Manaus).


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Por ti Tefé!


Por Elson de Melo *
Amanhece o dia na Amazônia, de sua rede pula o caboclo, arruma seus arreios e sai para pescar, caçar, ou cultivar sua roça, afinal foi assim que ele aprendeu a viver nos rios da encantadora Amazônia. Em Tefé começa a correria de uma cidade polo, pessoas indo ao mercado, o comercio abre as portas, os bancos começam a pagar os aposentados do FUNRURAL, os rádios são sintonizados na Radio Rural de Tefé, é uma quinta feira, o programa preferido é “O Guerreiro Tupebas”, no porto começa o desembarque de farinha, peixe, verduras, castanha e outros produtos da floresta...

Foi cultivando essa rotina que o caboclo chegou a cidade, empurrado pelo abandono proposital dos governantes e atraído pela especulação de vida melhor, o caboclo deixa tudo, casa, arpão, caniço, anzol, flechas, arco, canoa e até seu cão de estimação, parte para a cidade mais próxima em busca de uma vida mais digna.

Assim o caboclo troca a floresta e seus rios, vai se alojar em uma selva que ele não sabe os atalhos e muito menos os perigos que ela oferece, nessa selva não dá para erguer um rabo de jacú para servir de casa, não existe lagos fartos para pescar, não tem caça e muito menos terra para cultivar sua roça, então o caboclo sai em busca do nada perambulando pelas ruas, praças e mercados da cidade.

Se alguém pergunta ao caboclo o que procura, certamente ele não saberá dizer, talvez arrisque que está em busca de emprego, então o inquiridor quer saber o que ele sabe fazer e o caboclo não sabe responder, porque na vida tudo que ele aprendeu foi ser uma pessoa honrada e seria incapaz de mentir.

O caboclo continua perambulando pelas ruas da cidade até encontrar um boteco onde conhece a turma da cachaça, ali todos são igual, então o caboclo para e alguém lhe oferece uma doze de pinga, no inicio ele recusa, o pinguço que oferece, passou pela mesma experiência que ele está passando, insiste na oferta perguntando, de onde vieste e quando chegaste aqui? O caboclo aceita a pinga e responde, cheguei esta semana e vindo do Município de Uarini, estou a procura de emprego e de uma casa para morar, o amigo pinguço então lhe conforta dizendo, toma mais uma que as coisas vão melhorar, sem outra alternativa o caboclo se embebeda e começa ali uma nova vida, a de pinguço!

A nova vida faz o caboclo esquecer seus problemas, sua família e a sua dignidade, sem lar, sem honra, sem arreio para pescar, passa o dia bebendo e fazendo mandados nas ruas de Tefé, já não sabe o que acontece com seus filhos, se estão na escola ou vagando pelas ruas, sua esposa é quem assume os percalços da família, arruma uma coisa ali e oura acolá para fazer e arranjar uns trocados para comprar pelo menos uns ovos para dividir com os filhos. E assim o mundo do caboclo despenca, transformando sua vida em uma esquina sem rumo!

É por ti Tefé, que escrevo esse texto que mais parece uma saga ou um lamento, é por ti caboclo que aprendi a escrever os relatos da nossa vida, é por ti Amazônia que relembro aos mais novos que por aqui vivem que se os governante se preocupassem um pouco com a rotina dos caboclos, todos nós seriamos muitos felizes como foram nossos antepassados que aprenderam a respeitar nossa fauna e flora, para dela tirar apenas o que lhes alimentassem e lhes garantissem uma boa qualidade de vida.

P.S. Tefé é um Município do Amazonas que fica no centro geodésico da Amazônia para onde migram muitos caboclos dos rios, lagos e igarapés da Região do Solimões. A região de Tefé foi inicialmente colonizada pela Espanha, no fim do século XVII, vindo a ser ocupada por Portugal em 1708. Em 1759 foi criado o concelho, com a denominação de Ega. A vila de Ega passou a denominar-se Tefé entre 1833 e 1843 e, definitivamente, em 1855, quando foi elevada a categoria de cidade. Nos primórdios de sua história, Tefé era habitada basicamente por índios, com destaque para as tribos dos Tupebas ou Tapibas.

*Elson de Melo...Sindicalista

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A DESONERAÇÃO DA FOLHA DE PAGAMENTO E A TUCANOCRÁCIA PETISTA


O governo petista de Dilma mobilizou os Ministérios da Fazenda e da Administração para anunciar o contingenciamento de 55 bilhões do Orçamento da União para o exercício 2012, na ocasião o Ministro da Fazenda Guido Mantega anunciou que em breve o governo vai anunciar a desoneração da folha de pagamento, segundo ele isso vai facilitar os investimentos das empresas em tecnologia e inovação, melhorar a competitividade, diminuir o custo com mão de obra além de manter a trajetória crescente das ofertas de emprego, o que ele não antecipou, foi quais itens sairão da composição do que ele chama de “gorda folha”.

Na verdade o governo deu inicio a esse processo com o lançamento do Plano Brasil Maior em agosto de 2011, que prossegue com a Presidente Dilma sancionando no dia 14/12/2012 a Lei Nº 12.546, relativa à Medida Provisória 540/11, que prevê a desoneração da folha de pagamento para as empresas de software e serviços de TI. O prazo de vigência é de três anos, sendo válida até 2014.

