Elson
de Melo
Manaus,
setembro/2017
Organizar um
partido socialista na Amazônia, é a tarefa mais desafiadora para nós militantes
do PSOL no Amazonas. O território amazonense é divido por calhas de rios, baixo
e médio rio Amazonas, alto, médio e baixo rio Solimões, rio Purus, rio Juruá, rio
Madeira e Rio Negro. São rios que percorremos de barco hora a favor da
correnteza e em outros momentos contra a corrente.
A esquerda
socialista, tradicionalmente limita suas atividades políticas na capital
Manaus, para justificar essa pratica, alegam que um partido socialista, deve
primeiramente ser um partido operário, ou seja, um partido urbano.
Em parte,
existe uma razão até certo ponto convincente, porém, o argumento se esvaíra,
quando constatamos que atualmente, as pautas transversais, são as mais
exaltadas por essa ‘esquerda pós-moderna’, fato que deixa em segundo plano, a
organização do operariado e dos campesinos como classe revolucionária.
O ativismo
dessa ‘esquerda pós-moderna’ impede uma leitura mais consequente do processo
revolucionário de construção do socialismo, geralmente, preferem optar pelo ativismo
imediatista e oportunista, que não organiza nada, mas os credenciam a se apresentam sempre como
os principais agitadores sociais.
Para eles, o
modo de produção capitalista, pouco importa, preferem abraçar como
revolucionárias, as pautas mais agitadoras do momento, sem fazer uma análise
mais detalhada do caráter revolucionário desse ativismo. Não podemos negar que
muitas dessas pautas, são justas e merecedoras de toda atenção da esquerda
socialista, porém, é equivocado adotarmos como revolucionárias.
Não são poucas
as afirmações 'ecléticas' que ouvimos nos debates onde eles propõem um pseudo ‘novo
socialismo’. São afirmações sem nenhuma lógica cientifica, uma vez que não
mostra como será a superação do modo capitalista de produção, alimenta uma
visão excludente do proletariado como força revolucionária no processo de transformação social, exalta
uma pequena cúpula iluminada de dirigentes revolucionários como “protagonistas
intelectuais” de um pseudo-projeto de transformação radical e desprezam a organização de
um partido popular e de massa, como instrumento de luta das classes subalternas,
ou seja, mostram um total desconhecimento da memória histórica da classe
trabalhadora e de um projeto revolucionário.
Che Guevara, o
revolucionário que experimentou organizar uma revolução na Amazônia nos ensina “
Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. As nossas reflexões,
são no sentido de combater o pessimismo que a esquerda ‘pós-moderna’ tenta
impor aos nossos militantes ao fazerem exigências absurdas no campo intelectual,
onde eles [pós-modernos] se intitulam como os “protagonistas intelectuais” da
esquerda, mas esquecem de estudar a realidade objetiva que só é possível perceber
a sua dimensão no campo de batalha, no enfrentamento das correntezas dos rios,
na subida dos barrancos, na remada da canoa, nas picadas dos carapanãs, no
acompanhamento da vida do nosso povo nos beiradões dor rios, nas periferias das
cidades e no chão das fábricas.
Nos, militantes
do PSOL que compomos o campo popular do partido – Unidade Socialista,
preferimos apostar na capacidade de mobilização e organização do proletariado,
sejam eles do campo ou das cidades, sem com isso, abrirmos mão da importância da
formação intelectual e política dos camaradas. É com esse propósito que,
seguimos determinados a consolidar o PSOL em todo território amazonense, não
mediremos esforços para que em breve o PSOL seja o partido popular e querido do
nosso povo. Esse é o nosso compromisso!
A US – Unidade
Socialista, campo popular do PSOL, traz para o debate, ao 6º Congresso do
partido, a tese “ Em defesa dos direitos, reorganizar a esquerda e transformar
o Brasil”, nela fazemos considerações sobre; a crise do processo de acumulação
capitalista em escala global, sob hegemonia do capital financeiro e suas
consequências, caracterizamos o cenário de resistência da classe trabalhadora
contra a imposição do capital da sua receita anticrese, apontamos a necessidade
de derrotar o golpe de 2016 e fortalecer uma alternativa esquerda como resposta
as contrarreformas que retrocedem em
mais de um século as lutas dos trabalhadores e as conquistas da Constituição de
1988, indicamos caminhos para a reorganização da esquerda e destacamos os
pontos seguintes da tese como forma de construirmos um PSOL ã altura dos
desafios.
