terça-feira, 20 de novembro de 2012

Conjuntura e projetos


ESCRITO POR WLADIMIR POMAR       

Há algumas análises sobre a presente conjuntura no Brasil, na América Latina e no mundo, para os quais haveria atualmente três grandes projetos em disputa. De um lado, o projeto do grande capital das corporações transnacionais, ainda hegemônico do ponto de vista econômico, ideológico, político e militar, que tenta se renovar e gerar um novo ciclo de acumulação e de controle. De outro, haveria um projeto de integração capitalista, no qual as burguesias locais procurariam desenvolver o capitalismo e realizar sua própria acumulação, mesmo em contradição com o grande capital hegemônico.

Marginalmente a esses dois projetos de caráter capitalista haveria um terceiro, de cunho popular, que objetivaria reorganizar a economia de cada país no sentido de dar solução aos problemas do povo, principalmente os relacionados à fome e à falta de terra, trabalho, moradia e educação. A primeira lacuna dessa análise reside no fato de que as conjunturas dos países centrais – Estados Unidos e Europa Ocidental – são diferentes das conjunturas dos países africanos, asiáticos e latino-americanos. Além disso, a conjuntura de cada um dos países desses blocos difere em muitos aspectos.

Por exemplo, a crise norte-americana tem raízes profundas na crescente desindustrialização da sua economia, na desregulamentação quase completa do seu sistema financeiro especulativo, no monstruoso déficit fiscal do seu Estado, em grande parte decorrente das despesas em armamentos e guerras, e na crescente incapacidade da sua população em manter o emprego e a capacidade de consumo. A crise na Europa está relacionada com a política alemã, e em parte francesa, de manter suas indústrias à custa da desindustrialização dos demais países europeus, cujas sociedades passaram a funcionar à custa de transferências financeiras, aparentemente como doações, que causaram grandes rombos fiscais nos Estados. Enquanto o governo Obama procura resolver a crise dos Estados Unidos através de políticas de incentivo industrial e de tributação das grandes fortunas, políticas emparedadas pelo Congresso, o governo alemão está forçando os países europeus quebrados a aplicarem arrochos neoliberais. Do ponto de vista político, a reação conservadora à crise nos Estados Unidos e na Europa continua se fortalecendo, inclusive com o surgimento de correntes ultradireitistas, enquanto a reação popular ainda parece não ter objetivos nem direção política claros.

As conjunturas de cada país latino-americano também diferem. Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Chile, que nunca conseguiram desenvolver uma indústria própria de porte e, em vários casos, nem mesmo uma agricultura moderna, embora possuam grandes reservas de recursos naturais, se veem às voltas com a necessidade de se industrializarem, até mesmo para explorar melhor alguns desses recursos, além de enfrentarem classes dominantes muito reacionárias. A Argentina e o Brasil, que já tiveram uma indústria desenvolvida, praticamente quebrada pelo período neoliberal, se encontram diante da necessidade de reconstruir suas indústrias nacionais, tendo como eixo a nova revolução científica e tecnológica e o fato de que a maior parte do parque industrial, que restou da destruição neoliberal, se encontra monopolizada por corporações transnacionais. E ambos também enfrentam a crescente concentração agrária, voltada para o mercado internacional, paralelamente a um constante processo de expropriação das economias agrícolas familiares, responsáveis pela produção para o mercado interno e, portanto, pela seguridade alimentar de suas sociedades.

Paradoxalmente, a quebradeira neoliberal na América Latina, que atingiu também os Estados de cada país, rachou as classes dominantes e as burguesias locais, permitindo a surpreendente vitória eleitoral de partidos de esquerda, em geral em coligação com partidos de centro e centro-direita, e o estabelecimento de governos de coalizão. Esses governos se veem, em geral, obrigados a resolver não só os problemas imediatos de profunda miséria e pobreza, analfabetismo real e funcional, desemprego, ausência de assistência médica etc. etc., mas também os problemas estruturais relacionados com o desenvolvimento da infraestrutura econômica e da indústria, reforma agrária, reforma política etc. etc. O problema desses governos é que eles não possuem coesão, nem força política, e nem apoio social firme, para realizar as reformas estruturais, além de enfrentarem resistências diversas para resolver os problemas imediatos, inclusive dentro dos próprios partidos tidos como de esquerda. A grande fase de descenso das mobilizações sociais nesses países parece continuar, embora haja pequenos indícios de que algo se move no sentido de sair da estagnação. Porém, não há certeza de que isso se torne uma realidade a curto prazo.

Se olharmos as coisas com realismo, talvez tenhamos que reconhecer que, com exceção da Ásia, tanto os capitalismos desenvolvidos norte-americano e europeu, quanto os capitalismos em desenvolvimento na América Latina e na África, assim como os movimentos populares em quase todo o mundo, atravessam a presente conjuntura debatendo-se para sair das crises, grandes e pequenas, em que foram jogados. Seus projetos não são claros, seja para o futuro imediato, seja para o futuro de mais longo prazo. No caso dos movimentos sociais, alguns acham que podemos lutar pelo socialismo sem passar pelas dores do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, parecendo retomar do início uma discussão da socialdemocracia operária do final do século 19 e começo do século 20. Outros acham que desenvolver as forças produtivas significa apenas desenvolver os meios de produção, a tecnologia e a capacidade de produção. Esquecem que, para um projeto popular, o aspecto mais importante do desenvolvimento das forças produtivas consiste no crescimento da força social da classe dos trabalhadores assalariados e de sua luta econômica, social e política. Em outras palavras, já deveria estar suficientemente claro que um projeto popular, para se cristalizar no mundo atual, seja nos países desenvolvidos, seja nos países em desenvolvimento, precisa ter o capitalismo como contraponto.

