sábado, 27 de agosto de 2016

Fidel, Bolivariano e Martiano

ESCRITO POR ÁNGEL GUERRA CABRERA
FONTE: LA JORNADA, MEXICO

Neste sábado, 13 de agosto, Fidel Alejandro Castro Ruz (Birán, Holguín, Cuba, 1926) fará 90 anos. É impossível nesse espaço enumerar a diversidade de áreas e importantes epopeias revolucionárias das quais ele participou. Por isso, longe de querer esgotar o tema, me concentrarei no seu pensamento latino-americanista, sua irredutível solidariedade com a libertação da América Latina e do Caribe e com a conquista de sua unidade e integração.

Fidel Castro, no início dos anos 1960Fidel Castro, no início dos anos 1960  Aos 21 anos, Fidel, membro do Comitê Universitário para A Libertação de São Domingos, participou da frustrada expedição anti Trujillo, de Cayo Confines (1947). Um ano depois, no "bogotazo", colocou-se, armas nas mãos, ao lado dos seguidores de Jorge Eliecer Gaitán. Estava, na época, na capital colombiana organizando um congresso continental de estudantes, que se pronunciaria pela independência de Porto Rico, a devolução ao Panamá pelos Estados Unidos da área do Canal, a reintegração das Ilhas Malvinas à Argentina e contra as ditaduras militares ao sul do Rio Bravo, especialmente a de Trujillo na República Dominicana. O jovem cubano havia conquistado a liderança do comitê organizador da reunião de estudantes, que se colocava na direção oposta à da 9ª Conferência Pan-americana, que acabaria na criação da nefasta Organização dos Estados Americanos (OEA) e adotaria instrumentos de subordinação ao vizinho do norte, contando, entre outras coisas, com a cumplicidade incondicional dos representantes dos governos ditatoriais que havia imposto na região.

Fato simbólico, a OEA, sob enormes pressões e outras manhas de Washington, expulsou de seu seio a Cuba revolucionária (Punta del Este, Uruguai, 1962) e, ao passo de algumas décadas, o clamor unânime dos governos da região (San Pedro Sula, Honduras, 2009), acabou revertendo essa medida.

Havana reiterou que não regressará à OEA – será um despropósito –, mas isso não nega a grande carga política do reconhecimento e da dignidade de Cuba, liderada por Fidel, embutida naquela decisão.

Foi precisamente a exclusão da ilha do organismo que deu condições para que o então primeiro-ministro submetesse a Segunda Declaração de Havana (1962) para a aprovação – clamorosa – da Assembleia Geral Nacional do Povo de Cuba. Um documento essencial na história de nossos povos, que dá continuidade à Carta da Jamaica (1815), de Simón Bolívar e ao ensaio Nuestra América (1891), de José Martí.

Nela está postulado: "Nenhum povo da América Latina é fraco, porque faz parte de uma família de 200 milhões de irmãos que padecem das mesmas misérias, abrigam os mesmos sentimentos, têm o mesmo inimigo, sonham todos com um melhor destino e contam com a solidariedade de todos os homens e mulheres honrados do mundo inteiro".

Discípulo dedicado e consequente de Bolívar e Martí, esse conceito de fraternidade e união da nossa América formou parte do núcleo principal do pensamento político de Fidel desde os dias ancestrais de Cayo Confites e o bogotaço.

A revolução cubana, cuja profunda repercussão planetária é indiscutível, desencadeou um ciclo de lutas populares, revolucionárias e pela unidade e integração da América Latina e do Caribe que ainda não se concluiu, tampouco se concluirá no futuro próximo. "Quando falamos de humanidade pensamos, em primeiro lugar, nos nossos irmãos latino-americanos e caribenhos, aos que não esqueceremos nunca e, depois, o resto dessa humanidade que habita nosso planeta", disse o comandante. Inspirada por ele, Cuba foi sempre solidária com as lutas de todos os povos da Terra e, em particular, com as de nossa região.

Foi nela que apoiou as lutas das massas e, quando foi preciso, deu, àqueles que escolheram a via armada, toda a sua solidariedade e o sangue de alguns de seus melhores filhos. Estendeu sua mão amiga aos militares patriotas, desde Turcios Lima em Guatemala, passando por Caamaño na resistência dominicana contra a invasão ianque ao governo nacionalista de Velasco Alvarado no Peru e à luta dos panamenhos, com Omar Torrijos à frente, pela devolução do canal.

