ESCRITO POR ACHILLE
LOLLO DE ROMA PARA O CORREIO DA CIDADANIA
SEXTA, 12 DE AGOSTO
DE 2016
No dia 5 de março, acabava o calvário cancerígeno (ou a fase
definitiva de um assassinato desejado pelo imperialismo) que o presidente da
Venezuela, o Comandante Hugo Chávez, havia iniciado em outubro de 2012, logo
após ganhar as eleições pela quarta vez. O desaparecimento do teórico do
Socialismo do Século 21 permitiu ao imperialismo estadunidense introduzir no
contexto venezuelano uma nova dinâmica contrarrevolucionária, juntamente às
novas dinâmicas da guerra econômica e da manipulação midiática. Assim, esperava
que se pudesse apagar em menos de dois anos a chama do chavismo e, portanto,
“castrar” a eleição de Nicolas Maduro e pôr fim, em termos constitucionais, à
Revolução Bolivariana.
Posteriormente, a crise provocada com a queda do preço do barril de
petróleo, até 28 U$ dólares, fez com que o esquema subversivo das “excelências”
da Casa Branca conseguisse ocupar espaço na difícil conjuntura política
venezuelana. De fato, temos que admitir que nos últimos dois anos a
estabilidade do governo revolucionário bolivariano foi submetida a duras
provas, sobretudo com o acirramento da guerra econômica que, entre outros
motivos, permitiu a eleição de Henrique Capriles no estado de Miranda e de uma
bancada opositora (MUD), politicamente implicada na ruptura violenta da
democracia.
Hoje, os parlamentares da oposição, teleguiados por Henry Ramos
Allup, alcançaram a maioria e em oito meses de atividade parlamentar nada
fizeram, a não ser as tentativas de atropelar as atividades legislativas do
Parlamento, com vistas a acelerar a paralisia administrativa da economia e
consequentemente o colapso do governo bolivariano do presidente Maduro.
Um cenário em que segundo a histórica “excelência” do Departamento
do Estado, Henry Kissinger, “uma revolta popular poderia provocar o fim do
regime chavista e, portanto, silenciar definitivamente o legado político de
Hugo Chávez”.
Uma tese que se revelou inconsequente e falimentar, porque o
“legado político” de Hugo Chávez conseguiu frear o processo de desarticulação
da democracia bolivariana, que o drama da guerra econômica e a absurda
manipulação da mídia haviam acionado. Em função de tudo, nos meses de março e
abril, o New York Times, o El Pais, a CNN,
a BBC, a TV italiana RAI e o jornal progressista La
Repubblica apostavam na renúncia do presidente Nicolás Maduro. Depois,
em junho, começaram a reduzir os artigos sobre a Venezuela, que a partir do mês
de julho praticamente desaparecia das páginas da “grande mídia”.
Uma situação que em termos geopolíticos pode frear a dinâmica da
estratégia imperialista na América Latina. De fato, se na Argentina os erros de
Cristina Kirchner ajudaram o ultraliberal Mauricio Macri a ganhar as eleições,
enquanto no Brasil a dupla Temer/Cunha acabava com o governo de Dilma Rousseff
com um “golpe branco”, na Venezuela o governo revolucionário bolivariano
conseguiu resistir com o apoio do povo, que reconhece os esforços feitos pelo
governo para sair da crise.
Para aprofundar a análise geopolítica sem os argumentos da “grande
mídia”, entrevistamos o professor Luciano Vasapollo que, através de sua
organização (Rete dei Comunisti) e outras estruturas político-culturais
(Associação Nuestra América, Associação Marxista Política e Classe),
manteve uma longa relação com o Comandante Chávez e continua a manter imensas
ligações com o atual governo. Sem esquecer que Vasapollo, além de ser o
delegado para América Latina do reitor da Universidade de Roma La
Sapienza, é também considerado um dos principais estudiosos marxistas
europeus, integrado à realidade política e ideológica da revolução bolivariana.
Neste âmbito, no dia 28 de julho e depois no dia 31, Luciano
Vasapollo realizou duas entrevistas com a Radio Sur e a Radio
Nacional, com grande repercussão, sobretudo nos países do
ALBA e em todos os programas em castelhano das emissoras europeias. O motivo
desse sucesso depende da capacidade, enquanto europeu, de explicar por que o
legado político de Chávez ainda resiste aos ataques da oposição,
desmentindo as fáceis previsões das “excelências” da Casa Branca e dos
estrategistas inimigos.
A entrevista completa com Luciano Vasapollo pode ser lida abaixo.
Correio da Cidadania: A
jornalista Cristina Gonzalez (que durante muitos anos entrevistou Hugo Chávez
no programa Alô Presidente) frisou que você teve uma relação de
grande colaboração e amizade com o Comandante Chávez e agora mantém também com
o presidente Nicolas Maduro. Uma relação que ficou mais ampla, abrangendo
ministros e setores do PSUV, com a realização de projetos de estudos e análises
por parte das estruturas políticas e culturais que você coordena juntamente a
Rita Martufi e outros camaradas da Rete dei Comunisti. Pode
explicar como foi construída essa relação?