No caso brasileiro, como no caso de alguns outros países latino-americanos, africanos e asiáticos em que vigora o capitalismo, e nos quais a esquerda se tornou governo, ou parte importante de governos de coalizão, sem que existam fortes mobilizações reformistas e/ou revolucionárias, a situação é ainda mais complexa. Esses governos precisam ter como eixo de sua ação o revigoramento quantitativo e qualitativo da classe dos trabalhadores assalariados, o que só pode ser feito se houver o crescimento do capitalismo, em especial do capitalismo intensivo em trabalho.

A engenharia política, social e econômica necessária para isso passa por planos de desenvolvimento e investimento que saibam combinar adequadamente o crescimento de indústrias intensivas em capital, ou em ciências e tecnologias, e de indústrias que empreguem tecnologias tradicionais, mas empreguem muitos trabalhadores. Portanto, paradoxalmente, projetos populares nesses países não podem abdicar de tratar dessa questão. Mesmo porque não passa de ilusão supor que haverá uma retomada dos movimentos populares de massa sem ter como suporte um poderoso contingente de trabalhadores assalariados.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

sábado, 10 de novembro de 2012

Manual do Militante


MANUAL DO MILITANTE

MILITANTE: Logo que alguém começa a militar vemos inicialmente uma sede pela militância, que muitas vezes se não for bem direcionada acaba como faísca, vão com tanta sede ao pote que ao não verem resultados rápidos acabam desanimando.

É importante o militante compreender o processo dialético da militância, ele enxergar além daquele momento, tentar visualizar o que suas ações trarão de consequência para o futuro. Poderá ocorrer de inicialmente o militante não ter muita politização.

Neste caso ele terá que ter cuidado com os "achismos" mas nem por isso deve deixar de investigar, questionar e elaborar.

MILITANTE ORGÂNICO: É aquele que tem iniciativa própria, que pensa o partido, respira o partido, é o partido. Ele busca se informar sobre todas as atividades e se esforça para estar presente nelas. Ele não se restringe a sua célula, núcleo ou corrente. Ele quer debater com todos. Mas insufla em seu peito a politica de sua corrente e sabe da necessidade de estar bem informado para a construção de argumentos que provarão a politica de sua corrente e de seu pensamento. O militante orgânico preocupa-se em saber debater, argumentar, escrever. Ele acima de tudo quer construir o partido.

Ele percebe que um argumento seu, poderá ser decisivo em uma plenária.

O militante Orgânico procura identificar aonde mais e melhor ele pode atuar, tanto dentro do partido como no meio em que está inserido, seu trabalho, sua comunidade, etc...

Procurando por exemplo na sua comunidade o que esta faltando, quais as necessidades que os assolam. E, cria um projeto para levar ao encontro do partido, ele conversa com os membros do partido tentando identificar o que poderão fazer na construção deste projeto e dialoga a respeito com os membros de sua comunidade. Sem esquecer que este projeto deve ser em pró da questão social. Deve ser uma construção socialista e que seu dever de revolucionário é engajar a todos para a construção de um mundo melhor.

Assim como fez o jovem revolucionário Ernesto Che Guevara que em uma de suas passagens podemos destacar sua prisão no México junto com Fidel e demais revolucionários que futuramente desembarcariam em Sierra Maestra.

Durante o interrogatório que se seguiu, enquanto todos inclusive Fidel negaram serem socialistas, Che além de confessar seus ideais, ainda tentou convencer seus interrogadores a se tornarem socialistas também(livro de Jon Lee Anderson, pág. 239)

SIMPATIZANTE: É aquele que simpatiza com politicas do partido, ou simpatiza com membros do partido. Você já deve ter ouvido a expressão "eu voltei no fulano porque simpatizo com ele", ou "eu não voto no partido voto na pessoa". Normalmente este simpatizante não é politizado.

Mas há também simpatizantes que são politizados como, por exemplo, membros de DCES, ou grupos que tem alguma atuação politica mesmo que não partidária. Como ONGS, Sindicatos, estudantes, etc... Vemos muitos simpatizantes participarem de Plenárias, cursos e até atos públicos.

MILITANTE ESPORÁDICO: É aquele que é filiado, mas devido ao trabalho, faculdade, família etc... Tem pouco tempo para militar, este militante poderá contribuir muito usando seu tempo disponível utilizando, por exemplo, a internet, e é necessário não perdermos contato com este camarada, pois nem por isso ele deixa de ser valoroso e futuramente pode ser que ele tenha mais tempo pra militar, ao terminar a faculdade, por exemplo, e seu conhecimento acadêmico neste caso será de grande contribuição. Este militante independente de seus motivos no momento, serem família, Faculdade ou trabalho, tem grande probabilidade de um dia se tornar orgânico.

