domingo, 1 de agosto de 2010

1º DE AGOSTO DE 1985 O DIA QUE O DISTRITO INDUSTRIAL PAROU: UMA HISTÓRIA A SER CONTADA

Por: Elson de Melo (*)


" A 1ª grande assembléia e a mais importante decisão.
31 de julho de 1985 os metalúrgicos dizem:
os patrões disseram não a greve é a solução!
Greve até a vitória!!!"

Dia 31 de julho de 1985, pela manhã os Diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus, fazem uma grande mobilização na entrada do Distrito Industrial, foram distribuídos panfletos convocando a Categoria para uma Assembléia Geral decisiva sobre a proposta dos trabalhadores. Além dos panfletos (mosquitinho) foi hasteada uma grande quantidade de Flâmulas Amarelas com letras pretas com os dizeres: “Assembléia decisiva hoje. Compareça!”.

A tarde no final do expediente pareciam que todos os ônibus que faziam rotas para o Distrito Industrial, foram desviados para o centro de Manaus, o destino era o Campo do Oratório na igreja de São José Operário na Esquina da Rua Ramos Ferreira com Visconde de Porto Alegre. Eram Homens e Mulheres que desciam em romaria em direção esse local. Todo esse ritual fazia parte da indignação dos trabalhadores diante da situação de salário e das condições de trabalho a que eram submetidos dentro das fabricas. Naquele momento aquela multidão de Operários e Operárias estava fazendo história. Caminhavam para realizarem a maior e a mais importante Assembléia da história dos Trabalhadores do Amazonas.

Não sei qual era a dimensão do campo. Ficou totalmente lotado, curioso, tentei caminhar no meio da multidão, não consegui! Além de lotado a gente não podia sair do local, era muita gente. Antes de eu anunciar o início da Assembléia e chamar o companheiro Ricardo Moraes Presidente do Sindicato para apresentar aos presentes à contraposta patronal, a multidão gritava “Se eles disseram não a Greve é a Solução!!!”.

Lembrando isso hoje, ainda me dá arrepios, foi um momento inesquecível, eu ia completar vinte e sete anos no dia 15 de agosto, éramos todos muito jovens, mas, ali estava a resposta ao trabalho árduo que desenvolvíamos, todos nos chamavam de “os meninos dos Metalúrgicos”. Embora tivéssemos recebidos muitas ajudas desde quando decidimos conquistar a Direção do Sindicato, destaco o trabalho do Padre Renato, da Professora Marlene Pardo Ribeiro, da equipe da FASE a época Antonio Vieira, Matilde e Paulo, da equipe do DIEESE César Conconne e Sergio Mendonça, do Dr. Mauricio Advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, do Professor Aloysio Nogueira Presidente do PT a época e de outros companheiros dos movimentos sociais e da UFAM. Porém, naquele momento, era sobre nós que pesava toda a responsabilidade, mas, diante da contraproposta patronal, não havia outro caminho senão a greve. A única experiência que tínhamos de greve foi em Abril a greve da Sanyo. Greve Geral era a primeira.

Quando nem bem o Ricardo Moraes terminou de apresentar a contraproposta patronal, os gritos surgiram em coro, “Greveeee!!!!! Greveeee!!! Greveeee!!!!”. Eu e Ricardo nos olhamos e o caboclo parrudo de Catutuba encaminhou a votação com a multidão aprovando de punho serrado e por unanimidade a 1ª Greve Geral dos Metalúrgicos de Manaus. Lamento não ter as fotos, quem tiver e quiser nos ajudar nesse resgate histórico é só mandar para o E-mail: elsonpme50@gmail.com ou fazer contato no fone: (92) 9930232, será uma honra publicar os créditos.

No dia 1º de agosto pela madrugada fomos assegurar a paralisação. As primeiras empresas a pararem foram as que tinham turnos iniciando às 6h. Philco, Philipes, em seguida Semp e Moto Honda. Os trabalhadores da Honda foram os grandes heróis da greve, efetivado a greve na empresa, eles saíram em passeata paralisando todas as demais fabricas, eram os guerreiro de branco empunhando a bandeira brasileira fazendo sua história. Muitas fábricas formaram seu comando de greve ainda à noite na assembléia, as que não conseguiram formar seus comandos fizeram logo pela manhã. Como se fossemos veteranos conduzimos a greve com extrema cautela e tendo total controle da situação.

