sexta-feira, 29 de julho de 2016

Uma esquerda latino-americana sem ecologia cairá de novo na crise dos progressismos

ESCRITO POR EDUARDO GUDYNAS    
QUARTA, 27 DE JULHO DE 2016

Comecemos colocando com clareza algumas questões recentes nas relações entre a esquerda e o meio ambiente na América Latina: os progressismos governantes atualmente são regimes políticos distintos das esquerdas que lhes deram origem. Nessa diferenciação, a incapacidade de abordar a temática ambiental cumpriu alguns papeis-chaves. Assim, qualquer renovação da esquerda só é possível ao incorporar um olhar ecológico. Caso contrário, a esquerda voltará a cair em meros progressismos.

As esquerdas latino-americanas, pelo menos desde a década de 70, tiveram enormes dificuldades em aceitar e abordar a problemática ambiental. Uns viam esses temas como excentricidades burguesas importadas do norte; outros consideravam que entorpeceriam planos de industrialização; e, finalmente, estavam os que entendiam que na militância, por exemplo, nas fábricas, era inviável atender a questões ecológicas.

Mas também existiam alguns grupos que abordavam essas questões por diversas razões. Uns respondiam a demandas cidadãs. Por exemplo: as que partiam de organizações camponesas que denunciavam tanto injustiças econômicas como a contaminação de suas terras e águas. Outros entendiam que uma crítica radical ao capitalismo era incompleta se não fosse considerado o papel subordinado da América Latina como provedora de matérias-primas (ou seja, recursos naturais). Podem se somar outras questões, mas deve-se reconhecer que todos eles desempenhavam papeis secundários no seio da maior parte das organizações políticas de esquerda.

As coisas não eram melhores em nível internacional. Fosse em agrupamentos partidários ou na reflexão teórica, a questão ambiental era minimizada ou marginalizada. Houve esforços intensos para jogá-la debaixo dos tapetes. Por exemplo, um marxismo de cunho ecológico (como é a proposta de John Bellamy Foster) ou a insistência em um ecossocialismo (apontado por Michael Löwy) tiveram impactos restritos.

Uma mudança substancial ocorreu no final dos anos 90 e princípios da década de 2000. Boa parte do ambientalismo politicamente militante colaborou, apoiou ou participou diretamente de conglomerados das esquerdas mais amplas e plurais que lutavam contra governos conservadores e posturas neoliberais. Em vários países esses grupos ganharam eleições. Houve um aporte ambientalista nas vitórias da Alianza Pais no Equador, do PT e seus aliados no Brasil, do MAS na Bolívia e da Frente Ampla no Uruguai. Em menor medida, na Venezuela.

Nos planos daquelas esquerdas se incorporavam temas ambientais, em vários casos com muita sofisticação ao propor mudanças radicais nas estratégias de desenvolvimento, ordenamento territorial ou manejo de impactos ambientais. Uns quantos ambientalistas entraram nesses novos governos e desde então se lançaram algumas iniciativas dignas de nota.

O caso mais destacado ocorreu no Equador, onde os militantes verdes colheram algumas conquistas notáveis. Foram essenciais em instalar, por exemplo, a proposta de uma moratória petroleira na Amazônia, não apenas como defesa de sua biodiversidade, mas também como um aporte para a mudança da matriz energética. Eles também representaram um apoio chave no reconhecimento dos Direitos da Natureza na nova Constituição equatoriana, transformando-a na mais avançada do mundo nessa matéria. A esquerda dos países do Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai) não ponderou como devia a questão das inovações ambientais do primeiro governo de Rafael Correa.

Mas o problema é que essa relação entre os novos governos e a temática ambiental começou a crepitar. Esses administradores optaram por estratégias de desenvolvimento onde se priorizavam a metas econômicas, às custas de altos impactos ambientais. Suas expressões mais claras foram as monoculturas, a mineração e a exploração petroleira. Foi gerada uma relação perversa, já que à medida que mais se aprofunda esse perfil extrativista, menos podem ser atendidas as questões ambientais, e mais protestos e resistências cidadãs se acumulam. Muitos ambientalistas que estavam dentro dos governos se afastaram e os que permaneceram se desprenderam de seus compromissos com a natureza. Algo similar ocorreu em outras áreas, especialmente nas políticas sociais. É desta maneira que estava em marcha a divergência entre as esquerdas plurais e abertas iniciais e um novo estilo político, o chamado progressismo.