Luciano Vasapollo: Em 1969, quando na
Itália surgiu a esquerda “extraparlamentar”, por não estar no Parlamento, eu,
muito jovem, fui militante da organização Poder Operário (Potere Operaio),
fundada por Tony Negri. Era o tempo do guevarismo e por isso eu fiquei
fascinado pelo movimento guerrilheiro venezuelano (FLN-FALN), liderado pelo
famoso Douglas Bravo. Depois, em 1989, com Rita Martufi, vivenciamos o Caracazo
(1), presenciando a brutalidade assassina de um governo de centro-esquerda que
dizia ser democrático, apesar de ser o fiel executor das ordens do imperialismo
estadunidense. A seguir, quando em 1992 Hugo Chávez tentou promover um
movimento insurrecional com o MBR200, com a participação de setores
progressistas e nacionalistas das Forças Armadas para derrubar o então presidente
Carlos Andes Perez, começamos a estudar intensamente o contexto político da
Venezuela, em particular seus fundamentos históricos.
A simbiose de Chávez entre pensamento e ação e o crescimento do
movimento chavista transformaram nosso interesse em uma postura de militância,
que se afirmou em 1998, quando Chávez ganhou sua primeira eleição e depois em
1999, quando o povo de Caracas fechou o Palácio Miraflores e obrigou os
golpistas a uma vergonhosa fuga. Daqueles dias veio minha relação com o Comandante
Chávez e depois com alguns ministros, entre os quais Hector Navarro, Jorge
Giordani, Luis Salas, Jorge Arreaza, Ricardo Menezes, um importante componente
da atividade política da Rete dei Comunisti e da Associação “Nuestra
América”.
Um interesse que abrangeu também minha atividade acadêmica de
professor na Universidade de Roma La Sapienza. Por exemplo, neste
ano elaborei um plano de estudo para meus estudantes, onde foi analisada a
conjuntura política e econômica de Venezuela, Bolívia, Cuba e Argentina. Por
isso temos realizado uma série de entrevistas editadas em quatro DVDs,
traduzidas para o espanhol e distribuídas como material didático naqueles
países.
Correio da Cidadania:
Resulta que o capitulo da entrevista da Radio Sur mais
reprisado na rede foi teu comentário sobre a atualidade do legado político de
Hugo Chávez. Poderia explicar por que, hoje, a herança política de Chávez é de
extrema importância para o governo de Maduro?
Luciano Vasapollo: Não é a primeira vez
que renomados jornalistas venezuelanos me chamam de Caracas, em plena noite,
pedindo uma entrevista para conhecer o ponto de vista da área política e
sindical a que tenho honra de pertencer, sobre temáticas complicadas e que
necessitariam de horas de reflexão, algo praticamente impossível no rádio, onde
tudo é imediato. Por isso, na entrevista da Radio Sur tentei
sintetizar a importância do legado político de Chávez, sublinhando que foi
mesmo em função da concepção revolucionária chavista que, hoje, a Venezuela
bolivariana, os militantes do PSUV, os chavistas e as massas populares fiéis
aos princípios da democracia participativa conseguiram resistir aos violentos
ataques do imperialismo.
Agora, todo o mundo reconhece que sem esta herança política, sem o
estímulo para construir o projeto político que Chávez identificou como o
Socialismo do Século 21, sem a decisão dos trabalhadores venezuelanos em
defender a democracia bolivariana, o imperialismo estadunidense teria ganhado e
derrubado as dinâmicas revolucionárias e progressistas não só da Venezuela, mas
de toda a América Latina.
De fato, ao analisar a estrutura das componentes subversivas que as
antenas da CIA acionaram nas chamadas Revoluções coloridas – refiro-me à
Ucrânia e Geórgia, mas também às famosas primaveras árabes – reparamos que seis
meses de atividade subversiva e terrorista foram suficientes para determinar a
queda daqueles governos.
Contrariamente, na Venezuela revolucionária, o plano subversivo de
Washington ainda é uma hipótese que deve ser verificada, visto que apesar dos
atentados terroristas e das consequências da guerra econômica, o povo
bolivariano acredita que o governo chavista de Maduro vai conseguir resolver os
problemas econômicos.
Na realidade, a grande maioria do povo venezuelano, por ter
adquirido nestes anos uma consciência política, entendeu que a crise econômica
não foi provocada pelo governo ou pelo sistema bolivariano, mas, sim, pela
queda do preço do petróleo que paralisou todos os investimentos que o governo
havia destinado às Misiones.
Por isso, o povo apoia o novo programa de reformas estruturais que
o presidente Maduro lançou na primeira semana de julho. Por outro lado, os
trabalhadores sabem que acreditar nas palavras da oposição significa voltar aos
níveis de pobreza, desemprego e exploração do passado. Por isso todo o legado
político de Chávez se tornou a ideologia do presente.
Correio da Cidadania: Todo
o mundo, sobretudo na esquerda, gostaria de saber como o movimento chavista
consegue resistir à manipulação midiática internacional e como conseguiu
rechaçar os ataques da subversão imperialista. Você consegue explicar isso?
Luciano Vasapollo: É necessário lembrar
que desde o início da revolução chavista, mas sobretudo agora, o imperialismo
está tentando acabar com a experiência bolivariana. Nestes últimos três anos
assistimos a um enfrentamento disfarçado, mas ao mesmo tempo tremendo, onde a
resistência política do PSUV e a defesa da soberania nacional por parte do
movimento chavista foram os elementos determinantes que, hoje, caracterizam a
continuidade do governo revolucionário e a legitimidade da direção política do
presidente Maduro.