POR
UM PSOL À ALTURA DOS DESAFIOS
38. O balanço
que fazemos do PSOL nos últimos dois anos é muito positivo. Destacamos a
importância de uma direção estável, que soube se posicionar corretamente numa
conjuntura complexa e desafiadora.
39. Nosso
último Congresso aprovou, por ampla maioria, a posição contrária ao
impeachment. No dia seguinte, foi necessário conduzir o partido na linha tênue
entre a oposição programática e de esquerda ao governo Dilma e o combate nas
ruas ao golpe e seu programa.
40. A Direção
Nacional e a bancada acertaram ao colocar o partido claramente na resistência
ao impeachment. Foi acertado participar dos atos em frente única contra o
golpe, bem como tem sido acertado participar hoje da resistência à agenda de
contrarreformas do governo golpista.
41. Erraram
aqueles que, na contramão da realidade, defendiam posições deslocadas da
conjuntura, como “Fora Todos”, quando a única pessoa que estava sendo colocada
para fora era Dilma Rousseff. Involuntariamente, jogaram água ao moinho do
golpe.
42. Da mesma
forma, enquanto a Lava Jato era instrumentalizada para viabilizar o golpe,
erraram os setores que publicamente a apoiaram de maneira acrítica, sem
distinguir seus verdadeiros objetivos políticos.
43. Nesse
processo se constituiu, diferentemente das polarizações congressuais, uma nova
maioria política no partido. Ancorada na chapa vencedora, essa maioria se
ampliou em grande unidade com a bancada federal, a maioria dos mandatos
estaduais e diversos setores partidários, conduzindo o PSOL com votações
bastante majoritárias nas suas instâncias, com 70 a 80% de apoio. Para um
partido plural por concepção, abrigo de várias tradições da esquerda, ter suas
decisões respaldadas por maiorias políticas expressivas é muito positivo.
44. Nossa
bancada federal e a maior parte de nossas lideranças públicas, como Marcelo
Freixo, tiveram enorme protagonismo em todo o processo de impeachment. Junto
com a maioria da Direção Nacional, garantiram que a imagem do PSOL ficasse
identificada com a resistência ao golpe, ao mesmo tempo em que deixaram claras
nossas diferenças com o governo do PT.
45. A base
social que disputamos é fundamentalmente a que deu apoio eleitoral e político
às administrações petistas durante 13 anos, e não a classe média conservadora
que ganhou as ruas mobilizada pela mídia monopolista em falsa campanha contra a
corrupção. Perder de vista este fato teria sido um erro. O desenrolar da
conjuntura, com feroz ataque aos nossos direitos, reforçou a certeza de que não
era correto fazer sinal de igualdade entre Dilma e Temer. A história não
costuma perdoar erros desta magnitude.
46. Certamente
podemos dizer que a influência do PSOL aumentou sensivelmente no último
período, como provam as eleições de 2016 e o protagonismo na disputa pela
Presidência da Câmara, com a candidatura de Luiza Erundina.
47.
Incorporamos neste processo novos atores. A vinda de Erundina, Glauber Braga e
do coletivo Muitas Pela Cidade Que Queremos, em Belo Horizonte, servem de
exemplo de como a estabilidade, os acertos na condução e a boa localização
partidária permitiram que a ampliação fosse qualificada e com potencial de
diálogo com novas formas de organização que vivenciamos hoje no Brasil.
48. A entrada
de setores da esquerda trabalhista, como o vereador Leonel Brizola Neto, e de
correntes como a Esquerda Marxista e o Coletivo 4 de Novembro, na Bahia; a
adesão de fundadoras da #partidA e a aproximação do MAIS, bem como da Raiz
Cidadanista, demonstram que o potencial do PSOL para ancorar uma nova
alternativa de poder só é viável se continuarmos abertos a acolher de forma
generosa deslocamentos à esquerda.