A maturação no sentido do progressismo ocorreu em todos os países. Apesar de que em alguns casos se citava Marx ou Lênin, em todos se acentuou a subordinação aos mercados globais como provedores de matérias-primas, os planos de ataque à pobreza se enforcaram, sobretudo em pacotes de assistências monetizadas, e se romperam as relações com muitos movimentos sociais. Esse progressismo não é neoliberal, mas está claro que abandonou os compromissos daquelas esquerdas iniciais em questões como a radicalização da democracia, a ampliação das dimensões da justiça e a proteção do patrimônio ecológico.

Hoje se admite que esse progressismo está em crise, como é evidente no Brasil, e inclusive perdeu eleições nacionais (Argentina) e regionais (Bolívia). Mas passou despercebido para alguns que nessa diferenciação entre esquerdas e progressismos a temática ambiental jogou um papel-chave. O progressismo aceitou os impactos ambientais dos extrativismos, já que priorizou como opção econômica a exportação de matérias-primas. Por sua vez, à medida que escalava a resistência cidadã a tais empreendimentos, os regimes passaram a ignorar, rechaçar e até criminalizar as organizações da sociedade que punham em evidência os impactos negativos destes extrativismos.

Há muita pouca da sensibilidade social de esquerda em um governo que impõe a comunidades camponesas um projeto de megamineiração ou force a entrada de petroleiras dentro de terras indígenas, ou ameace exilar membros de ONGs que alertam sobre esses impactos.

Os progressismos, à medida que mais se distanciam da esquerda, mais se fundem em contradições teóricas e práticas. Não se duvidou, assim, em apelar a misturas bizarras entre citações marxistas e denúncias ao imperialismo, junto de acordos comerciais com empresas transnacionais que levavam seus recursos naturais e humanos. Invocavam o povo, mas não hesitaram em criminalizar os protestos sociais e inclusive em alguns casos passaram à repressão aberta.

A lição destas experiências é que a ausência de uma dimensão ambiental na esquerda, na América Latina e neste momento histórico, não constitui um pequeno déficit. Pelo contrário, é um dos fatores que explica porque a esquerda perdeu sua essência para transformar-se em meros progressismos.

No entanto, uma esquerda própria do nosso continente deve abordar as questões ambientais porque a América Latina se caracteriza por uma enorme riqueza ecológica. Aqui se encontram as maiores reservas de áreas naturais e as maiores disponibilidades de solos agrícolas. O uso que se faz desse patrimônio ambiental não só envolve as necessidades de nossa população, mas nutre múltiplas cadeias produtivas globais com enormes repercussões geopolíticas.

Ademais, uma esquerda do século 21 deve ser ecológica porque a atual evidência indica, sem lugar a dúvidas, que estamos superexplorando esses recursos, que as capacidades do planeta para lidar com os impactos ambientais foram excedidas e problemas planetários como as mudanças climáticas já estão se manifestando. Portanto, pensar uma esquerda sem ecologia seria uma aposta desconectada da América Latina e da conjuntura atual.

Finalmente, o compromisso desta nova esquerda está na justiça social e ambiental, onde uma não pode ser alcançada sem a outra. Isto permite um reencontro com muitos movimentos sociais, um redescobrimento dos problemas reais das estratégias de desenvolvimento atuais e um chamado à renovação teórica. É por isso que nessa íntima associação entre a justiça social e ambiental estão os maiores desafios para a renovação das esquerdas na América Latina.

Eduardo Gudynas é analista da CLAES (Centro Latino Americano de Ecologia Social) em Montevidéu.
Traduzido por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

domingo, 10 de julho de 2016

Por uma esquerda que conheça a sua história e fundamentos

ESCRITO POR ELSON DE MELO
DOM. 10 DE JULHO DE 2016
E-mail: elsonpmelo@gmail.com

Passou a ser comum no âmbito da esquerda, ouvir e ver pessoas que se apresentam como socialistas fazerem afirmações e até defesa de “um novo socialismo, um outro socialismo é possível, por uma nova esquerda...”. De onde vem esses argumentos? Qual a base cientifica e prática que os leva a proferirem esses jargões? De onde vem e para ode vão esses propagandistas do pensamento eclético que sempre sustentou o liberalismo ao longo da história? O certo é, que, a maioria desses confusos esquerdistas, ou não conhecem, ou negam deliberadamente a história da esquerda socialista no mundo, na verdade, são vendedores de concepções liberais tingidas de socialistas.