Um contexto onde se sobressaem duas questões políticas com
elementos preponderantes e que continuam a determinar a longevidade do
posicionamento geopolítico e geoestratégico da Venezuela bolivariana e
chavista.
A primeira é representada pelas características políticas e
constitucionais do processo participativo revolucionário da democracia de base
e do protagonismo das massas populares bolivarianas. Algo que mudou por
completo a relação Estado-Cidadão e continua a ser aceito, desejado e reforçado
pelo povo.
A segunda se relaciona com a evolução socioeconômica que em 15 anos
produziu contínuas melhorias na qualidade de vida dos setores populares, com a
atividade das diferentes Misiones, que o governo bolivariano criou,
invertendo o destino final da renda petrolífera. Isto é, os bilhões de dólares
que antes eram pagos às multinacionais e aos especuladores da burguesia
venezuelana, mas com a chegada dos governos de Chávez e Maduro foram utilizados
para financiar os projetos socais, as infraestruturas e os moldes da economia
socialista em geral. Uma realidade que o povo conhece, e muito bem! Como também
sabe que o contrabando, a economia “dolarizada”, a sabotagem da economia e a
corrupção são fenômenos que nada têm a ver com o projeto revolucionário.
É verdade, hoje muitos setores populares criticam o governo. Mas a
maioria deles o faz porque desejaria que o governo atuasse com mais vigor, com
mais repressão para com os terroristas, os especuladores e os contrabandistas.
Uma situação difícil, onde em cada momento as rádios e as TVs repetem o
blábláblá subversivo dos fascistas Capriles e Henry Ramos Allup, que não
convence as camadas populares, em um momento que os trabalhadores não
esqueceram que os governos chavistas construíram milhões de casas populares,
introduziram o contrato nacional de trabalho, fixaram aumento salariais e
disciplinaram as categorias da aposentadoria. Além disso, foram desenvolvidas
as cooperativas, a fim de garantir mais ocupação com projetos que mudaram a
Venezuela, com modernas infraestruturas que garantem gratuitamente instrução
primária e universitária, transportes, cultura, informação, esporte e,
sobretudo, saúde a todos aqueles antes excluídos do bem estar social.
Por isso, o conceito de Justiça Social formulado por Chávez, logo
após sua eleição em 1998, se tornou a linha ideológica do Estado e do governo
bolivariano de Maduro, que agora está tentando continuar, apesar da difícil
situação econômica que a Venezuela sofre, à causa do duro e ignominioso ataque
do imperialismo estadunidense e das oligarquias da burguesia venezuelana.
Correio da Cidadania: Na
entrevista da Radio Sur e depois na Radio Nacional você
admitiu a existência, na Itália e em outros países europeus de uma ligação
entre a análise política chavista e o sistema de lutas realizadas pelos
sindicatos classistas e as mobilizações dos movimentos sociais. Além disso, você
admitiu que existe uma significativa ligação entre a conotação revolucionária
do chavismo, as experiências da Cuba socialista e da Rete dei Comunisti,
a Associação Nuestra América e o Capitulo Italiano da
Rete in Difesa dell’Umanitá. Pode explicar como surgiu essa relação?
Luciano Vasapollo: Antes de tudo quero
sublinhar que a Rete dei Comunisti – de que sou militante de
longa data – e também a ampla área política da alternativa revolucionária,
consideram – enquanto marxistas, comunistas e guevaristas, mas também
gramscianos – que a tese do Socialismo do Século 21 formulada por Chávez é, de
fato, uma novidade em termos de teoria revolucionária, determinante para o
desenvolvimento da nossa atividade política no movimento classista europeu e,
portanto, na formação política e ideológica das massas.
Por isso existe uma relação estreita entre a Rete dei
Comunisti e alguns setores específicos do movimento chavista e do
PSUV. Aliás, quero sublinhar que a referida Rete dei Comunisti foi
fundada em 1998, quando a revolução bolivariana iniciava sua evolução política
ganhando a primeira eleição. Assim, enquanto sujeito político anticapitalista e
anti-imperialista, para nós se tornou a referência ideológica mais atualizada,
juntamente com a prática militante e os ensinamentos da revolução cubana e da
sandinista.
Portanto, minha organização política e as estruturas com as quais
colaboro, no âmbito político e cultural do marxismo militante, já realizaram
muitos estudos comparativos e analíticos sobre as experiências bolivarianas,
antes de tudo aquelas que enfocam a evolução das condições dos trabalhadores no
setor petrolífero e no terciário, a realização do planejamento socioeconômico
nas condições atuais em Cuba e nos restantes países do ALBA.
Pesquisas que foram transformadas em artigos, publicados nas
revistas “Nuestra América” e “Proteo”, e em dezenas de livros que
circulam nos movimentos socais, nos sindicatos classistas, nos movimentos
populares e nos setores do movimento estudantil universitário.
Outro importante instrumento de divulgação política (publicada em
papel e on-line), que oferece muito espaço à realidade política e social
bolivariana, é o jornal Contropiano e a histórica Radio
Cittá Aperta.
Ao mesmo tempo criamos uma vinculação ideológica e de colaboração
política com o processo revolucionário da Venezuela, do momento que o governo
bolivariano, antes com Chávez e agora com Maduro, manteve uma posição firme
contra o sistema capitalista e contra as novas formas de exploração inventadas
pelas transnacionais. Por isso tudo, o governo chavista se tornou uma
referência para a chamada transição ao socialismo.