49. No terreno
eleitoral, os resultados de 2016 são frutos do enraizamento do partido e do
acerto programático das campanhas, mas são também resultado do diálogo com o
eleitorado progressista, que começa a ver no PSOL um espaço seguro e coerente
para as suas reivindicações. Como consequência, disputamos o 2º turno em duas
capitais e em uma importante cidade do interior de São Paulo. O PSOL elegeu 16
vereadores nas capitais das regiões Sul e Sudeste, enquanto o PT fez 19 (8 em
São Paulo). Este resultado, apesar da diferença de recursos e tempos de TV,
mostra que o eleitorado progressista começa a ver no PSOL a sua melhor
alternativa de representação política.
50. Nossas
candidaturas galvanizaram energias de movimentos de mulheres, LGBTs, negros e
negras, segmentos que se deslocaram do petismo. Entre os 53 eleitos, nossas 11
vereadoras (sendo quatro as mais votadas em suas cidades) representam o anseio
do eleitorado progressista por coerência, novas práticas e representatividade
de gênero e raça. Por isso a importância da Bancada Feminista do PSOL,
iniciativa para o fortalecimento da resistência ao conservadorismo nas câmaras
legislativas, lançada no final de 2016 com mais de 100 mulheres em SP e apoio
da Fundação Lauro Campos e das Setoriais Nacional e estadual de Mulheres.
51. O 5º
Congresso consolidou duas decisões fundamentais para a vida partidária. De um lado,
a constituição de direções paritárias representou um salto de qualidade na
presença de mulheres nas instâncias. Aliado a isso, é importante ressaltar o
trabalho profícuo realizado pela Setorial de Mulheres, que pautou o partido em
questões fundamentais, como na edição de cartilha formativa para candidatas e
candidatos, produção de materiais contra o ajuste fiscal e a reforma da
previdência e na ADPF pela descriminalização do aborto, e promoveu ações
formativas, qualificando a presença de nossa militância nas importantes
movimentações de mulheres do país.
52. Também o 5º
Congresso inaugurou as cotas de negros e negras nas direções e exigiu do PSOL,
por conta da nova composição das direções, um novo olhar, mais classista e
racial, da crise e dos seus efeitos.
53. Destacamos
o verdadeiro processo de reorganização da Fundação Lauro Campos, que passou a
desenvolver intensa atividade editorial, com a regularização da Revista
Socialismo & Liberdade em edições bimestrais, publicação de livros de
grande apelo para o pensamento crítico no Brasil e participação no preparo dos
debates programáticos do partido. Hoje temos uma Fundação que é referência para
a intelectualidade crítica, um espaço aberto e à serviço do partido e não de
uma força política. Igualmente vale destacar a grande qualidade dos nossos
programas nacionais na TV, ampliando muito a audiência do nosso partido,
sobretudo entre a juventude.
54. É
necessário superar divisões artificiais e desenvolver esforços para aproximar
posições. Distensionar o debate interno torna-se cada vez mais necessário à
medida que o peso social e a responsabilidade do PSOL aumentam. É possível
fazer um Congresso com debate político qualificado, que prepare o partido para
as lutas vindouras e possibilite a melhor formação de nossa base.
55. No momento
em que escrevemos essa tese, é forte a possibilidade de ser aprovada a cláusula
de barreira, que visa nos colocar na clandestinidade. Em 2018, devemos ter como
prioridade garantir a superação desse risco, elegendo uma forte chapa federal e
alcançando os coeficientes exigidos. Isso deve estar à frente de qualquer
interesse local e demanda do partido unidade e responsabilidade nas definições
eleitorais.
56. Em 2018,
não somente vamos apresentar um programa de mudanças radicais, mas também
encarnar a mudança em um nome. Este nome deve unificar ao máximo o partido,
representar o acúmulo da condução partidária no último período, e ser capaz de
dialogar com o eleitorado progressista e setores organizados que gradualmente
se descolam do petismo. Por sua trajetória e dedicação a essa construção, o
nome do companheiro Chico Alencar é aquele que hoje reúne todas as condições
acima para nos representar.
MEDIDAS
POLÍTICAS DE REORGANIZAÇÃO
57. O próximo
período será de intensa reorganização da esquerda, partidária e
programaticamente. O PSOL tem importante papel no processo, mas para isso
precisa se preparar para cumprir essa tarefa.
58. O 6º
Congresso deve aprovar nossa disposição para contribuir de forma generosa com
todos e todas que queiram reconstruir um projeto de esquerda no país e colocar
o PSOL a serviço desse projeto. Devemos buscar expressá-lo no programa que
apresentaremos e nos esforços de reaglutinar forças de esquerda.