O governo petista retoma o Projeto dos tucanos que flexibilizaram a legislação trabalhista impondo aos trabalhadores o desemprego temporário, banco de horas, trocou a obrigatoriedade de creches por auxilio creche. Com o lançamento em 02/08/2011 do Plano de estímulo industrial, os petistas davam inicio a desoneração da folha de pagamento. Camuflado de nova política industrial, o plano inclui a devolução de PIS/Cofins para exportadores de manufaturados, a criação de um fundo de financiamento a exportação, um projeto piloto para desonerar a folha de pagamento em setores com mão de obra intensiva, além de um regime tributário especial para o setor automotivo, dentre ouros.

Agora o governo trabalha para efetivar de uma só vez a desoneração da folha de pagamento de todos os setores da economia, para isso vai mais uma vez retirar da legislação trabalhista pontos importantes que os trabalhadores conquistaram cum muito suor, sangue, vidas e luta, na pauta do governo petista está o fim do 13ª salário já aprovado na Câmara Federal, da contribuição sindical, Contribuição zero para o INSS que hoje as empresas recolhem 20%, Redução do período de férias e o fim do adicional de 1/3 constitucional, fim da multa de 40% do FGTS nas rescisões sem justa causa... É a tucanocrácia petista levando a relação trabalhista de volta a idade medieval! 

O Movimento Sindical precisa dar uma resposta urgente ao governo, o que parece pouco provável, uma vez que não é de agora que o empresariado vem forçando e impondo essa condição aos governos que se sucedem, e, as principais lideranças do Sindicalismo brasileiro sequer se manifestam sobre o tema, no entanto, fica o registro.

Elson de Melo...Sindicalista 

Veja também:

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PRACIANO PREFEITO: SÓ DEPENDE DO PT!


No próximo dia 12 de fevereiro (domingo), o PT-Manaus, vai escolher 500 delegados que decidirão se o Partido terá candidatura própria, ou não, a disputa é acirrada entre sete correntes, das quais, cinco defendem candidatura própria.

O Deputado Federal Francisco Praciano PT-AM, é o candidato com maior aceitação popular que só não foi para o segundo turno da eleição passada para Prefeito, devido a Direção do Partido, ter jogado contra sua candidatura.

Ao confirmar sua intenção de concorrer a Prefeito de Manaus na próxima eleição, o parlamentar amazonense preenche todos os requisitos necessários para romper com a dinastia do “grupo da maldição” que infelicita nosso Estado e a capital há quase trinta anos.

Não restam duvidas que além da postura moral reconhecida desde o tempo em que foi Vereador de Manaus, quando no seu primeiro mandato Praciano conseguiu a cassação do Presidente da Câmara Municipal (CMM). O Deputado ainda acumula um enorme capital eleitoral pelo fato de ter sido o Deputado mais votado da última eleição, junto a isso tudo, sua capacidade de articulação política e conhecimento da municipalidade local para concluir que sua candidatura é forte, viável e ética.

Dono de uma postura ética Praciano tem demonstrado em toda sua história política seu compromisso com mudanças substanciais para o processo político de Manaus, isso o credencia como o único candidato capaz de enfrentar com sucesso os candidatos, Amazonino e Eduardo.

O falecido Governador do Amazonas Plínio Ramos Coelho sempre afirmava “Manaus é uma capital de oposição!” a constatação do velho ganso, tem se materializado ao longo da historia. As eleições de Artur Neto e Serafim Corrêa confirmam essa profecia, portanto, Praciano precisa sensibilizar os ‘masoquistas’ (pessoal ligados ao Prefeito Amazonino que comandam as Secretárias do Trabalho Municipal e Estadual, Secretária de Habitação cujo controlador é o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e sua familía, ‘braguistas’ (pessoal ligados ao Senador Braga, Sinésio Campos & Cia.) e ‘omarzistas’ (pessoal ligados ao Governador que comandam a SEARP, UEA e ITEAM) que compõem a maioria do PT (AM.) a confirmarem sua candidatura.

Não é tarefa fácil, são muitos os empecilhos. Primeiro a ligação do Cacique Nacional do PT, José Dirceu ao velho caudilho Amazonino. É Dirceu o responsável pela ida do Prefeito para o PDT. Dirceu, também comanda desde o inicio da gestão ‘mazoca’ a Secretária de Finanças da Prefeitura de Manaus.

Segundo, conseguir a maioria dos 500 delegados que irão decidir a previa interno, para isso acontecer, precisa se desdobrar no apelo ético aos filiados, convencendo-os da importância do PT deixar de ser coadjuvante e retomar seu projeto de poder local, esse desdobramento é uma obra densa, tendo em vista que as duas correntes que se opõem a candidatura própria, vão derramar rios de dinheiro e tentar cooptar (comprar) os votantes com valores significativos em dinheiro, como fizeram recentemente com duas chapas que contestavam na justiça a eleição do Sindicato dos Metalúrgicos.