Glossário Marxismo-PAQ

Conceitos básicos das três fontes do marxismo:
Filosofia Dialética alemã;
Economia Política inglesa;
E, Política Socialista francesa.

Filosofia

Materialismo Histórico Dialético: O materialismo em contraposição ao idealismo é a concepção filosófica de que o ser precede a consciência, que a natureza precede o espírito, pois a consciência e o espírito são produtos da capacidade racional humana, desenvolvida pelo sua evolução concreta como espécie. A dialética, desenvolvida por Hegel é um avanço na tecnologia do pensamento filosófico, como uma superação da lógica puramente formal, e dos próprios dogmatismos sendo usada pra determinar as leis do movimento, e ela se prova pelo próprio avanço das ciências naturais. Marx por meio das contribuições do materialismo histórico-dialético elaborou um novo meio de analisar a história e a política tendo por ponto de partida as contradições, os conflitos e suas bases objetivas, possibilitando um entendimento mais universal do processo histórico e civilizatório até então inviável para outras teorias anteriores.

Totalidade Concreta: É uma categoria do materialismo que define que a unidade do mundo não se consiste no ser, mas consiste em sua materialidade, pois a concretude unifica e determina o ser e esse ser material está em constante movimento pois não há matéria sem movimento e movimento sem matéria, tal como provam as próprias ciências naturais.

Movimento da Realidade: Segundo a dialética marxista a realidade não estática, é em sua totalidade vários processos de constantes transformações e a realidade não muda de forma gradual e previsível, mas seguindo as leis da lógica dialética, ou seja em saltos de qualidade(similares aos saltos quânticos) com um desenvolvimento em espiral, pela transformação da quantidade em qualidade.

Luta de Classes: Condição na qual a história se move, por meio dos conflitos sociais econômicos e políticos entre setores sociais com interesses antagônicos nos diferentes modos de produção, entre oprimidos e opressores: tanto do entre escravo e senhor, servo e barão, trabalhador e burguês. Essa luta se dá de forma ininterrupta hora mais acirrada, hora mais velada e o marxismo é a ferramenta teórica e prática desenvolvida para que os debaixo enfrentem os de cima e mudem o mundo conforme seus interesses.

Economia Política

Mercadoria: coisa que satisfaz uma necessidade humana e pode ser trocada ou negociada e produto de determinado tempo de trabalho cristalizado.

Valor de Uso: valor estabelecido por sua utilidade.

Valor de Troca: valor relacional de proporção de troca de uma mercadoria por outra direta (escambo) ou indiretamente(compra e venda por intermédio de moeda).

Capital: ao contrário da lei geral da circulação de mercadorias em que M-D-M, o capital circula de D-M-D, onde o dinheiro fruto de lucro é reinvestido na produção (não simplesmente entesourado) e capaz de comprar meios de produção e explorar força de trabalho.

Capital Constante: Capital investido em meios de produção como máquinas e ferramentas.

Capital Variável: capital investido no pagamento de mão-de-obra
  
Mais Valia: relação social de produção em que se explora a compra de uma mercadoria cujo valor de uso fosse ser uma fonte de valor, que é a força de trabalho humana, que é comprada com salário (trabalho socialmente necessário para a manutenção da mercadoria, ou seja, a vida do trabalhador) que representa apenas uma parte do trabalho produzido. As horas não pagas, o sobre trabalho é apropriado pelo burguês, esta é a mais valia.

Mais Valia absoluta: mais valia obtida pelo aumento do tempo de trabalho sem aumento de remuneração(redução do investimento em capital variável).

Mais Valia Relativa: mais valia obtida pelo investimento em capital constante, com instrumentos de tecnologia mais eficiente obtendo um maior produto.

Exército Reserva: camada do proletariado estruturalmente desempregada a fim de desvalorizar o salário daqueles que estão empregados.

Crise de Superprodução: crise mais comum no capitalismo fruto do excessivo investimento de capitais na produção de mercadorias e a incapacidade de vendê-las.

Trabalho: aquilo que o homem faz para transformar a natureza e gerar valor.


Infraestrutura: organização social concreta das inter-relações com os homens com a natureza e a sua produção para satisfazer suas necessidades.

Superestrutura: relações de organização da vida social do ponto de vista político e ideológico, e composta pelo Estado, Exército, Justiça, Igreja, Escola, Sindicatos, Partidos...

Forças produtivas: A força de trabalho e os meios de produção (terras, maquinas, ferramentas etc...).

Classe: Grupo social em que se determina o papel social em que indivíduos ou coletivos exercem na produção e na organização social.

Estado: Entidade com monopólio do uso da força é quem garante por meio da superestrutura do aparelho repressor e o aparelho ideológico a exploração da classe dominante sobre as classes exploradas.