Resumindo, posso afirmar que para a luta dos sindicatos classistas
e os militantes autenticamente comunistas, que na Itália, hoje, são os únicos
que travam a luta contra a opressão do modelo neoliberal, o exemplo da
Venezuela bolivariana e sua prática internacionalista são de fundamental
importância para mobilizar os trabalhadores e organizar suas lutas classistas,
seja nas reivindicações para com os patrões do setor privado como os
administradores das empresas públicas.
Correio da Cidadania: Para
muitos olhos socialistas, o governo bolivariano foi demasiado “bonzinho” com
quem quer sua destruição. Poderia explicar por que a resposta do Estado e do
governo bolivariano à subversão, à sabotagem e às centrais do terrorismo nunca
foi tão dura e repressora como alguns setores acham que deveria ter sido?
Luciano Vasapollo: Esta é uma pergunta
que mereceria páginas e páginas para se responder devidamente e que eu já fiz
várias vezes ao Comandante Chávez, bem como ao presidente Maduro. Entretanto, vou
ser breve e linear.
Como primeiro ponto devo lembrar que a democracia bolivariana não
recorre à metodologia da repressão do sistema burguês quando deve combater seus
inimigos. Estes devem, sim, ser derrotados e certamente serão derrotados,
porém, dentro do novo contexto político criado pela revolução bolivariana e não
somente com novos códigos penais. Antes de tudo, através do novo conceito de
democracia, que abrange as novas normas constitucionais, legislativas e
eleitorais. Enfim, através de um novo código de vida.
Nunca devemos esquecer que a democracia participativa bolivariana é
um modelo político de novo tipo, que introduz na sociedade uma nova cultura no
que diz respeito à administração do Estado, o gerenciamento da economia, bem
como o relacionamento entre as instituições e os cidadãos, inclusive com
aqueles que cometem crimes. A este propósito lembro de quando Chávez dizia nas
reuniões restritas, mas também publicamente, como na conferência de imprensa
realizada em Porto Alegre durante o Fórum Mundial: “as centrais subversivas
e o imperialismo esperam poder acender a fogueira da guerra civil explorando
eventuais excessos violentos da nossa polícia, para depois dizer que a justiça
bolivariana é igual à das ditaduras. Por isso Chávez alertava: camaradas,
nunca se esqueçam como foi montado e provocado o golpe de estado de 1999 para
atiçar o povo contra nós e como foi justificado pela imprensa. Esta foi uma
lição que não podemos esquecer, nunca”!
De fato, o Comandante Chávez tinha razão, porque nestes últimos
dois anos e meio o objetivo dos ataques terroristas das guarimbas visava
provocar um sangrento enfrentamento com a Polícia Metropolitana e,
eventualmente, também com o Exército, para depois dizer que o governo chavista
reprimiu barbaramente as manifestações públicas da oposição. Um cenário que
permitiria ao “democrático” Barack Obama declarar que na Venezuela existe um
latente clima de guerra civil, em função do qual os Estados Unidos deveriam
intervir por motivos humanitários e para restabelecer a democracia.
Não é a primeira vez que a Casa Branca promove as chamadas “guerras
humanitárias” para derrotar um país socialista. Por isso, quero lembrar que na
primeira semana de maio o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe pediu que a
OEA realizasse uma intervenção armada contra a Venezuela. Depois, no fim de
maio o secretário geral da OEA, Luis Almagro, queria aplicar o artigo 20 da
Carta Democrática para legitimar a intervenção militar com o objetivo
de reconstruir a democracia.
Infelizmente, os grupelhos do dogmatismo sectário e as centúrias da
burocracia esclerótica, muitas vezes corrupta, na Venezuela, mas também na
Europa e, em particular, aqui na Itália, não querem entender este sério,
verdadeiro e iminente perigo da possível invasão. Perdem tempo em besteiras
para autopromoverem-se com uma inexistente sabedoria, enquanto passam o tempo
tentando dividir o movimento e ignorando que o interesse real da Venezuela
bolivariana é a unidade entre os revolucionários e não o protagonismo de A, B
ou C.
Correio da Cidadania: Como
reagia Chávez diante das manifestações de sectarismo político e do excesso de
burocracia?
Luciano Vasapollo: Antes de tudo quero
dizer que o Comandante Hugo Chávez era absolutamente contrário a todo tipo de sectarismo
político. Da mesma forma procurava combater os personalismos da máquina
administrativa, inclusive porque a corrupção começa sempre quando há uma
excessiva distorção das normas administrativas ou quando se utiliza a
burocracia para enveredar o caminho do protagonismo.
Chávez não gostava mesmo do sectarismo político e desconfiava
bastante daqueles que vestiam a camisa vermelha do super-revolucionário somente
para difamar, acusar e enlamear militantes chavistas ou sinceros
revolucionários ligados ao destino da revolução bolivariana. Indivíduos e
grupelhos que encontramos também aqui na Itália, onde a esquerda sofreu uma
geral modificação e muitos setores ficaram profundamente corruptos, no momento
em que abandonaram a ética da militância classista.
A este propósito quero lembrar a resposta que Chávez deu no
programa Alô Presidente a alguns membros da chamada União
Socialista dos Trabalhadores (3), afirmando que “o sectarismo mina a
construção política do processo bolivariano, da mesma forma como na Itália o
conceito gramsciano de sociedade civil, ou de bloco histórico, ou de hegemonia
foram manipulados de tal maneira que, hoje, não representam mais o que Gramsci
realmente entendia”.