O velho dito popular adverte: “se conselho fosse bom ninguém dava. Vendia!”, no entanto, devo alertar o Deputado para a seguinte possibilidade: está na hora de tornar sua candidatura maior que a vontade da direção do PT, ela precisa tomar status de necessária, para que isso aconteça, os articuladores precisam organizar um Movimento suprapartidário abrindo o debate para fora do Partido, ouvindo seus eleitores, promovendo pesquisas, organizando seu plano de governo, definindo políticas públicas prioritárias a serem desenvolvidas na gestão e mobilizando a sociedade sobre a necessidade de uma candidatura ética, popular e justa com os desígnios da nossa população. Sobre isso o Presidente Tancredo Neves tem uma frase dita quando concorreu com Paulo Maluf a Presidência da Republica no Colégio Eleitoral, que vale apena lembrar, perguntado de como seria sua campanha para convencer a maioria dos congressistas a votarem nele, uma vez que o Partido Maluf tinha maioria no Congresso ele respondeu assim: “vou ganhar as ruas desse País, venho com o povo!”.

Fora a Direção do PT local e dois Parlamentares desse partido que pela suas práticas são avessos ao desejo do nosso povo, os outros três parlamentares do PT que faço questão de declarar seus nomes Parciano, José Ricardo e Waldemir José, estão credenciados a comandarem essa cruzada pela ética e por uma candidatura que expresse a transformação do modo de fazer política em Manaus.

Nossa contribuição para esse momento, pode se concretizar se a convocação popular se dá num ambiente compartilhado com as forças contrarias ao modo promiscuo de governar, capitaneado por Amazonino, Eduardo e Omar! Queremos um governo municipal que seja comprometido com a municipalidade, que não permita transações obscuras no preço da passagem de ônibus, que respeite o contribuinte, que acima de tudo seja ético, transparente e justo. Praciano tem esse perfil!

A população de Manaus está em busca de uma candidatura que se contraponha a essa escola política do ‘toma lá, da cá’. Das candidaturas até hoje postas, apenas Praciono tem a densidade ética, moral e eleitoral capaz de empolgar a juventude e as pessoas de bem que estão loucas para se verem livres desses rapineiros que em quase trinta anos, fizeram verdadeiras fortunas pessoal!

Para os desavisados esclareço, sou militante do PSOL, mas tenho a obrigação moral de suscitar dentro do meu Partido, as possibilidades de construir alianças éticas e salutares, que Manaus precisa, acho que a candidatura Praciano, atende os anseios dos lutadores sociais independente de cores partidárias, se o PT tiver juízo vai confirmar essa candidatura!

Elson de Melo - Sindicalista

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Sindicalismo

O texto abaixo é uma reflexão sobre o Sindicalismo no Mundo, qualquer semelhança com o sindicalismo brasileiro é mera coincidência! Seria muito importante que todo Trabalhador conhecesse os limites do Sindicalismo, na verdade, os Sindicatos são dirigidos por pessoas que a depender de sua orientação politica, pode ou não desenvolver um trabalho voltado para as transformações sociais e econômicas que o proletariado precisa para viver dignamente, contudo, o Sindicato enquanto Instituição, está ligado umbilicalmente ao capital, dai a necessidade de o trabalhador conhecer instrumentos de transformações, além das instituições burguesas. A massa de trabalhadores, sejam eles operárias ou não, pouco conhecem sua realidade, limitam-se a reproduzir a ideologia dominante fazendo coro ao individualismo e o imediatismo, isso os tornam limitados a encarar um projeto de transformação radical de sua realidade que as vezes sequer as percebe, recomendo que leiam com atenção esse texto... Boa leitura!



Anton Pannekoek
Janeiro de 1936


Fonte: http://www.terravista.pt/IlhadoMel/1188/os_conselhos_operários.htm a partir de I.C.C. vol. II, n.º 2 Janeiro de 1936.
HTML por José Braz para The Marxists Internet Archive.


De que modo deve a classe operária lutar para vencer o capitalismo? É esta a questão primordial que se coloca todos os dias aos trabalhadores. Quais os meios de acção eficazes e quais as tácticas que necessitarão de empregar para conquistar o poder e vencer o inimigo? Não existe nenhuma ciência ou teoria que lhes possa indicar com precisão o caminho a seguir. É tacteando, deixando exprimir o seu instinto e a sua espontaneidade que encontrarão o caminho. Quanto mais o capitalismo se desenvolve e se propaga por todo o mundo, maior é o poder dos trabalhadores. Novos modo de acção mais apropriados vêm juntar-se aos antigos. As tácticas da luta de classes têm necessariamente de se adaptar à evolução social. O sindicalismo surge como a forma primitiva do movimento operário num sistema capitalista estável. O trabalhador independente não tem defesa face ao patrão capitalista. Por isso os operários se organizaram em sindicatos. Estes reúnem os operários na acção colectiva e utilizam a greve como arma principal. O equilíbrio do poder fica assim mais ou menos realizado; acontece mesmo inclinar-se mais fortemente para o lado dos operários, de tal modo que os pequenos patrões isolados se vêem impotentes perante os grandes sindicatos. É por isso que, nos países em que o capitalismo está mais desenvolvido, os sindicatos de operários e de patrões (sendo estes as associações, os trusts, as sociedades etc.) estão constantemente em luta.