Modo de produção: maneira em que a sociedade se organiza historicamente para as relações de produção e as classes que o compõe

Modo de produção Comunista Primitivo: Típicos da pré-história homens trabalham e consomem coletivamente, não há classes sociais nem propriedade privada de meios de produção nem acúmulo de excedente. Igualitário, porém pouco desenvolvido.

Modo de produção Asiático: Típico da Antiguidade Oriental Sociedade de castas, com uma classe com controle burocrático de terras, águas irrigáveis e do Estado, com posse de excedente econômico, apenas administrando o trabalho de outra classe, na posição de servidão.

Modo de produção Escravista: Sociedade de classes, típica da Antiguidade Ocidental, baseada na propriedade privada de meios de produção e do excedente econômico, com a classe dominante tendo propriedade inclusive dos trabalhadores, os escravos que eram comprados e vendidos como mercadoria, sendo também um meio de produção

Modo de produção Feudal: Modo de produção medieval, em que há uma classe dos servos ligados à terra é explorada e deve sustentar as “classes” militar e eclesiásticas, e a classe dos senhores feudais, nobres que exploram os servos na terra que arrendam de outro nobre, que arrenda de outro nobre as terras que são do rei o suserano de todos.

Modo de produção Capitalista: Modo de produção predominante atualmente, consolidado com o advento da industrialização e as revoluções democráticas burguesas, em que há duas principais classes antagônicas, a burguesia, dona dos meios de produção que extrai mais-valia explorando o proletariado que apenas possui força de trabalho.

Modo de produção Comunista: modo de produção em que não há classes nem Estado, nem propriedade privada de meios de produção, a economia é planificada e os próprios trabalhadores dirigem democraticamente a produção e a política. Esse estágio civilizatório é possível por meio de uma revolução socialista internacional, fruto da mobilização dos “de baixo” e da organização de uma vanguarda versada no marxismo.

Ditadura democrática do proletariado: regime político em que há supremacia da maioria (povo proletariado) que governa em detrimento da minoria dos burgueses, que governa no capitalismo.

MEDITAÇÃO

É por força que medito em minha mente inquieta e socialista, para que eu possa fazer o meu melhor possível me tornando um autentico revolucionário, honrando tudo aquilo que eu sinto ser verdadeiro."

Campeão Fabian  

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O PSOL e os caminhos para governar o Amazonas


As eleições recentes mostraram que o eleitor amazonense está em busca de novas propostas para dirigir os destinos do Estado, o que determina essa constatação é o fato de o PSDB ser o Partido com maior votação no Estado (ver aqui) seguido do PCdoB, PSD e PMDB. O PSOL aparece como o Partido mais votado dentre os da esquerda socialista independente, um resultado que podemos dizer ser apenas da força que a sigla PSOL vem acumulando desde sua fundação.

O Partido Socialismo e Liberdade vêm se consolidando como o principal partido de oposição ao atual sistema que governa o País há 20 anos representado na polarização PSDB e o PT que comanda o Novo Centrão (Base Aliada).

Um Partido em crescimento

O PSOL cresceu nas eleições municipais de 2012 em relação ao pleito anterior, em 2008 (ver aqui). Foram eleitos 49 vereadores e um prefeito. O PSOL ainda disputou o segundo turno em Belém (PA) e Macapá (AP), teve em diversas capitais o Vereador mais votado, elegeu o Prefeito de Itaocara (RJ) no 1º turno e o de Macapá (AP) no 2º turno.

Embora elegendo o Prefeito de Macapá (AP) no 2º turno, prefiro considerar apenas o resultado do 1º turno como a expressão mais lucida do crescimento do partido, já o resultado do segundo turno deve servir como parâmetro para uma reflexão mais profunda sobre a nossa politica de alianças que pretendo comentar em outra oportunidade.

No dia 27/10/2012, o Diretório Estadual do PSOL/AM, reuniu seus membros para fazer uma avaliação das eleições municipais, num primeiro momento se olharmos apenas o numero de eleitos, podemos afirmar que o partido saiu menor do que entrou no pleito, perdemos o único Vereador que tínhamos no Amazonas, porém se olharmos o resultado da votação, principalmente em Manaus, podemos afirmar que ouve um ligeiro crescimento eleitoral do partido.

Uma estratégia que contemple do imediato até as utopias!

Para este otimista militante, a grande decisão tomada pela Direção do PSOL no Amazonas foi a de começar organizar as estratégias para as próximas eleições – pensar o futuro é sempre motivo para alimentar as esperanças –, fator preponderante para retomar os nossos projetos e ações que se bem combinados nos torna realmente os protagonistas das transformações que o Amazonas precisa.

Para dar prosseguimento a essa decisão, foi agendado a primeira atividade para o dia 10/11/2012 sábado, onde começaremos a discursão sobre o nosso projeto estratégico para governar o Amazonas, a consecução de um projeto dessa natureza, passa primeiro pelo convencimento dos nossos militantes da importância de definirmos nossos objetivos e planejarmos nossas ações, isso nos torna competitivos eleitoralmente e fortes organicamente.