59. Não
consideramos que reorganizar a esquerda seja somente a simples adesão de
descontentes de outros partidos e organizações ao PSOL - o espaço privilegiado
para florescer o processo de reorganização. Precisamos estar abertos a arranjos
que apontem para uma nova síntese partidária no longo prazo, cujo formato é
cedo para definir, mas que se apresenta como uma necessidade para os que sonham
com o socialismo.
60.
Reorganização se faz a quente. É na luta contra os ataques aos direitos e por
uma alternativa que iremos forjar a necessária unidade e exprimir pontos comuns
de acordo capazes de definir que setores se somarão a esse esforço.
61. A
reorganização deve ser feita repensando métodos, assimiliando novas formas de
militância e estabelecendo novos paradigmas de análise e ação, como vem sendo
expresso na grande relevância de coletivos e articulações com centralidade da
luta das mulheres, negras e negros e LGBTs no confronto ao capitalismo, que no
Brasil se estruturou a partir do escravismo e do patriarcado. Esses coletivos
trazem em suas narrativas e organizações novas dinâmicas que devem ser
incorporadas por nós.
62. A
reorganização é feita também nas eleições de 2018, onde o PSOL lançará sua
candidatura a presidente, buscando congregar lutadores e lutadoras que ajudem a
formular um programa e a construir esta alternativa. Quanto mais ampla for a
construção, maior será a colaboração para a reunificação da esquerda num
projeto de massas.
63. Temos que
ter a humildade de olhar nossos erros, inclusive na forma de funcionamento. Uma
geração de jovens e assalariados enxerga os partidos com desconfiança. Isso é
fruto do desgaste e dos escândalos, mas também porque não nos reinventamos em
termos de funcionamento. O PSOL deve se repensar, tornando-se mais atrativo
para as novas gerações que surgem.
64. Devemos recadastrar
todos os filiados e filiadas, para confirmar o desejo de construir o partido e
viabilizar formas mais efetivas de comunicação direta com mais de 150 mil
brasileiros e brasileiras que optaram por fortalecer este projeto.
65. Tornar
nossas setoriais cada vez mais espaços coletivos e atraentes para participação
de muitos e muitas, abertos para a construção programática e a organização das
lutas, respeitando a base partidária e assegurando mecanismos que permitam que
eles alcancem todas as pessoas filiadas.
66. Total
transparência das ações partidárias, desde os posicionamentos políticos até o
uso dos recursos, regra que deve valer para todos os mandatos. Não podemos
querer democratizar o país sem democratizar o partido.
67.
Fortalecimento das instâncias. Para dentro, toda a democracia e debate das
divergências. Para fora, cada vez mais unidade, fortalecendo um sentimento de
corpo e voz coerentes e unificados nos posicionamentos.
68. Rigor nas
questões éticas. A formação do novo homem e da nova mulher passa por construir
normas éticas que sejam cumpridas. Temos que separar os problemas éticos dos
políticos, criar comissões de ética em todas as instâncias de decisão e aprovar
um código de ética partidário debatido com a base.
69. Aprofundar
o papel da FLC como espaço privilegiado de formação política da militância,
aumentar a integração com as setoriais e manter diálogo amplo na construção de
formulações, tal como temos feito nos últimos dois anos.
70. É nessas
tarefas que nos ancoramos para transformar o PSOL, cada vez mais, em um polo de
luta para derrotar os retrocessos, reorganizar a esquerda e transformar do
Brasil.
Nesse contexto, temos a missão desafiadora de consolidar o PSOL em todo território amazonense, organizando
diretórios, fazendo formação política, articulando os movimentos sociais,
promover novas lideranças e preparar candidaturas competitivas para 2018.
As eleições de
2018 e 2020, serão decisivas para a consolidação do PSOL como alternativa real
de poder no Amazonas e em todo o território brasileiro, para tanto, precisamos
de uma estrutura de comunicação muito bem organizada, de preferência
profissionalizada.
O PSOL será do
tamanho do nosso empenho, ou seja, quanto mais nos dedicarmos na sua
construção, menor serão os desafios.
Bom Congresso
camaradas!
Elson
de Melo é Secretário de Comunicação do PSOL Manaus

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