Foi na Inglaterra que nasceu o sindicalismo paralelamente aos primeiros vagidos do capitalismo. Em seguida estender-se-ia aos outros países, como fiel companheiro do sistema capitalista. Conheceu condições particulares nos Estados Unidos, onde a quantidade de terras livres a desabitadas que se oferecia aos pioneiros escoou a mão-de-obra para fora das cidades; como consequência, os operários obtiveram salários elevados e condições de trabalho relativamente boas. A Federação Americana do Trabalho constituía uma verdadeira força no país e a maior parte das vezes, foi capaz de manter um nível de vida suficientemente elevado entre os operários que nela estavam filiados.

Em tais condições a ideia de derrubar o capitalismo não podia germinar no espírito dos trabalhadores americanos. O capitalismo oferecia-lhe uma existência estável e fácil. Não se consideravam como uma classe à parte cujos interesses fossem opostos à ordem existente; eram parte integrante dela e estavam conscientes de poderem ter acesso a todas as possibilidades que lhes oferecia um capitalismo em desenvolvimento num novo continente. Havia espaço suficiente para acolher milhões de indivíduos, europeus na sua maioria. Era preciso oferecer a esses milhões de colonos um industria em expansão na qual os operários, dando mostras de energia e de boa vontade, poderiam elevar-se à categoria de operários livres, de pequenos comerciantes ou mesmo ricos capitalistas. Não é surpreendente que a classe operária americana tenha sido imbuída de um verdadeiro espírito capitalista.

O mesmo aconteceu em Inglaterra. Tendo assegurado o monopólio do mercado mundial, a supremacia nos mercados internacionais e a posse de ricas colónias, a Inglaterra acumulou uma fortuna considerável. A classe capitalista, que não tinha que se bater pela sua parte de lucro, podia conceder aos operários um modo de vida relativamente desafogado. É certo que teve de travar algumas batalhas antes de se decidir a adoptar esta atitude, mas depressa compreenderia que, autorizando os sindicatos e garantindo os salários, assegurava a paz nas fábricas. A classe operária inglesa foi então por sua vez marcada pelo espírito capitalista.

Tudo isto está bem de acordo com o verdadeiro carácter do sindicalismo. O objectivo do sindicalismo não é substituir o sistema capitalista por um outro modo de produção, mas melhorar as condições de vida no próprio interior do capitalismo. A essência do sindicalismo não é revolucionária mas conservadora.

A acção sindicalista faz parte naturalmente da luta de classes. O capitalismo assenta num antagonismo de classes, tendo os operários e os capitalistas interesses opostos. Isto é verdade, não só no que diz respeito à manutenção do regime capitalista, mas também no que se refere à repartição do produto nacional bruto. Os capitalistas tentam aumentar os seus lucros - a mais valia - diminuindo os salários e aumentando o número de horas ou a cadência do trabalho. Os operários, por seu lado, procuram aumentar os seus salários e reduzir os seus horários. O preço da sua força de trabalho não é uma quantidade determinada, embora deva ser superior ao que é necessário para que um indivíduo não morra de fome; e o capitalista não paga de boa vontade. Este antagonismo é assim gerador de reivindicações e da verdadeira luta de classes. A tarefa e o papel dos sindicatos consiste em continuar a luta.

O sindicalismo foi a primeira escola de aprendizagem do proletariado; ensinou-lhes que a solidariedade estava no centro do combate organizado. Incarnou a primeira forma de organização do poder dos trabalhadores. Esta característica muitas vezes se fossilizou nos primeiros sindicatos ingleses e americanos que degeneraram em simples corporações, evolução tipicamente capitalista. Tal não aconteceu nos países onde os operários tiveram de se bater pela sua sobrevivência, onde, apesar de todos os seus esforços, os sindicatos não conseguiram obter uma melhoria do nível de vida e onde o sistema capitalista em plena expansão empregava toda a sua energia a combater os trabalhadores. Nesses países, os operários tiveram de apreender que só a revolução os poderia salvar para sempre.

Existe sempre uma diferença entre a classe operária e os sindicatos. A classe operária deve olhar para além do capitalismo, enquanto que o sindicalismo está inteiramente confinado nos limites do sistema capitalista. O sindicalismo só pode representar uma parte, necessária mas ínfima da luta de classes. Ao desenvolver-se, deve necessariamente entrar em conflito com a classe operária, a qual pretende ir mais longe.

Os sindicatos crescem à medida que se desenvolvem o capitalismo e a grande indústria, até se tornarem gigantescas organizações que integram milhares de adeptos, se estendem por todo um país e têm ramificações em cada cidade e em cada fábrica. São nomeados funcionários: presidentes, secretários, tesoureiros, dirigem os negócios, ocupam-se das finanças tanto à escala local como a nível central. Estes funcionários são os dirigentes dos sindicatos. São eles que conduzem as negociações com os capitalistas, tarefa em que se tornaram mestres. O presidente de um sindicato é um personagem importante que trata de igual para igual o patrão capitalista e com ele discute os interesses dos trabalhadores. Os funcionários são os especialistas do trabalho sindical, enquanto que os operários especializados, absorvidos pelo seu trabalho na fábrica, não podem nem deliberar nem dirigir por si próprios.