O segundo momento será, identificar o perfil da nossa população, as demandas dos Municípios e a popularidade do nosso partido, essa é uma missão importante na concepção das nossas estratégias, mas pra este militante, o maior desafio está na definição do modelo econômico que pretendemos para o Amazonas, esse tema deve ser voltado para a importância do Estado no cenário mundial e no fortalecimento da cultura, costumes e identidade na nossa população.

É preciso entender que o Estado do Amazonas não é uma província e muito menos uma fabula, somos um Estado grandioso em ecologia, com uma população fabulosa e economicamente sustentável.

O Parque Industrial de Manaus será sempre motivo de preocupação, sua manutenção é ponto convergente de todas as forças politicas local, porém não é a única forma de sobrevivência do nosso povo, digo sobrevivência pelo fato dos atuais governantes assim se referirem quando o assunto é geração de emprego, no caso do PSOL, precisamos questionar esse conceito de emprego na Amazônia.

Quando as elites interessadas em deslocar o foco da população dos seus verdadeiros potenciais econômicos para o tema emprego, na verdade eles estão interessados apenas em aumentar o exercito de reserva nos centros urbanos para ampliarem seus lucros pagando salários de misérias aos trabalhadores empregados, por outro lado, esvaziam o interior com a falta de politicas publicas que garanta uma boa qualidade de vida a população interiorana, a consequência disso é o aumento dos latifúndios nas mãos de grandes grupos econômicos e a devastação das florestas.

O Projeto do PSOL tem a obrigação de garantir politicas publicas para assegurar o desenvolvimento humano das populações tradicionais, respeitando sua cultura, costumes e atendendo suas demandas, nesse sentido, entendo como aspecto fundamental desse Projeto os princípios definidos no Manifesto Ecossocialista (ver aqui). Nosso projeto dever contemplar as propostas imediatas que a polução reclama e as utopias que conduza nossas esperanças.

Elson de Melo – Sindicalista

domingo, 4 de novembro de 2012

Eleições, bloco hegemônico e crise econômica


Escrito por Paulo Passarinho

As eleições municipais desse ano permitem as mais variadas avaliações, de acordo com os interesses de quem as analisa. Isto se deve ao que vários analistas apontaram como a “fragmentação” dos resultados obtidos, conforme as vitórias alcançadas pelos diferentes partidos. Não se pode afirmar, de fato, pela ótica estrita desses resultados, a hegemonia ou vitória consagradora de nenhuma das siglas partidárias.

Levando-se em conta o número de municípios governados por cada legenda, o PMDB continua se mantendo como o principal partido, com mais de mil prefeituras sob o seu comando. Contudo, em termos de capitais, esse partido ficou apenas com as vitórias no Rio de Janeiro e em Boa Vista, Roraima. O PSDB, por sua vez, se mantém como o segundo partido em número de prefeituras, mas cada vez mais acossado pelo PT, terceiro partido com maior número de cidades sob o seu governo. E, em termos de capitais, os tucanos acabaram vitoriosos apenas nas regiões Norte e Nordeste, com os resultados positivos de Manaus, Belém, Teresina e João Pessoa, mas com a relevante derrota sofrida na cidade de São Paulo.

Ainda pelo critério do número de prefeituras conquistadas, o curioso e novato PSD, de Gilberto Kassab, ficou com o quarto lugar, seguido pelo PP, de Paulo Maluf. Se ponderarmos esses resultados pela população sob o comando desses partidos, há uma inversão de posições, com o PT à frente, seguido pelo PMDB e pelo PSDB. Por esse critério populacional, o PSB e o PDT aparecem na frente do PSD e do PP.

Houve resultados que chamaram atenção pelas disputas envolvidas entre aliados. O caso mais notório se relaciona com as disputas entre o PT e o PSB, em várias capitais e cidades importantes, como as ocorridas em Recife, Belo Horizonte, Fortaleza ou Campinas. Aliás, eleições que nessas cidades acabaram conferindo a vitória ao PSB, partido presidido pelo governador Eduardo Campos.

Essas vitórias do PSB, por exemplo, permitiram muita especulação, por parte em geral de articulistas vinculados à mídia dominante, sobre uma possível aproximação, tendo em vista as eleições presidenciais de 2014, entre os partidários de Eduardo Campos e o PSDB.

É evidente que em política tudo é possível, ainda mais em um quadro onde as questões mais relevantes parecem ser deixadas de lado ou condenadas ao esquecimento. Porém, levando-se em conta que o PSDB perde substância e influência, e assiste à derrocada espetacular do seu principal aliado (o DEM, apesar da vitória de ACM Neto, em Salvador), essa me parece uma hipótese muito mais afeita à vontade de analistas que se irritam com o comando do PT sobre o atual bloco hegemônico no país, no plano partidário.

Sim, pois se não podemos apontar um partido hegemônico no país, existe, por outro lado, uma clara hegemonia política que não podemos desconsiderar. Essa hegemonia, no universo partidário, é exercida por um bloco que denomino como neo-centrão, em referência à sua matriz, o Centrão, formado pela direita durante os trabalhos da Constituinte de 1988 para bloquear as conquistas exigidas pela cidadania. Este bloco se reciclou, se ampliou e tem hoje o PT como o seu principal articulador mor. Uma prova cabal de que em política tudo é possível, caso as fronteiras político-ideológicas sejam diluídas pela cooptação ou metamorfose dos agentes sociais.