Não e de agora que esses ativistas se esquivam de assumir o comunismo como forma de sociedade onde os meios de produção são coletivos, e, por isso, ignoram a base cientifica do socialismo e renegam ao esquecimento a teoria marxista como método dialético de transformação social e econômico. A luz da história, essa batalha teórica no âmbito da esquerda socialista, vem de longe, parte por avaliações equivocadas da conjuntura, parte pelo proposito de apenas reformar o capital e manter os privilégios dos teóricos revisionista e oportunista. A mais conhecida nitidez dessa disputa, foram a concepção dos mencheviques contra os bolcheviques no seio do Partido Operário Social Democrata Russo – POSDR.

O deslocamento teórico de um projeto pratico de sociedade socialista, para diversas outra nomenclatura, sem teoria revolucionária, desorienta parte da militância da esquerda socialista, e os transformam, em apenas ativistas reformistas, dogmáticos e imediatistas. O mais inconsequente desse proposito, está no fato, de essas tendências reformistas, valerem-se de uma ótica baseada em um esquerdismo ultrarradical, com leitura de conjunturas pré-revolucionária subjetiva e sem nenhum compromisso pratico de transformação social em direção ao socialismo.

A tradição dos partidos da esquerda socialista manda que a sua organização, seja uma escola de formação ideológica, filosófico e política, deve o mesmo adotar uma pedagogia capaz de dotar seus componentes de conhecimento sobre as leis do desenvolvimento do capitalismo e as vias de chegada ao socialismo e ao comunismo, onde os militantes devem aprender que a luta é de classe, que a correlação de força se dá na relação capital e trabalho, ou seja no modo de produção da sociedade capitalista.

O processo revolucionário não é um proposito sem objetivos, é em função dos objetivos que se organiza um partido político, cuja função é dinamizar a luta política e disputar os espaços institucionais no âmbito do estado burguês. Compreender essa dinâmica é fundamental para que cada militante, entenda qual é a sua vocação e o papel que melhor pode desempenhar para contribuir e alcançar esses objetivos.

No Brasil e no mundo, estamos vendo uma grande ofensiva ideológica do capital, as guerras que provocam milhões de refugiados em todo mundo, usa o fundamentalismo como seu principal pretexto, para que o imperialismo, se aproprie das riquezas naturais dos territórios em litígio. Entender essa realidade, só será possível, se pelo menos a vanguarda dirigente dos partidos socialistas e comunistas, forem capazes de retomar o processo histórico através da leitura de como acontece a exploração do homem pelo capital e a luta inconciliável pelo controle dos meios de produção (terra, maquinas...).

O Manifesto do Partido Comunista nos ensina que:
A história de todas as sociedades até o presente é a história das lutas de classes.
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, membro de corporação e ofícial-artesão, em síntese, opressores e oprimidos estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora dissimulada, ora aberta, que a cada vez terminava com uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou com a derrocada comum das classes em luta. ”.

Os ecléticos, fazem questão de passar ao lado dessa história, tentam esconder a luta de classe entre explorados e exploradores, para tanto, os ecléticos exploram fragmentos de teses e documentos para compor um pensamento sem objetivos claros, mas pintados de um esquerdismo voluntarioso e desprovido de estudo da realidade objetiva e de um projeto de superação do capital e a conquista da sociedade socialista e comunista.

Com essas teorias compostas de fragmentos, eles conseguem confundir parte da vanguarda que reivindica a luta pelo socialismo, são diversionistas e burocráticos ao extremo. Assim, os partidos socialistas, dedicam um tempo precioso em lutas internas, enquanto o conservadorismo, amplia sua hegemonia, impondo sua ideologia e prolongando a exploração capitalista.

É urgente que a esquerda socialista, reassuma seu papel na história, tendo como prioridade o aprofundamento do conhecimento das relações de produção e os caminhos para o socialismo e o comunismo.  Para tanto, a educação política a luz do materialismo histórico, se faz necessário. Uma esquerda socialista consequente, não pode prescindir dos estudos marxista-leninista.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Pela utopia de uma esquerda que dialogue com a sociedade

ESCRITO POR MARCELO CASTAÑEDA
QUI. 30 DE JUNHO DE 2016

A “esquerda”, esse campo imaginário que deve ser dito no plural pela diversidade de seus elementos componentes, não cansa de brigar entre si, a ponto de ter desaprendido a dialogar com corações e mentes em prol das mudanças sociais que afetem a todos. Nesse movimento não consegue mais sequer se contrapor ao processo de direitização que toma conta do mundo em que vivemos.