Segundo Chávez, a lógica do protagonismo que visa à autopromoção e
se coloca acima do processo revolucionário é mero sectarismo. Algo que, em
breve, se torna asfixiante porque visa promover o individualismo e a chamada
“nova elite revolucionária”. O processo revolucionário bolivariano é contra
tudo isso, porque suas bases são os conceitos que regulam a democracia plural
revolucionária, onde o respeito pelas ideias é um comportamento político de
classe que alimenta o respeito pela ciência social da democracia participativa.
Vou fazer uma confissão: eu, no início, e também toda a nossa área
política, tivemos dificuldade em entender a nova lógica de análise política
revolucionária que Chávez formulou desde os primeiros anos de governo
bolivariano. E esta nossa dificuldade não era intelectual, mas a visão
eurocêntrica da esquerda italiana. Depois de sua morte e, sobretudo, nesses
últimos dois anos, os cubanos demonstraram que o Comandante Chávez estava com a
razão, quando a transição ao socialismo é um processo longo e complexo, que
abrange também os setores da burguesia. Pois esta deverá reconhecer a
centralidade da maioria formada pelo povo trabalhador. Assim, as acelerações do
sectarismo político, sejam elas de grupo ou indivíduos, atrasam sempre a
evolução do legado político chavista.
Correio da Cidadania:
Nesse longo período de transição, o Estado e a democracia bolivariana devem se
fechar para garantir sua defesa ou devem tentar de romper o cerco do
imperialismo a fim de divulgar as experiências e as conquistas da revolução
bolivariana?
Luciano Vasapollo: Atenção, não devemos
confundir a defesa das conquistas revolucionárias com a divulgação dos
princípios da transição, que regulam as atividades da revolução bolivariana.
Quer dizer, é preciso seguir sempre as orientações de Chávez, segundo as quais
a defesa da revolução bolivariana é um elemento orgânico da mesma transição ao
socialismo e, antes de tudo, um elemento coletivo de massa.
Acredito que a divulgação dos princípios e das conquistas da
revolução devem ser os mais amplos possíveis, porque é assim que se combate a
cultura do individualismo burguês e as manipulações da mídia produzidas pelos
jornais e as televisões ligadas ou dependentes das centrais do imperialismo.
Por outro lado, se nos fechamos em uma trincheira onde, no lugar de
desenvolver a prática da democracia participativa, começamos com a “luta
interna” para ganhar a chamada representatividade revolucionária, em pouco
tempo se acaba por fazer o que a contrarrevolução quer, isto é, guerrear entre
nós.
Devo dizer que Chávez, e hoje o presidente Maduro, sempre
procuraram a unidade e o crescimento das forças revolucionárias, sem distinções
e, sobretudo, no seio da sociedade venezuelana e em função da objetividade dos
interesses de classe.
Correio da Cidadania: Na
entrevista de 31 de julho com Cristina Gonzalez da Radio Nacional,
que, na realidade é a principal voz revolucionária da Venezuela, você denunciou
o comportamento de certa esquerda europeia sectária, extremista e, sobretudo,
dogmática que, por trás das atividades da solidariedade com camisa e
chapeuzinho vermelho, na realidade estaria criando vínculos com setores
“democráticos”, porém, ambíguos. Poderia ser mais claro e direto nesse
argumento?
Luciano Vasapollo: É verdade, na
extensa entrevista da Radio Nacional, consegui expor o que não foi
possível dizer nos 15 minutos da entrevista de Radio Sur. Por isso,
eu bati de frente em um problema que não interessa somente à Itália ou à
Venezuela. É um problema geral porque se trata do sectarismo de uma
ultraesquerda que para ser visível agora está fazendo alianças com organizações
milimétricas, que se movimentam fora do contexto das mobilizações classistas.
Por isso, personagens italianas, europeias e também venezuelanas
atuam e se movimentam utilizando uma linguagem pseudorrevolucionária, para
depois tentar impor os hipócritas objetivos dos progressistas a serviço da
democracia burguesa.
Esta é uma atitude mesquinha! É a atitude do anão da política – num
sentido figurativo e com o máximo respeito para quem é baixo de altura. Você se
deve lembrar quando a Fiscalia Judiciária do aeroporto de
Caracas foi vítima de uma “trampa” (engano) por parte da polícia
colombiana, que por duas vezes conseguiu apresentar dois mandatos de extradição
da Interpol contra pressupostos traficantes, quando, na realidade, no primeiro
caso se tratava de um velho combatente das FARC exilado na Suécia e depois de
um militante do ELN que vivia em Caracas. Assim, em toda a Europa apenas dois
ou três grupelhos da ultraesquerda, minoritária e sectária, entre eles um
italiano, escreveram um editorial emporcalhando os dois companheiros
colombianos, além de apoiar a extradição às tenebrosas prisões da Colômbia.
Hoje, o verdadeiro problema é que o imperialismo – que não é um
tigre de papel – utiliza suas antenas para mobilizar entidades intermediárias
ligadas às concepções políticas burguesas, que estão longe das massas
proletárias, mas atuam nas batalhas da burguesia para o respeito dos direitos
humanos com o objetivo de abrir espaços às lideranças da esquerda minoritária e
sectária.
Trata-se, portanto, de uma representação teatral para reforçar a
imagem da oposição que diante desses cenários vai dizer: “afinal, também a
esquerda está cansada de Maduro e até os grupos revolucionários não aguentam
mais o chavismo”.