Desafiando o plano descomunal de Washington para derrubá-lo, Fidel e toda Cuba forneceram um apoio extraordinário para o governo da Unidade Popular do presidente Salvador Allende, amigo sincero, na primeira experiência de libertação nacional e socialista pela via política em nossa América.

Daquela experiência, Fidel concluiria: Nem povo sem armas, nem armas sem povo.

Primeiro, o sábio escritor e político dominicano Juan Bosch nos disse: "a América Latina produziu três gênios políticos. Toussaint Louverture, Simón Bolívar e Fidel Castro, e devo dizer que deu muito... Humboldt havia previsto parte disso quando... depois de um giro pela América, comentou que os dois lugares mais politizados eram Caracas e Havana, ou seja, Venezuela e Cuba”.

Multidão recebe Fidel Castro nas ruas de Nova York em 1959  Louverture, obscurecido e diminuído em sua grandeza pela cultura hegemônica, que nos oferece a Bolívar como um sonhador cujas ideias são muito formosas, mas inalcançáveis. Fidel, a quem já quase ninguém se atreve a negar-lhe um lugar na história, com maiúscula, mas a mesma esquerda, que o reconhece explicitamente como o grande estrategista da Revolução Cubana, com frequência não se dá conta do óbvio: sua condição de teórico relevante da Revolução – e da reforma social – nos países da América Latina e do Terceiro Mundo.

Menciono revolução e reforma, deliberadamente, porque no pensamento de Martí – de quem me surpreende que Bosch não o inclua em sua seleta galeria de gênios políticos – e no de Fidel, a reforma pode conduzir à revolução mais radical em seu momento, mediante a solução de tarefas anticoloniais relativas à independência, à soberania e à libertação nacional, imprescindíveis em nossa região e em muitos países da África e da Ásia, sem que forçosamente seja preciso defende de entrada o assalto ao céu.

O fato de que Cuba atravessara sem solução de continuidade de impelir aquelas tarefas ao socialismo, não significa que em todos os casos deva ser assim. Não devemos perder nunca de vista o objetivo socialista, mas tampouco desperdiçar toda possibilidade de avançar rumo à libertação nacional e à descolonização.

Fidel, para somente colocar outro exemplo transcendental e muito vigente, aportou à teoria revolucionária universal, como expõe ao fazer a definição de povo no livro A História me Absolverá (1953), logo complementada na Segunda Declaração de Havana (1962), a concepção de um sujeito muito amplo da revolução ou da mudança social, que reconhece as condições revolucionárias dos destacamentos operários minoritários da América Latina e do Caribe, mas ao mesmo tempo dá um papel fundamental às lutas dos indígenas, dos negros e dos camponeses. Reconhece um papel orientador aos intelectuais revolucionários.

Não é somente o proletariado, como conceberam Marx e Engels na Europa do século 19; se estende a todas e todos os explorados e excluídos – incluindo aos desempregados e, de modo enfático, às mulheres – assim como aos militares patriotas, a setores das classes médias, que por razões patrióticas e morais podem se tornar sujeitos transformadores, em um região onde a exploração capitalista não pode ser liquidada sem suprimir quase simultaneamente, ou sucessivamente, o humilhante jugo imperialista. Na História... é onde pela primeira vez o líder da revolução cubana argumenta por que Martí é o autor intelectual do ataque ao quartel Moncada.

Anos depois do vaticínio sobre Fidel escrito por Juan Bosch, outro grande latino-americano, Hugo Chávez, autêntico Bolívar redivivo, cuja mesma trajetória, junto a outros importantes acontecimentos na nossa América, estavam contribuindo já de modo superlativo para demonstrar a certeza dos ancestrais vaticínios do guia da revolução cubana, recordaria: "Fidel dizia – no fim dos anos 1980 – que uma nova onda revolucionária, de mudanças, uma nova onda de povos, se desataria no continente quando parecia – como alguns inconsequentes assinalavam – que havíamos chegado ao fim da história, que a história estava petrificada e que não havia mais caminhos nem alternativas...

A alguns meses do desaparecimento do autor dessas palavras, Fidel diria, em uma frase para entrar na História: "Hoje guardo uma recordação especial do melhor amigo que tive em meus anos de político ativo – que muito humilde e pobre foi forjado no Exército Bolivariano de Venezuela –, Hugo Chávez Frías".

Fidel e Chávez multiplicaram, mediante programas sociais incomuns as energias revolucionárias e os recursos humanos e materiais de seus dois povos e do grande movimento de massas contra o neoliberalismo gestado na nossa América então, que ainda não amainou. Mas, disso, falarei no próximo e último texto.

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