Uma tal organização já não é unicamente uma assembleia de operários; forma um corpo organizado, que possui uma política, um carácter, uma mentalidade, tradições e funções que lhe são próprias. Os seus interesses são diferentes do da classe operária e não recuará perante nenhum combate para os defender. Se algum dia os sindicatos perdessem a sua utilidade, ainda assim não desapareceriam. Os seus fundos, os seus adeptos, os seus funcionários, são outras tantas realidades que não estão a ponto de se dissolverem de um momento para o outro.

Os funcionários sindicais, os dirigentes do movimento operário, são os defensores dos interesses particulares dos sindicatos. Apesar das suas origens operárias, adquiriram, após longos anos de experiência à cabeça da organização, um novo caracter social. Em cada grupo social que se torna suficientemente importante para constituir um grupo à parte, a natureza do trabalho molda e determina os modos de pensamento e de acção. O papel dos sindicalistas não é o mesmo que o dos operários. Eles não trabalham na fábrica, não são explorados pelos capitalistas, não são ameaçados pelo desemprego. Estão instalados em gabinetes, em lugares relativamente estáveis. Discutem questões sindicais, têm a palavra nas assembleias de operários e negoceiam com os patrões. Decerto, devem estar do lado dos operários, cujos interesses e reivindicações contra os capitalistas devem defender. Mas nisso, o seu papel em nada difere do do advogado de uma organização qualquer.

Existe contudo, uma diferença, porque a maior parte dos dirigentes sindicais, saídos das fileiras da classe operária, sofreram eles próprios, a experiência da exploração capitalista. Consideram-se como fazendo parte da classe operária, cujo espírito de classe está longe de se extinguir. No entanto, o seu novo modo de vida tende a enfraquecer neles essa tradição ancestral. No plano económico, já não podem ser considerados como proletários. Eles caminham ao lado dos capitalistas, negoceiam com eles os salários e as horas de trabalho, cada parte fazendo valer os seus próprios interesses, rivalizando do mesmo modo que duas empresas capitalistas. Apreendem a conhecer o ponto de vista dos capitalistas tão bem como o dos trabalhadores; preocupam-se com os "interesses da indústria"; procuram agir como mediadores. Pode haver excepções ao nível dos indivíduos, mas regra geral, não podem ter esse sentimento de pertencerem a uma classe como têm os operários, pois que estes não procuram compreender nem tomar em consideração os interesses dos capitalista, mas lutam pelos seus próprios interesses. Por conseguinte os sindicalistas entram necessariamente em conflito com os operários.

Nos países capitalistas avançados, os dirigentes sindicais são suficientemente numerosos para constituir um grupo à parte, com um carácter e interesses separados. Na qualidade de representantes e dirigentes dos sindicatos, encarnam o carácter e interesses desses sindicatos. Visto que os sindicatos estão intrinsecamente ligados ao capitalismo, os seus dirigentes consideram-se elementos indispensáveis à sociedade capitalista. As funções capitalistas dos sindicatos consistem em regular os conflito de classe e assegurar a paz nas fábricas. Por conseguinte, os dirigentes sindicais consideram ser seu dever como cidadãos trabalhar pela manutenção da paz nas fábricas e intrometer-se nos conflitos. Nunca olham para além do sistema capitalista. Estão inteiramente ao serviço dos sindicatos e a sua existência está indissoluvelmente ligada à causa do sindicalismo. Para eles, os sindicatos são os órgãos mais essenciais à sociedade, a única fonte de segurança e de força; devem, por conseguinte, ser defendidos por todos os meios possíveis.

Concentrando os capitais em poderosas empresas, os patrões encontram-se numa posição de força em relação aos operários. Os grandes magnates da industria reinam como monarcas absolutos sobre as massas operárias que mantêm sob a sua dependência e que impedem de aderir aos sindicatos. Por vezes acontece que estes escravos do capitalismo se insurgem contra os seus senhores e fazem greve, reclamando melhores condições de trabalho, horários menos carregados, o direito de se organizarem. Os sindicalistas acorrem em sua ajuda. É então que os patrões fazem uso do seu poder político e social. Expulsam os grevistas de suas casas, mandam matá-los por milícias ou mercenários, prendem os seus porta-vozes, declaram ilegais as suas caixas de socorros mútuos. A imprensa capitalista fala de caos, de violência, de revolução, e dirige a opinião pública contra os grevistas. Após vários meses de tenacidade e sofrimentos heróicos, esgotados e desiludidos, incapazes de fazer vergar a estrutura de aço do capitalismo, os operários rendem-se, remetendo para mais tarde as suas reivindicações.

A concentração de capitais enfraquece a posição dos sindicatos, mesmo nos ramos de actividade em que são mais fortes. Apesar da sua importância, os fundos de apoio aos grevistas mostram-se ínfimos comparados com os recursos financeiros do adversário. Um ou dois lok-out bastam para os esgotar inteiramente. O sindicato é então incapaz de lutar, mesmo quando o patrão decide reduzir os salários e aumentar as horas de trabalho. Resta-lhe aceitar as condições desfavoráveis do patronato e a sua habilidade para negociar não lhe serve de nada. É nesse momento que os aborrecimentos começam, pois os operários querem lutar. Recusam render-se sem combate e sabem pouco ter a perder se se revoltarem. Os dirigentes sindicais, pelo contrário têm muito a perder: o poder financeiro dos sindicatos e, por vezes, a sua própria existência é ameaçada. Assim, tentarão por todos os meios impedir um combate que consideram não ter saída. E procurarão convencer os trabalhadores que é do seu interesse aceitar as condições do patronato. De tal modo que, em ultima análise, agem como porta-vozes dos capitalistas. A situação é ainda mais grave quando os operários persistem em querer continuar a luta, sem ter em conta as palavras de ordem dos sindicatos. Nesse caso, a força sindical vira-se contra os trabalhadores.