Parece uma terrível casualidade, porém, no mês de maio, quando na
capital da Venezuela a oposição realizou numerosas manifestações, grupelhos de
estudantes que se dizem trotskistas e maoístas foram à rua para manifestar
contra o governo Maduro, juntando-se aos grupos da lumpenburguesia de Capriles.
Portanto, não devemos ficar pasmos se os congêneres europeus e
italianos fazem o mesmo utilizando a rede para publicar as mesmas mentiras que
os social-liberais da esquerda dizem e repetem.
Correio da Cidadania: Por
que a Rete dei Comunisti diz que a esquerda eurocêntrica é o
sujeito político que mais aceita as manipulações da mídia e a construção do
polo imperialista europeu, baseado no eixo franco-alemão?
Luciano Vasapollo: A atual fase da globalização
neoliberal favoreceu na esquerda reformista a aceitação e a afirmação do
eurocentrismo. Um processo que se revelou o elemento perfeito para impor ao
chamado Terceiro Mundo os conceitos que definem a hegemonia da União Europeia,
enquanto centro político, econômico, financeiro, tecnológico, esportivo e
cultural. Secundária, apenas, ao imperialismo dos Estados Unidos.
O drama político é que hoje todos os partidos europeus de
centro-esquerda, da esquerda reformista ou daquela radical-ambientalista,
juntamente com os partidos de esquerda que um dia assumiram posições
revolucionárias, se tornaram, todos, partidos eurocêntricos. Assim, tudo o que
não convém a estes partidos, grupelhos ou até personagens específicos é
declarado impróprio, impraticável e inútil para o resto do mundo. Digamos que o
eurocentrismo é uma espécie de dogma político através do qual todos os
neocolonizadores da política, da economia e da cultura pretendem impor suas
decisões aos partidos e aos movimentos populares do Terceiro Mundo. Na prática,
o eurocentrismo é um meio para induzir as novas lideranças africanas, árabes e
latino-americanas a aceitar, em silêncio, a relação de dependência com o
imperialismo estadunidense e da União Europeia.
Entretanto, o erro mais grave cometido pelos partidos da esquerda
eurocêntrica foi o de terem aceitado todas as distorções que surgiram durante a
definição do bloco europeu. Distorções que foram provocadas unicamente pelo
mercado e pelo neoliberalismo. É evidente que todos os partidos da esquerda
eurocêntrica, apesar de uma fingida oposição de fachada, mantiveram o absoluto
silêncio, sabendo que assim as portas do poder se abririam para eles. Por
exemplo, na Itália este jogo de poder começou na década de 60, com os primeiros
governos de centro-esquerda da Democracia Cristã com o Partido Socialista de
Nenni e depois de Craxi. A seguir, tivemos o Compromisso Histórico e o
eurocomunismo de Berlinguer. Agora, temos que aceitar o eixo franco-alemão
diante do qual o PD de Napolitano, Bersani, Letta e por último Renzi
permaneceram ajoelhados, juntamente aos pequenos partidos que se dizem
comunistas.
Nestes últimos anos, a esquerda eurocêntrica fez de tudo para
assumir o poder e ser considerada uma força “populista” capaz de frear e
enjaular nos moldes do sistema neoliberal a autonomia da classe operária, a
rebelião do proletariado juvenil. Quer dizer, a flexibilidade social e a
precariedade no trabalho, bem como outras regras seletivas impostas pelo
mercado.
Por isso, os teóricos da esquerda eurocêntrica, já em 1999,
desqualificavam o programa de Justiça Social de Hugo Chávez, dizendo que era “um
caso utópico do bonapartismo latino”. Algo semelhante foi feito com a
revolução cubana por Giorgio Napolitano em 1979, quando (3) discursava nas
universidades estadunidenses, desqualificando a revolução cubana e seu líder
Fidel Castro, ”um líder de uma ditadura”. De fato não podemos
esquecer que, em 1986, no PCI se consolidava a posição política de Giorgio
Napolitano que sentenciava “plena e leal solidariedade da Itália com os
Estados Unidos e a OTAN”. Não foi por acaso que, muitos anos depois, Henry
Kissinger declarou que Napolitano foi “seu comunista preferido”(4).
Hoje temos o problema dos imigrantes, que na realidade é a nova
escravidão da mão de obra barata. E por isso ninguém raciocina que o verdadeiro
problema não são os imigrantes, mas as oligarquias que governam as sociedades
africanas criadas pelo neocolonialismo nos anos 60, e depois reestruturadas na
década de 90, para servir aos mercados e às centrais do poder neoliberal
europeu e estadunidense. Por isso, para as “excelências” do mercado, o fluxo de
imigrantes se reduz à quantificação de mão de obra africana ou árabe que poderá
ser integrada no mundo do trabalho, para romper a organização de classe dos
sindicatos, além de promover o crescimento da economia invisível (5) e,
logicamente, fechar os olhos diante da multiplicação da dita economia ilegal
(6).
As piores leis que nos últimos 20 anos prejudicaram os
trabalhadores foram preparadas pelos economistas dos partidos da esquerda
reformista e eurocêntrica. O Job Act na Itália e a Loi
du Travail na França foram leis pensadas, propostas e votadas nos
Parlamentos pelos partidos que ainda dizem ser de esquerda: o Partido
Democrático de Renzi, a Confederação Sindical (CGIL) da senhora Susana Camusso
e o Partido Socialista Francês de François Hollande. Um cenário que se torna
ainda mais complicado se lembramos o que aconteceu na Grécia, em 2015, com
Alexis Tsipras e os grupos eurocêntricos do Syriza associados à
socialdemocracia alemã.