Se a Direção do Sindicato era formada por um grupo de jovens idealistas, a categoria era muito mais nova ainda! Com exceção de Honda e Caloy, a grande maioria dos grevistas eram mulheres, tinha empresa que o quadro de funcionário era formado por garotas de 15 a 18 anos. Durante a greve aconteceu de tudo, casal que se separou porque o marido ou a mulher furou a greve, outros se enamoraram e até casaram depois, em fim, uma greve é feita de muitas historias, com determinação e vontade de dar um basta em tudo que é imposto de errado pelos patrões.

Passado vinte e cinco anos da primeira greve, podemos afirmar que aquele momento foi muito importante para melhoria das condições de trabalho e salário dos trabalhadores do Distrito Industrial. Mas, a importância maior está no respeito que a categoria passou a ter por parte da sociedade e dos patrões. Até hoje a categoria Metalúrgica serve de referencia para as demais categorias do Estado e da região.

Aproveito está data para homenagear a bravura e determinação da Diretoria eleita em 1983 pela chapa PUXIRUM, composta por jovens ousados, que tinham como meta a transformação de uma realidade cruel nas fabricas do Distrito Industrial, onde tudo era ruim, ambiente quente e poeirento, comida de péssima qualidade, o transporte era em ônibus velhos e sujos, não existia creche, não havia plano de saúde e seguro de vida, os salários eram uma vergonha e tanto outros que atentavam contra a dignidade do trabalhador.

É importante que os novos operários saibam que o pouco que existe de condição de trabalho melhor no chão de fabrica, devemos a uma geração de homens e mulheres que já não estão mais trabalhando no Distrito. Dentre eles está o Ex-presidente do Sindicato Ricardo Morais, os Diretores Simão Pessoa, Chico Fera, Magno Frazão, Celi Aquino, Alberto, Adalberto, Biil, Silvestre, Carlos Lacerda, Elias Sereno, Jonacy, Francisca, Rosenilda, Isabel Alegria, Seu Elias, José Raimundo, Ana, Amiraldo, Bíbi, Divaldo, Élson de Melo (esse caboclo que faz esta narrativa) e os já falecidos Antonia Priante Carlos Marinho a quem prestamos nossa homenagem póstuma. Foi assim que tudo começou.

Não tenho como relatar os membros do Comando de Greve, pois eram mais de cem pessoas. É importante registrar a importância do apoio das instituições sociais que foram nosso suporte em todos os momentos, para não cometer injustiça não vou identificar, porém, não custa nada afirmar: quem quiser lutar de fato contra as injustiças que oprime os trabalhadores e suas famílias, não pode prescindir do papel determinante dessas Entidades e pessoas.

O que mudou no Distrito Industrial e no Amazonas após 1º de Agosto de 1985? Após essa data houveram muitas transformações no campo das relações de trabalho, governamentais e comerciais, o que não é simples de responder, é preciso fazer uma criteriosa observação do comportamento desses empresários do DI, em relação às compras locais, a relação com os órgãos de comunicação, os investimentos nas políticas de governo do Estado, a responsabilidade social, a relação com a comunidade... São fatores que a partir dessa data mudaram totalmente, o que abordaremos em outras brochuras.

Este texto é apenas um pequeno relato que faço para que o Movimento Sindical em nosso Estado, de modo especial os Trabalhadores Metalúrgicos, busquem a compreender melhor esse momento conjuntural, hoje as empresas aceleram sua produção, sem se importar com os mais de quinze mil trabalhadores que estão mutilados vitima das doenças profissionais como a Ler/Dort, Escoliose e outras. Na verdade, só muda o tempo. Se nada for feito mais vidas sofrerão essas conseqüências. A exploração é ainda maior, enquanto os empresários faturam uma montanha de dólares e os Trabalhadores estão perdendo a cada ano muito do que já tínhamos conquistado. 1ª Greve Geral do Distrito: uma história a ser Contada.

(*) Élson de Melo é Sindicalista e Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus na época.

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