A questão que coloco vai além de entender se é a divisão da(s) esquerda(s) que viabiliza o avanço da direita (ou do conservadorismo em suas vertentes governamentais e comportamentais que se tecem no terreno das sociedades contemporâneas). Obviamente, não é neste curto espaço e a partir do meu argumento que se resolverá o impasse. Aqui a pretensão é tão somente sinalizar um processo que me parece evidente: nós, da(s) esquerda(s), desaprendemos a dialogar com a sociedade. E por diálogo quero destacar a capacidade de ouvir o outro sem a pretensão de convencer a arrebanhar.

Quando falo da sociedade, esse ente abstrato, não me refiro ao adorador de Bolsonaro ou Le Pen, mas aquela pessoa que está no trem da Central do Brasil voltando para a Baixada depois de um dia de trabalho e vai se informar jantando, já bem cansado, com o Jornal Nacional, ou nem isso, pois o cansaço pode o levar para longe até mesmo das notícias.

Estou pintando um cenário dramático, pois me parece ser disso que precisamos tratar. No tempo pós-junho de 2013 que vivemos, enxergamos concretamente os limites que nos tolhem a capacidade de mobilizar as pessoas para se manifestarem por causas que lhes afetem. Nas redes sociais, pessoas próximas escrevem “vamos para a rua” como se fosse fácil empreender uma mobilização nos dias de hoje, que posso caracterizar como “precariedade da maioria”. Não se repete um fenômeno como junho de 2013, mas podemos imprimir novas dinâmicas de mobilização, como mostram os estudantes secundaristas com sucesso, mesmo sem tanta visibilidade para suas conquistas. Eles nos mostram que não precisa ser possível, basta fazer.

Esses novos personagens que entram em cena, para lembrar o saudoso Eder Sader dos anos 1980, vêm nos mostrar ser possível que as lutas se teçam para além da cacofonia esquizofrênica entre o apoio e a contestação ao golpe que tirou Dilma e o PT do governo federal. Esse golpe está em curso e, apesar do processo de resistência que se configura, não parece que terá como desfecho a volta de Dilma.

É preciso resistir ao que o governo de Temer com tucanos pode nos trazer como retrocessos, em especial na questão trabalhista, previdenciária ou mesmo com privatizações. Mas é necessário enxergar que o próprio PT foi nesta direção, agora intensificada com Temer.

E por que destaco o papel do PT na fragmentação e dispersão da(s) esquerda(s) no Brasil? Não se trata de qualquer fixação no partido, mas tão somente de deixar claro que o próprio partido assume que enfraqueceu a esquerda em resolução recente do Diretório Nacional (que analisei aqui: https://goo.gl/iLRdrb). No fundo, precisamos nos desprender do PT e do seu projeto de poder (Lula-2018, indo direto ao ponto) para nos concentrar em como dialogar múltiplas pautas com a sociedade de uma forma humilde e não crente-missionária ou proselitista. Eis o desafio.

As pessoas que não estão engajadas em lutas que não sejam referentes à própria sobrevivência não estão querendo ser convencidas do que é melhor para elas e isso pode servir de fio da meada para explicar porque a(s) esquerda(s) se tornam cada vez mais gueto, e por isso briga cada vez mais entre seus pares (ainda que estes possam ser bem desiguais e assimétricos). O drama é precisarmos de um tempo que não teremos para nos organizar para além dos sujeitos tradicionais (sindicatos, partidos) para dar conta do que temos pela frente.

Neste sentido, não vou concluir. Vou encerrar abrindo questões: como dar vazão a sujeitos políticos como os estudantes secundaristas, que no Rio de Janeiro eram tidos como despolitizados, em especial se olharmos para o fato de a maioria das ocupações se dar em colégios da periferia, do subúrbio e do interior? E o que dizer dos favelados cariocas que resistem bravamente e se organizam contra a violência policial, rejeitando cada vez mais as instituições que seriam canalizadoras dessa revolta, pois são vistas com desconfiança por colocarem seus fins acima das demandas concretas por que passam? Onde está a esquerda nessas lutas que, a meu ver, são aquilo que traz novo vigor e possibilidades de renovação e abertura a novas conexões, quando esta esquerda se mostra enredada em processos como plenárias e reuniões de cúpula?

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do Programa de Pós-Gradução da UERJ.

 

Pela utopia de uma esquerda que dialogue com a sociedade

ESCRITO POR MARCELO CASTAÑDA
QUI. 30 DE JUNHO DE 2016

A “esquerda”, esse campo imaginário que deve ser dito no plural pela diversidade de seus elementos componentes, não cansa de brigar entre si, a ponto de ter desaprendido a dialogar com corações e mentes em prol das mudanças sociais que afetem a todos. Nesse movimento não consegue mais sequer se contrapor ao processo de direitização que toma conta do mundo em que vivemos.