Correio da Cidadania: Por
qual motivo a esquerda eurocêntrica, depois de ter inventado o
social-liberalismo para destruir a luta de classe, nas eleições continua a
captar a simpatia e a esperança de amplos setores operários e proletários,
apesar das desilusões com Prodi, D’Alema, Letta e agora com Renzi?
Luciano Vasapollo: Tu falas apenas em
simpatia e esperança. Justamente, não utiliza a palavra militância porque,
hoje, como também nos anos 90, os partidos da esquerda eurocêntrica não
recorrem mais à militância, visto que tudo que estava relacionado com a
ideologia da luta de classe, sobretudo em termos culturais, virou imagem iconográfica.
Um fenômeno que tivemos também na esquerda revolucionária. Imagine que na
década de 90, se alguém em uma assembleia reivindicava a ideologia do
comunismo, logo era etiquetado “stalinista de merda”.
Foi uma época em que os dirigentes de Rifondazione
Comunista reinventavam o pacifismo, para desbotar o histórico
revolucionário do proletariado italiano e, portanto, diluir nesse pacifismo sem
nomes e sem fronteiras todo o potencial revolucionário que havia resistido aos
efeitos negativos dos anos da contrarrevolução teleguiada pela dupla Democracia
Cristã /Partido Comunista de Berlinguer e Napolitano. Além disso, tivemos 20
anos de domínio absoluto da Mediaset, isto é, o poder midiático criado por
Berlusconi que, juntamente aos outros jornais, rádios e televisões conseguiram
reduzir o espírito de luta das massas operárias e proletárias e transformá-lo
em simples simpatia para quem diz que foi um defensor dos oprimidos e em mera
esperança, visto que o povo quer agarrar-se em qualquer coisa para sonhar um
futuro melhor.
Hoje, o PD de Renzi é o principal partido que se contrapõe e
persegue os grupos políticos que procuram organizar o conflito de classe,
transformando o território e a fábrica em novas áreas de luta. De fato, durante
os governos da direita (Forza Itália, de Berlusconi, e La Lega, de Bossi),
havia uma intensa repressão policial e jurídica com centenas e centenas de
denúncias e prisões por resistência em público, ocupação, agressão etc. Hoje, o
governo do PD decidiu inverter a metodologia da repressão. Assim, no lugar de
usar os carabineiros recorrem aos oficiais dos Tribunais para selar as cozinhas
e os bares dos centros sociais, que são entidades autogeridas pelos jovens.
Intervêm nos municípios pedindo para cortar os contratos com as cooperativas ou
as associações ligadas ao movimento popular e suas organizações de esquerda
revolucionária.
Enfim, entenderam que a esquerda alternativa, a esquerda
revolucionária e o movimento popular, tinham criado um espaço próprio que, além
de dar trabalho, desenvolve as atividades políticas nos territórios e cria
novos vínculos de militância com os moradores dos bairros, em particular os
jovens proletários e os imigrantes. Por isso começaram a desmontar, em silêncio
e com a cumplicidade da mídia, os principais organismos populares, isto é, os
centros sociais.
Correio da Cidadania: Você
e a Rete dei Comunisti publicaram vários livros sobre o
“Eurochavismo”. Afinal, é simples emulação de Hugo Chávez ou é algo de mais
profundo que em termos ideológicos trabalha os conceitos de Justiça Social do
chavismo, o Homem Novo de Guevara e o Intelectual Orgânico de Gramsci?
Luciano Vasapollo: Quando publicamos
livros, assinamos artigos ou concedemos entrevistas, fazendo comparações com as
experiências bolivarianas ou da Cuba socialista tentamos sempre transmitir aos
camaradas que leem os elementos da teoria do conflito de classe vivenciados
naqueles países. Portanto, não se trata de uma emulação pura e simples do
Comandante Hugo Chávez. A revolução bolivariana é autenticamente venezuelana e
não pode ser exportada enquanto tal. É suficiente analisar a evolução dos
países do ALBA para ver que a experiência bolivariana é, apenas, uma referência
histórica e ideológica porque o restante é devidamente boliviano, equatoriano,
sandinista e cubano.
O conceito a que chamamos eurochavismo é politicamente útil para
identificar uma série de elementos políticos e ideológicos que para nós
marxistas e comunistas europeus se apresentam como uma novidade.
Elementos que se encontram na teoria de Martí, de Bolívar, de
Guevara, de Fidel e também em Gramsci. Por isso, são elementos necessários para
atualizar o universo de luta contra o imperialismo, contra o capitalismo e em
favor do socialismo. Por exemplo, a batalha do governo chavista para defender a
soberania nacional e tudo o que ela representa para o povo venezuelano se
contrapor diretamente à estratégia do imperialismo, na realidade é o único
exemplo vivente e vitorioso que temos nos últimos quinze anos.
Além disso, a maneira como o governo chavista introduziu na
sociedade venezuelana a luta contra o neoliberalismo econômico e contra a
exploração dos trabalhadores permite avaliar se a alternativa a isso,
representada pelas novas formas de organizar as cooperativas e as empresas
socialistas, resultam elementos complementares entre o nosso sistema e o que
foi feito na Venezuela. Isto não significa copiar, mas, sim, entender se também
aqui no meio da Europa é possível introduzir e desenvolver novos processos de
luta anticapitalista.