Em recente artigo sobre o processo do julgamento do mensalão, Fábio Konder Comparato nos brindou com sua lúcida análise, apontando que “no Brasil, a esfera do poder sempre se apresentou dividida em dois níveis, um oficial e outro não-oficial, sendo o último encoberto pelo primeiro”. No nível oficial, aparecem os órgãos clássicos do Estado, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além dos partidos políticos e dos próprios políticos. O jurista lembra que “para a opinião pública e os observadores menos atentos, todo o poder político concentra-se aí”. E alerta: “é preciso uma boa acuidade visual para enxergar, por trás dessa fachada brilhante, um segundo nível de poder, que na realidade quase sempre suplanta o primeiro. É o grupo formado pelo grande empresariado: financeiro, industrial, comercial, de serviços e do agronegócio”.

Alguém poderia discordar, desse modo, que no plano da representação política partidária real há um bloco hegemônico, articulado e comandado pelo PT, e que se subordina às forças assinaladas por Comparato como integrantes desse “segundo nível de poder”?

São essas forças, por exemplo, que sustentam a pressão pela manutenção, por parte dos governos federais, do tripé da política econômica, em curso desde 1999, baseado no que denominam de câmbio flutuante/metas de superávit primário/metas de inflação. São essas mesmas forças, também, que no máximo apenas admitem pequenas e breves variações na ênfase com que cada um dos pilares desse tripé seja administrado. E dessa forma vamos assistindo apenas à administração de uma crise econômica que novamente já nos conduz à maldição do baixo crescimento econômico.

O governo atual, para enfrentar a crise, insiste em medidas que em passado recente obtiveram efeitos positivos, pelo fato de terem representado mudanças no nível de renda, emprego e crédito de uma população muito carente. Mas que somente foram possíveis, dadas as excepcionais condições do comércio internacional das commodities que exportamos. Prosseguir nesse caminho dependeria de ações estruturais mais incisivas – de inclusão, de investimentos em educação, de reversão do processo de desindustrialização/desnacionalização do parque produtivo do país, de realização de uma ampla e massiva reforma agrária, de mudança da estrutura tributária e fiscal que temos hoje.

Porém, a hegemonia política atual, pelo lado “oficial” e pelo seu lado mais oculto e decisivo, não permite a mudança. Por isso, ao se encerrarem as eleições, prefeitos eleitos pela situação – como é o caso de Haddad, de São Paulo –, pela oposição de direita – como é o caso de ACM Neto, de Salvador –, ou pela oposição de esquerda – como é o caso de Clécio Luis, de Macapá – já sinalizavam, cada um deles ao seu modo, a necessidade de arrancar recursos de Brasília, manter um bom relacionamento com o governo federal ou contar com apoios que facilitem negociações com o Palácio do Planalto.

A rigidez que a atual hegemonia impõe à condução da política econômica é o obstáculo principal às mudanças necessárias. Mas também poderá se constituir no caminho que irá apenas aprofundar a própria crise, abrindo espaços para uma nova conjuntura, mais favorável às lutas do mundo do trabalho, na busca de alternativas.

Paulo Passarinho é economista.

sábado, 3 de novembro de 2012

Razões e estratégias do Ecossocialismo


Por Michael Löwy(*)

O famoso marxista italiano Antonio Gramsci dizia que o revolucionário socialista deve combinar o pessimismo da razão com o otimismo da vontade. Desse modo, dividirei em duas partes este artigo que discute as alternativas de desenvolvimento para superar o modelo produtivista-consumista. Em primeiro lugar, tratarei do pessimismo da razão: as coisas vão mal. E, em seguida, do otimismo da vontade: quem sabe, elas podem mudar, e um caminho para isso é o do ecossocialismo.

A primeira parte discorre, portanto, sobre o pessimismo da razão. Simplesmente somos obrigados a constatar que o atual modelo de desenvolvimento do capitalismo industrial moderno, particularmente em sua variante neoliberal, baseada no produtivismo e no consumismo, está conduzindo a humanidade – e não o planeta – a uma catástrofe ecológica ou ambiental sem precedentes em sua história.

Por que digo “a humanidade” e não “o planeta”? Porque o planeta, qualquer que seja o estrago que façamos, vai continuar tranquilo, girando. Ele não será atingido. Quem será afetada pelo desastre ecológico será a vida no planeta, serão as espécies vivas, dentre elas a nossa, o Homo sapiens. Esse é o âmago do problema, que serve para evitar discussões um pouco abstratas, como “temos que salvar o planeta”.

Porém, não é o planeta que está em perigo, somos nós e as outras espécies vivas. Isso porque a lógica atual do sistema, de expansão e crescimento ao infinito, e o atual modelo de desenvolvimento, que segue a lógica do produtivismo e do consumismo, conduzem, inexoravelmente – e independentemente da boa ou da má vontade de empresários ou governos – à degradação do meio ambiente e à destruição da natureza.

