ESCRITO POR JOSÉ LUÍS
FEVEREIRO*
DOMINGO, 13 DE NOVEMBRO
DE 2016
A REESTRUTURAÇÃO
PRODUTIVA E A GOBALIZAÇÃO
A Segunda revolução
industrial está morta. No seu lugar, uma enorme reestruturação produtiva está
em curso, com o avanço da robotização eliminando postos do trabalho e o
deslocamento das plantas industriais intensivas em consumo de materiais, energia
e mão de obra para os países da periferia, principalmente para a Ásia. Este
processo produz vitoriosos e derrotados. Produziu ganhos significativos de
renda em países periféricos, em particular na Ásia, mas também na África e na
América Latina, mas aumentou a concentração de renda dentro de cada país. O
rebaixamento dos custos de produção industrial decorrentes da robotização e dos
menores custos salariais na Ásia produziu um enorme barateamento dos custos de
bens duráveis, viabilizando o acesso destes produtos a milhões de trabalhadores
pelo mundo afora. Mas deixaram atrás de si um rastro de destruição de empregos
industriais na Europa, nos EUA e nas regiões industrializadas do Brasil.
O deslocamento do
emprego para o setor de serviços significou um aumento de empregos bem
remunerados no setor financeiro e tecnológico para uma parte menor da população
e um aumento de empregos de baixa qualificação no setor de comércio e serviços
de baixa intensidade tecnológica para a maior parte da população. Os primeiros
viram sua renda subir acima da média, sua cesta de consumo de industrializados
baixar de custo e votaram contra o Brexit e em Hilary Clinton. Os segundos, a
maioria, via sua renda cair em relação à média, mas também em relação ao
patamar anterior, e votaram pelo Brexit e em Donald Trump. Em comum com o
filipino Duterte, os vitoriosos destes processos eleitorais construíram um
“inimigo” de fácil identificação: para Duterte, os “viciados”; para os
defensores do Brexit, a imigração e a União Europeia; para Trump, a imigração e
a China. É sempre bom lembrar, que nos anos 30, para Hitler os culpados da
crise eram os judeus.
Robert Paxton, em “A
Anatomia do Fascismo”, cita frase de George Sorel de 1908 criticando Marx por
não ter percebido que a história não avança inexoravelmente para o socialismo
“uma revolução alcançada em tempos de decadência pode tomar como ideal uma
volta ao passado, ou até mesmo a conservação social”. As bases sociais
tradicionais da esquerda nos cinturões industrializados da Europa, EUA e Brasil
não mais existem. Porque estes cinturões industriais não mais existem no mínimo
com a configuração que tinham há 30 anos atrás. Fora do centro financeiro de
Londres, prevaleceu o Brexit, com vitorias expressivas nas antigas áreas
industriais. Hilary perdeu a eleição na Pensylvania, Ohio, Michigan e
Winscosin, estados industriais decadentes e o PT perdeu as eleições no ABC. Não
foi uma derrota conjuntural, embora a conjuntura tenha tido seu peso. É uma
nova configuração política que chegou para ficar.
O DILEMA DA ESQUERDA
A esquerda, tal como
aprendemos a conhecê-la, construiu seus aparatos políticos, partidários e
sindicais a partir da segunda revolução industrial, em que expressivas
concentrações operárias formaram a sua base social por excelência. Para o
marxismo, classe social se define por uma mesma forma de inserção no processo
produtivo, uma relativa igualdade de acesso à renda e ao poder e, portanto, à
formação de consciência de si mesma. Estas condições estavam dadas nas velhas
plantas industriais, com milhares de operários organizados em atividades
semelhantes, com salários semelhantes entre si e enorme concentração espacial.
A globalização e a
reestruturação produtiva acabaram com estas condições. Nas plantas fabris,
sobreviventes dos velhos cinturões industriais, trabalham muito menos
operários, com um sem número de degraus e hierarquias entre eles e funções
muito mais diversificadas, assim como patamares salariais distintos. A enorme
maioria da força de trabalho foi deslocada para o setor de serviços, com formas
distintas de inserção no processo produtivo, em que subsiste trabalho
assalariado, mas cresce o trabalho terceirizado, a “pejotização” e o
empreendedorismo precarizado. Formar consciência de classe nestas condições é
muito mais difícil. A perda progressiva das identidades de classe foi
substituída pela ascensão de outras identidades fragmentadas em busca de
representação política. Pela esquerda, a luta antirracista, a pauta LGBT, a
luta feminista, a defesa de valores libertários. Pela direita, as identidades
étnicas, religiosas, culturais, a defesa de valores punitivistas.
Se no século 20 a luta
política se organizou, no fundamental, em torno de interesses de classe, neste
início do século 21 são as identidades que prevalecem na disputa. Recolocar a
centralidade da disputa política em termos de conflito de interesses de classe
é condição fundamental para a esquerda recuperar a relevância com capacidade de
disputar poder. Isto não significa abandonar ou relativizar as lutas por
direitos civis expressas nas pautas identitárias afeitas à esquerda, mas
reconhecer a sua insuficiência para lastrear a construção de uma nova hegemonia
política.
Por tudo o que expus
nesse texto, não é tarefa fácil nem tenho a pretensão de mostrar o caminho da
salvação. Entre a esquerda que segue com a certeza na frente e a história na
mão, eu fico com a sabedoria de Sócrates expressa na frase “tudo o que sei é
que nada sei”.
* José
Luís Fevereiro é membro do Diretório Nacional do PSOL.

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