O dirigente sindical torna-se assim escravo da sua função - a manutenção da paz nas fábricas - e isto em detrimento dos operários, se bem que pretenda defender os interesses destes o melhor possível. Visto que não é capaz de olhar para além do sistema capitalista, em pensar que a luta é inútil. Aí se situam os limites do seu poder e é sobre isso que a crítica deve incidir.

Existe outra saída? Podem os operários esperar ganhar qualquer coisa ao lutar? É bem provável que não obtenham satisfações imediatas, mas ganharão outra coisa, porque ao recusarem submeter-se sem combate, atiçam o espírito de revolta contra o capitalismo. Formulam novas reivindicações e torna-se então essencial que o conjunto da classe operária as defenda. É-lhes necessário mostrar a todos os trabalhadores que para eles não há esperança no interior das estruturas capitalistas e que só podem vencer unidos, fora dos sindicatos. É então que começa a luta revolucionária. Quando todos os trabalhadores compreenderem esta lição, quando se desencadearem greves simultaneamente em todos os ramos da indústria, quando rebentar uma vaga de revolta pelo país, então talvez nasçam algumas dúvidas nos corações arrogantes dos capitalistas; vendo o seu poder ameaçado, consentirão em fazer algumas concessões.

O dirigente sindical não pode compreender este ponto de vista, pois que o sindicalismo não pode olhar para além do capitalismo. Ele não pode deixar de se opôr a um combate deste género que significa a sua perda. Sindicatos e patrões estão unidos no receio comum de uma revolta do proletariado.

Quando os sindicatos se batiam contra a classe capitalista para obter melhores condições de trabalho, esta detestava-os mas não tinha possibilidade de os destruir completamente. Se hoje os sindicatos tentassem despertar o espírito combativo da classe operária, seriam perseguidos sem piedade pela classe dirigente, que reprimiria as suas acções, mandaria a milícia destruir os seus gabinetes, prenderia os seus dirigentes e condená-los-ia a multas, confiscaria os seus fundos. Se, pelo contrário, impedissem os seus adeptos de lutar, seriam considerados pela classe capitalista como preciosas instituições; seriam protegidos e os seus dirigentes seriam considerados dignos cidadãos. Os sindicatos encontram-se assim entalados entre dois males: por um lado as perseguições que são uma triste sorte para pessoas que se pretendem cidadãos pacíficos; por outro, a revolta dos operários sindicalizados que ameaça abalar os alicerces da organização sindical. Se a classe dirigente for prudente, reconhecerá a utilidade de um simulacro de luta, se quiser que os dirigentes sindicais conservem uma certa influência sobre os seus membros.

Ninguém é responsável por estes conflitos: são a consequência inegável do desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo existe, mas encontra-se também no caminho da sua ruína. Deve ser combatido simultaneamente como uma entidade viva e como uma fase transitória. Os operários devem, ao mesmo tempo, lutar incansavelmente para obter salários mais elevados e melhores condições de trabalho, e tomar consciência dos ideais comunistas. Agarram-se aos sindicatos que consideram ainda necessários, procurando de vez em quando fazer deles melhores instrumentos de combate. Mas não partilham o espírito do sindicalismo, que permanece essencialmente capitalista. As divergências que opõem o capitalismo à luta de classes são hoje representadas pelo fosso que separa o espírito sindicalista, principalmente incarnado pelos dirigentes sindicais, da atitude cada vez mais revolucionária dos sindicalizados. Este fosso torna-se evidente sempre que surge um problema político ou social importante.

O sindicalismo está estreitamente ligado ao capitalismo; é nos períodos de prosperidade que tem mais probalidades de ver as suas reivindicações de ver as suas reivindicações salariais satisfeitas. De tal modo que, em período de crise económica, tem de fazer votos para que o capitalismo retome a sua expansão. Os trabalhadores, enquanto classe, não se preocupam nada com o bom andamento dos negócios. Com efeito, é quando o capitalismo está mais fraco que eles têm mais probalidades de o atacar, de reunir forças e dar o primeiro passo para a liberdade e a revolução.

O sistema capitalista estende a sua dominação ao estrangeiro, apropriando-se das riquezas naturais de outros países em seu próprio benefício. Conquista colónias, submete as populações primitivas e explora-as não hesitando em cometer as piores atrocidades. A classe operária denuncia e combate a exploração colonial, enquanto que o sindicalismo defende muitas vezes uma política colonialista, fonte de prosperidade para o regime capitalista.

À medida que o capital aumenta, as colónias e países estrangeiros são objecto de investimentos maciços. Mercados para a grande industria e produtores de matérias-primas, adquirem uma importância considerável. Para obter estas colónias, os grandes estados capitalistas entregam-se a lutas de influência e procedem a uma verdadeira partilha do mundo. As classes médias deixam-se arrastar nestas conquistas imperialistas em nome da grandeza nacional. Depois os sindicatos colocam-se por sua vez ao lado das classes dirigentes sob pretexto de a prosperidade do país depender do sucesso que retira da luta imperialista. Por seu lado, a classe operária não vê no imperialismo mais do que uma forma de reforçar o poder e a brutalidade dos opressores.