Isso se manifesta em vários aspectos, como no desaparecimento de algumas espécies. Já se calcula que, com o business as usual, como diz a expressão americana, daqui a algumas dezenas de anos não vão mais existir os peixes. São espécies que existem há milhões de anos e que a humanidade consome há dezenas de milhares de anos. E já estão desaparecendo.

Outro aspecto importante é o envenenamento, por meio da poluição, do ar das cidades, da terra, do solo, dos rios, do mar, ou seja, a degradação dos equilíbrios ecológicos. Uma série de aspectos que vão se acumulando, e, com todos esses elementos, o sinal vai passando do amarelo para o vermelho. No entanto, o mais grave de todos esses aspectos da destruição do meio ambiente e dos desequilíbrios ecológicos, o mais ameaçador e inquietante, é a mudança climática ou o aquecimento global.

Não farei aqui uma análise científica disso, suponho que já seja de conhecimento geral. A emissão de gases a partir da queima dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás) e sua acumulação na atmosfera produzem o efeito estufa e o aquecimento global. Esse processo, a partir de certo nível de aquecimento, por volta de dois ou três graus a mais, vai conhecer uma espécie de aceleração e crescimento descontrolado que pode chegar a quatro, cinco, seis ou mais graus. E o que vai acontecer com isso?

No livro Six Degrees: Our Future on Hotter Planet (Seis Graus: nosso futuro em um planeta mais quente), o especialista inglês Mark Lynas descreve como será o planeta quando a temperatura subir seis graus. Segundo ele, se compararmos o inferno de Dante com o planeta com seis graus a mais, o inferno de Dante vai parecer um passeio de fim de semana. O autor analisa as consequências disso, como o desaparecimento da água potável e a desertificação, dois fenômenos que estão interligados. Alguns pesquisadores já calcularam que o deserto do Saara pode atravessar o Mediterrâneo e chegar à Europa, às portas de Roma, dentro de uma longa lista de outros desastres.

Outro aspecto ainda mais inquietante é a subida do nível do mar, que resulta do derretimento do gelo dos Polos Norte e Sul, em particular da Groenlândia, um gelo que não está sobre a água, mas sim em cima da terra. Já se calculou que, se o nível do mar subir poucos metros — um, dois ou três —, várias das principais cidades da civilização humana, como Londres, Amsterdã, Hong Kong, Rio de Janeiro, ficarão debaixo d’água. Também boa parte do que é a orla marítima dos países desaparecerá. E o que acontece se derreter todo o gelo que está no Polo Norte e no Polo Sul? O mar pode subir até setenta metros, para se ter uma ideia da magnitude da ameaça.

Obviamente, isso não vai acontecer na próxima semana, mas esse processo de aquecimento global e de derretimento dos gelos está se acelerando. Há alguns anos, os especialistas diziam que esses processos estavam previstos para 2100, ou seja, para o fim do século XXI. Portanto, atingiria nossos bisnetos que ainda não nasceram, e precisamos pensar neles. Só que normalmente as pessoas não se preocupam com o que vai acontecer com os bisnetos que ainda não nasceram, não é uma prioridade. No entanto, os trabalhos mais avançados dos cientistas, os mais recentes, apontam para processos irreversíveis do aumento de temperatura, com todas as suas consequências, já nas próximas décadas, antes de 2100. Ninguém pode dizer se será daqui a vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos, mas a coisa está muito mais próxima.

Um exemplo disso são os escritos do cientista americano James Hansen, o principal climatólogo dos Estados Unidos, que trabalha para a NASA, e que não é um homem de esquerda, não tem nada a ver com o marxismo. Hansen é um cientista que há alguns anos vem tocando o sinal de alarme, mas durante o governo do presidente George W. Bush tentaram proibi-lo de falar. Mandaram para ele um recado dizendo que ele era um funcionário do governo americano e que o que ele estava dizendo sobre o perigo do aquecimento global não era a linha do governo, o qual considera tudo isso uma bobagem. Pediam, por favor, que ele calasse a boca, e, mais que isso, afirmavam que estava proibido de falar.

Um acontecimento sem precedente desde Galileu, quando a Inquisição ordenou a ele que não deveria dizer que a Terra se mexe, que estava proibido pela Igreja Católica. Desde essa época, não houve caso tão absurdo de um governo proibir um cientista de se manifestar. Obviamente ele não obedeceu, continua a protestar e a escrever sobre isso e é respeitado mundialmente como um grande climatólogo.

Ele afirma que o processo está se acelerando e que é uma questão de décadas. E os especialistas do gelo — os glaciólogos, que vão para o Polo Norte e para o Polo Sul e medem e calculam esses fenômenos — dizem que não estão entendendo nada do que está acontecendo. Está tudo indo muito mais depressa do que eles pensavam. Em 2010, fizeram um cálculo de como o gelo estava derretendo e, em 2011, viram que o cálculo estava errado, que o modelo utilizado não estava funcionando, que estava indo muito mais rápido. Portanto, são questões científicas e políticas que têm a ver com o futuro da humanidade.