Por outro lado, o eurochavismo pode ser visto como uma nova
concepção revolucionária com a qual vamos redefinir e reorganizar a militância
e suas relações com a classe que trabalha, que estuda, que é explorada ou
marginalizada. Um contexto que obriga esta nova militância a fazer frente aos
efeitos da crise do sistema capitalista moderno, desenvolvendo uma série de
lutas que, lentamente, constroem as novas realidades do contrapoder. Um
contexto onde nasce o que Guevara chamava de Homem Novo e o que Gramsci
identificava com a afirmação do Intelectual Orgânico.
Na prática, o eurochavismo é a nova conceituação do ser
revolucionário que se afirma nas lutas sociais e classistas. É uma nova forma
de fazer política no seio das novas realidades de nossa sociedade, sem ser uma
mera utopia. Portanto, representa a realidade dinâmica do nosso presente no
seio das problemáticas provocadas pelos conflitos de classe e consequentemente
constrói o futuro com um olhar no passado e no processo real dos acontecimentos
históricos. A este propósito quero lembrar que se na Itália a editora do PCI, Editori
Riuniti, limitava o estudo de Gramsci a poucos livros, ideologicamente
inócuos para o reformismo eurocêntrico, a editora Feltrinelli publicava
somente os textos épicos de Guevara.
Enquanto isso, na América Latina estes dois autores foram
analisados e estudados profundamente, criando assim um vasto interesse sobre a
práxis revolucionária. De fato, não foi casual que Hugo Chávez, em suas
reflexões, trabalhou os conceitos do guevarismo e, sobretudo, os de Gramsci,
com os quais vai construir uma nova metodologia de análise revolucionária, que
partindo da reconquista da soberania revolucionária popular, define os aspectos
para a construção da nova sociedade, até a definição dos direitos das minorias,
enquanto sujeitos da classe.
Quero concluir lembrando que as dinâmicas do materialismo
histórico, na real afirmação dos conflitos de classe, determinarão os caminhos
dos acontecimentos históricos, como sempre afirmava a querida Margherita Hack,
secundo a qual “muitas vezes, hoje, é muito fácil conseguir tudo e fazer com
que se torne uma verdadeira paixão”.
NOTAS
1) Caracazo: foi a
grande revolta popular que explodiu em 28 de fevereiro 1998 e se concluiu em 5
de março, quando o governo de “centro-esquerda” reprimiu matando cerca de 3.000
manifestantes, para depois dizer que os mortos foram apenas 110.
2) USL: União
Socialista dos Trabalhadores, é um grupinho minoritário da extrema esquerda
venezuelana, que acha ser o único “super revolucionário” do planeta Terra.
3) Giorgio Napolitano:
em 1978, o ministro da Democracia Cristã, Giulio Andreotti, ajudou o
responsável da política econômica do PCI, Giorgio Napolitano, a obter o visto
dos EUA, para depois, em 1979, realizar as conferências nas Universidades de
Harvard, Yale, Chicago, Berkeley, Johns Hopkins-SAIS e CSIS de Washington.
4) Kissinger: Em 2001,
o jornal “Il Corriere della Será”, revelou o relacionamento entre Napolitano e
Kissinger no artigo “E Kissinger incontra il suo comunista preferito”. Corriere
della Será de 09/10/2001 http://archiviostorico.corriere.it/2001/settembre
5) Economia invisível:
são os contratos em “negro”, os ritmos de trabalhos alterados, a ausência de
garantias e medidas de segurança no trabalho. Um cenário que permite a produção
de mercadorias com normas e nomes falsificados ou com matérias primas adulteradas.
6) Economia ilegal: é a
organização de circuitos para o transporte e a venda de drogas, de armas e de
todos os produtos que se relacionam com o contrabando, juntamente a
prostituição feminina e masculina e tudo que provém das atividades
ilegais.
Luciano Vasapollo: 61 anos, é professor
de Análise de Dados de Economia Aplicada na Universidade de Roma “La Sapienza”,
onde desempenha a função de Delegado do Reitor para Relações Internacionais com
os países da ALBA e da América Latina. É professor em Cuba nas universidade de
La Habana e Piñar del Río.
Grande estudioso do marxismo, juntamente a Atílio Boron (Argentina)
Ricardo Antunes (Brasil) e James Petras (EUA), é considerado um dos poucos
teóricos que enfrentaram o problema da modernidade revolucionária do marxismo. Por isso, os quatro
foram convidados por Fidel Castro e Hugo Chávez para identificar o potencial
político da ALBA.
Escreveu 18 livros,
sendo coautor de outros 32. Na juventude foi militante do grupo Potere Operaio,
em Roma. Em 1998, foi um dos fundadores da organização política e
revolucionária Rete dei Comunisti. Depois integrou o movimento participando em
todas as lutas dos sindicatos de base, contribuindo em 2010 na fundação da
União Sindical de Base (USB), a confederação sindical independente, filiada na
FSM.
Achille
Lollo é jornalista italiano do jornal “Contropiano”, editor do programa TV
“Contrappunto Internazionale”, colabora com a revista “Nuestra América” e é
colunista internacional do “Correio da Cidadania”.
Fonte: Correio da Cidadania

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