Estas rivalidades de interesses entre as nações capitalistas transformam-se em verdadeiras guerras. A guerra mundial é o coroamento da política imperialista. Para os trabalhadores significa não só o fim da solidariedade internacional, mas também a forma mais violenta de exploração. Porque a classe operária, camada mais importante e mais explorada da sociedade, é a primeira a ser afectada pelos horrores da guerra. Os operários terão não só de fornecer a sua força de trabalho, como também de sacrificar a vida.

E, contudo, o sindicalismo em tempo de guerra não pode senão estar do lado do capitalismo. Estando os seus interesses ligados aos do capitalismo, não pode deixar de desejar a vitória deste último. Assim dedica-se a despertar os instintos nacionalistas e o chauvinismo. Auxilia a classe dirigente a arrastar os trabalhadores para a guerra e a reprimir qualquer oposição.

O sindicalismo tem horror ao comunismo, que representa uma ameaça constante à sua própria existência. Em regime comunista não há patrões nem, por conseguinte, sindicatos. Claro que nos países onde existe um forte movimento socialista e onde a grande maioria dos trabalhadores são socialistas, os dirigentes do movimento operário têm também de ser socialistas. Mas trata-se de socialistas de direita que se limitam a desejar uma república na qual honestos dirigentes sindicais substituiriam os capitalistas ávidos de lucro à cabeça da produção.

O sindicalismo tem horror à revolução que subverte as relações entre patrões e operários. No decorrer dos seus violentos confrontos, ela varre de um só golpe os regulamentos e as convenções que regem o trabalho; perante essas gigantescas manifestações de força, os modestos talentos de negociantes dos dirigentes sindicais são ultrapassados. Esta a razão porque o sindicalismo mobiliza todas as suas forças para se opôr à revolução e ao comunismo.

Esta atitude é rica em significações. O sindicalismo constitui uma verdadeira força. Dispõe de fundos consideráveis e de uma influência moral cuidadosamente mantida nas suas diversas publicações. Esta força está concentrada nas mãos dos dirigentes sindicais que a utilizam de cada vez que os interesses particulares dos sindicatos entram em conflito com os dos trabalhadores. Embora tenha sido construído pelos e para os operários, o sindicalismo domina os trabalhadores, do mesmo modo que o governo domina o povo.

O sindicalismo varia segundo o país e segundo a forma do desenvolvimento capitalista. Pode também passar por fases no interior de um determinado país. Acontece haver sindicatos que perdem a sua força e aos quais o espírito combativo dos operários insufla um sopro de vida, ou até os transforma radicalmente. Na Inglaterra, nos anos de 1880-90, um "novo sindicalismo" surgiu assim das massas pobres, dos estivadores, e outros trabalhadores não especializados e sub-remunerados rejuvenescendo as estruturas anquilosadas dos antigos sindicatos. O aumento do número de trabalhadores manuais vivendo em condições lamentáveis é uma das consequências do desenvolvimento da capitalismo que cria sem cessar novas indústrias e substitui os trabalhadores especializados por máquinas. Quando, reduzidos às suas últimas forças, estes trabalhadores seguem o caminho da revolta e da greve, adquirem finalmente uma consciência de classe. Remodelam as estruturas do sindicalismo, de maneira a adoptá-las a uma forma mais avançada do capitalismo. Na verdade, quando o capitalismo ultrapassa este limiar, o novo sindicalismo não pode escapar à sorte que espera qualquer forma de sindicalismo e produz, por sua vez, as mesmas contradições internas.

O novo sindicalismo iria aparecer particularmente na América, com os I.W.W. (International Workers of the World), nascido de duas formas de desenvolvimento capitalista. Nas vastas regiões de florestas e planícies do Oeste, os capitalistas apropriaram-se das riquezas naturais por métodos brutais a que os operários-aventureiros responderam com a violência e a selvajaria. No Leste dos Estados Unidos, a indústria ir-se-ia, pelo contrário, desenvolver à custa da exploração de milhões de pobres imigrados vindos de países de baixo nível de vida e que foram submetidos a condições de trabalho miseráveis.

Para lutar contra o espírito estreitamente corporativo do velho sindicalismo americano - a Federação Americana do Trabalho, que dividia os operários de uma fábrica em vários sindicatos separados -, os I.W.W. propuseram que todos os operários de uma mesma fábrica se unissem contra o patrão no interior de um sindicato único. Condenando as rivalidades mesquinhas que opunham os sindicatos entre si, os I.W.W. iriam voltar-se para esta fracção mais miserável do proletariado e conduzi-la para a luta. Eram demasiado pobres para pagar as cotas elevadas e constituir sindicatos tradicionais. Mas quando se revoltaram e se puseram em greve, foram os I.W.W. que os ensinaram a lutar, que juntaram fundos de apoio através do país e que defenderam a sua causa na imprensa e perante os tribunais. Alcançando uma série de vitórias, viriam a insuflar no coração das massas o espírito de organização e de responsabilidade. E enquanto que os antigos sindicatos jogavam na sua riqueza financeira, os I.W.W. apoiaram-se na solidariedade, no entusiasmo e nas capacidades de resistência dos trabalhadores. Em vez da estrutura rígida dos velhos sindicatos, os I.W.W. propuseram uma forma de organização flexível, variando quanto ao número conforme a situação, com efectivos reduzidos em tempo de paz, desenvolvendo-se com a luta. Recusando o espírito conservador e capitalista do sindicalismo americano, os I.W.W. preconizavam a revolução. Os seus membros foram perseguidos sem piedade pelo conjunto do mundo capitalista. Foram lançados na prisão e torturados com base em falsas acusações. O direito americano chegou mesmo a inventar um novo delito: o "criminal syndicalism".