A questão que coloco vai além de entender se é a divisão da(s) esquerda(s) que viabiliza o avanço da direita (ou do conservadorismo em suas vertentes governamentais e comportamentais que se tecem no terreno das sociedades contemporâneas). Obviamente, não é neste curto espaço e a partir do meu argumento que se resolverá o impasse. Aqui a pretensão é tão somente sinalizar um processo que me parece evidente: nós, da(s) esquerda(s), desaprendemos a dialogar com a sociedade. E por diálogo quero destacar a capacidade de ouvir o outro sem a pretensão de convencer a arrebanhar.

Quando falo da sociedade, esse ente abstrato, não me refiro ao adorador de Bolsonaro ou Le Pen, mas aquela pessoa que está no trem da Central do Brasil voltando para a Baixada depois de um dia de trabalho e vai se informar jantando, já bem cansado, com o Jornal Nacional, ou nem isso, pois o cansaço pode o levar para longe até mesmo das notícias.

Estou pintando um cenário dramático, pois me parece ser disso que precisamos tratar. No tempo pós-junho de 2013 que vivemos, enxergamos concretamente os limites que nos tolhem a capacidade de mobilizar as pessoas para se manifestarem por causas que lhes afetem. Nas redes sociais, pessoas próximas escrevem “vamos para a rua” como se fosse fácil empreender uma mobilização nos dias de hoje, que posso caracterizar como “precariedade da maioria”. Não se repete um fenômeno como junho de 2013, mas podemos imprimir novas dinâmicas de mobilização, como mostram os estudantes secundaristas com sucesso, mesmo sem tanta visibilidade para suas conquistas. Eles nos mostram que não precisa ser possível, basta fazer.

Esses novos personagens que entram em cena, para lembrar o saudoso Eder Sader dos anos 1980, vêm nos mostrar ser possível que as lutas se teçam para além da cacofonia esquizofrênica entre o apoio e a contestação ao golpe que tirou Dilma e o PT do governo federal. Esse golpe está em curso e, apesar do processo de resistência que se configura, não parece que terá como desfecho a volta de Dilma.

É preciso resistir ao que o governo de Temer com tucanos pode nos trazer como retrocessos, em especial na questão trabalhista, previdenciária ou mesmo com privatizações. Mas é necessário enxergar que o próprio PT foi nesta direção, agora intensificada com Temer.

E por que destaco o papel do PT na fragmentação e dispersão da(s) esquerda(s) no Brasil? Não se trata de qualquer fixação no partido, mas tão somente de deixar claro que o próprio partido assume que enfraqueceu a esquerda em resolução recente do Diretório Nacional (que analisei aqui: https://goo.gl/iLRdrb. No fundo, precisamos nos desprender do PT e do seu projeto de poder (Lula-2018, indo direto ao ponto) para nos concentrar em como dialogar múltiplas pautas com a sociedade de uma forma humilde e não crente-missionária ou proselitista. Eis o desafio.

As pessoas que não estão engajadas em lutas que não sejam referentes à própria sobrevivência não estão querendo ser convencidas do que é melhor para elas e isso pode servir de fio da meada para explicar porque a(s) esquerda(s) se tornam cada vez mais gueto, e por isso briga cada vez mais entre seus pares (ainda que estes possam ser bem desiguais e assimétricos). O drama é precisarmos de um tempo que não teremos para nos organizar para além dos sujeitos tradicionais (sindicatos, partidos) para dar conta do que temos pela frente.

Neste sentido, não vou concluir. Vou encerrar abrindo questões: como dar vazão a sujeitos políticos como os estudantes secundaristas, que no Rio de Janeiro eram tidos como despolitizados, em especial se olharmos para o fato de a maioria das ocupações se dar em colégios da periferia, do subúrbio e do interior? E o que dizer dos favelados cariocas que resistem bravamente e se organizam contra a violência policial, rejeitando cada vez mais as instituições que seriam canalizadoras dessa revolta, pois são vistas com desconfiança por colocarem seus fins acima das demandas concretas por que passam? Onde está a esquerda nessas lutas que, a meu ver, são aquilo que traz novo vigor e possibilidades de renovação e abertura a novas conexões, quando esta esquerda se mostra enredada em processos como plenárias e reuniões de cúpula?

Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador do Programa de Pós-Gradução da UERJ.