Como método de luta contra a sociedade capitalista, o sindicalismo industrial, não é suficiente para, por si só, derrubar essa sociedade e conquistar o mundo para os trabalhadores. Combate o capitalismo sob a sua forma patronal, no sector económico da produção, mas não se pode declarar contra o seu baluarte político, o poder estatal. Contudo, os I.W.W. foram até hoje a forma de organização mais revolucionária na América. Contribuiu mais do que qualquer outra para despertar a consciência de classe, a solidariedade e a unidade do proletariado, para reivindicar o comunismo e para estimular as suas armas de combate.

O sindicalismo não pode vencer a resistência do capitalismo. Esta a lição que se deve depreender do que anteriormente se disse. As vitórias que alcança trazem apenas soluções a curto prazo. Mas as lutas sindicais não são menos essenciais e devem prosseguir até ao fim, até à vitoria final.

A incapacidade do sindicalismo nada tem de surpreendente, pois que se um grupo isolado de trabalhadores se pode mostrar numa justa correlação de forças quando se opõe a um patronato isolado, é porém, impotente face a um patrão que é apoiado pelo conjunto da classe capitalista. É o que se passa neste caso: o poder estatal, a força financeira do capitalismo, a opinião pública burguesa, a virulência da imprensa capitalista concorrem para vencer o grupo de trabalhadores combativos.

Quanto ao conjunto da classe operária, não se sente envolvido pela luta de um grupo de grevistas. Sem dúvida que a massa dos trabalhadores nunca é hostil a uma acção de greve: pode até chegar a empreender colectas para apoiar os grevistas - com a condição de não serem proibidas por ordem de um tribunal. Mas esta simpatia não vai mais longe: os grevistas permanecem sós, enquanto milhões de trabalhadores os observam passivamente. E a luta não pode ser ganha (salvo em casos particulares quando o patronato decide, por razões económicas, satisfazer algumas reivindicações) enquanto o conjunto da classe operária não estiver unido neste combate.

A situação é diferente quando os trabalhadores se sentem directamente implicados na luta; quando compreendem que o seu futuro está em jogo. A partir do momento em que a greve se generaliza ao conjunto da indústria, o poder capitalista tem de enfrentar o poder colectivo da classe operária.

Muitas vezes se disse que a extensão da greve, e a generalização ao conjunto das actividades de um país, era o meio mais seguro para assegurar a vitória. Mas é preciso não ver nesta táctica um esquema prático que possa ser utilizado em qualquer altura com êxito. Se assim fosse, o sindicalismo não teria deixado de a utilizar constantemente. A greve geral não pode ser decretada, segundo o humor dos dirigentes sindicais, como uma simples táctica. Não deve surgir senão das entranhas da classe operária, como forma de expressão da sua espontaneidade; e não se deve efectuar senão quando a essência do combate ultrapassa largamente as simples reivindicações de um só grupo. Então, os trabalhadores colocarão verdadeiramente todas as suas forças, o seu entusiasmo, a sua solidariedade e a sua capacidade de resistência na luta.

E terão necessidade de todas as suas forças, porque o capitalismo mobilizará por seu lado, as suas melhores armas. Poderá ser surpreendido por esta repentina demonstração de força do proletariado e poderá ver-se obrigado, num primeiro momento, a fazer concessões. Mas não passará de um recuo temporário. A vitória do proletariado não está assegurada nem é duradoira. O seu caminho não está claramente traçado, mas deve ser trilhado através da selva capitalista à custa de imensos esforços.

Contudo, cada pequena vitória é em si um progresso, porque arrasta consigo uma vaga de solidariedade operária: as massas toma consciência da força da sua unidade. Através da acção os trabalhadores compreendem melhor o que significa o capitalismo e qual é a sua posição em relação à classe dirigente. Começam a vislumbrar o caminho da liberdade.

A luta sai assim do domínio estreito do sindicalismo para entrar no vasto campo da luta de classes. Cabe então aos próprios trabalhadores mudar. Precisam alargar a sua concepção do mundo e olhar, para além das paredes da fábrica, para o conjunto da sociedade. Devem elevar-se acima da mesquinhez que os rodeia e fazer frente ao Estado. Penetram então no reino da política. É tempo de se preocuparem com a revolução.

Sindicalismo em Tempo de Pandemia Covid-19

12 de julho, 2020 Por: Elson de Melo*   O governo aproveitou a pandemia para sufocar de vez o movimento sindical brasileiro. No dia 1º de ab...