De quem é a culpa dessa ameaça sem precedentes na história da humanidade? Os geólogos calculam que há 60 milhões de anos houve um processo de aquecimento global que matou quase tudo o que existia no planeta. Depois levou algumas dezenas de milhões de anos para a vida voltar ao planeta. Mas, desde que existe a humanidade, nunca existiu nada parecido, é algo sem precedentes. Os cientistas dizem que é culpa do ser humano, que o aquecimento global é resultado da ação humana. Os geólogos dizem que estamos entrando em uma nova era geológica chamada Antropoceno. Isto é, uma era geológica em que a situação do planeta, o clima, depende da ação humana e está sendo transformada por ela.

Essa explicação é cientificamente correta, mas eu diria que é um pouco limitada politicamente. Isso porque a humanidade já vive no planeta há algumas dezenas de milhares de anos, desde que apareceu o Homo sapiens, e o problema do aquecimento global, essa acumulação de gases na atmosfera, vem da Revolução Industrial. Começou em meados do século XVIII, quando esses gases foram se acumulando, e se intensificou enormemente nas últimas décadas, as décadas da globalização capitalista neoliberal. Portanto, o culpado dessa história não é o ser humano em geral, mas um modelo específico de desenvolvimento econômico, industrial, moderno, capitalista, globalizado, neoliberal: esse é o responsável pela atual crise ecológica e pela ameaça que pesa sobre a humanidade.

Quais são as soluções que propõem os representantes da ordem estabelecida? Há uma proposta que é a seguinte: as energias fósseis são as responsáveis pelo problema, por isso, vamos substituí-las por formas de energia limpas, que não produzem gases, e são seguras, como a energia nuclear. Está aí uma solução técnica e fácil para o problema: construir usinas nucleares. Isso foi feito em grande escala nas últimas décadas. Em 1986, houve um incidente desagradável, em Chernobyl, na União Soviética. Cientistas calculam que as vítimas de Chernobyl que foram morrendo no curso dos anos, resultado das irradiações, chegam a 800 mil mortos — mais do que todos os mortos de Hiroshima e Nagasaki, por decorrência da bomba atômica. O argumento dos responsáveis pela energia nuclear era de que isso aconteceu na União Soviética, um país totalitário, burocrático, com tecnologia e gestão atrasadas; no ocidente, com empresas privadas, isso não aconteceria. Esse discurso foi repetido muitas vezes até que ocorreu o acidente de Fukushima, no Japão, em 2011. A empresa responsável pela usina, Tokyo Electric Power Company (TEPCO), é a maior empresa privada de eletricidade do mundo. É a mais esplêndida manifestação do capitalismo privado no terreno da energia nuclear. Desse modo, fica claro que essa não é uma alternativa aos combustíveis fósseis, temos que procurar outras.

Há alguns anos, na época Bush, vazou para a imprensa um documento secreto do Pentágono sobre a questão do aquecimento global. O governo dizia que esse problema não existia, mas os cientistas do Pentágono sabiam que sim. Apresentaram um documento prevendo o que iriam fazer se o aquecimento global escapasse de qualquer controle e chegasse a seis graus, e a vida humana se tornasse impossível no planeta. Era uma possibilidade considerada pelos cientistas do Pentágono. A única proposta que conseguiram elaborar foi a de mandar um foguete para o planeta Marte. Eles inclusive detalham quem estaria nesse foguete: o presidente dos Estados Unidos, o Estado Maior do Exército, cientistas etc. Como não estamos convidados para essa viagem, não nos interessa a proposta. Esse é apenas um exemplo do tipo de solução considerada.

Obviamente, há tentativas mais sérias de solução, como a ideia de que precisamos desenvolver energias alternativas: hidrelétrica, eólica e solar. Com exceção da hidrelétrica, que já tem um desenvolvimento importante, em países como o Brasil, as outras são pouco desenvolvidas. E por uma razão bem simples: são menos rentáveis do que o petróleo e o carvão. Por isso, não interessa às empresas e aos Estados, com algumas exceções, investir maciçamente nessas energias. Em alguns países, chega a 10% o índice de energia produzida por fontes alternativas, mas o resto continua com o carvão e o petróleo. Seria necessária uma mudança em grande escala, acabar com os combustíveis fósseis e desenvolver energias alternativas. Por enquanto, nenhum governo está fazendo isso, embora os cientistas já tenham dado o recado: se não mudarmos drasticamente o padrão de matriz energética, nos próximos dez ou vinte anos a situação fugirá do controle. É uma questão de rentabilidade — que é o que conta — e de competitividade.

Outra tentativa mais interessante por parte dos governos foram os Acordos de Kyoto. Eles têm alguns aspectos positivos no sentido de serem acordos em que os governos se empenham em reduzir as emissões de gás. Só que isso não funcionou, por várias razões, dentre as quais o método utilizado, que é o mercado dos direitos de emissão, que não poderia conduzir a uma efetiva redução. Mesmo que o objetivo de Kyoto tenha sido muito pequeno — reduzir em 8% as emissões, enquanto os cientistas estão dizendo que precisamos reduzir em 40% nos próximos anos —, ele não foi alcançado. Além disso, os principais poluidores, os Estados Unidos, não assinaram Kyoto. E o país que está aparecendo como o segundo colocado nas emissões, a China, tampouco assinou.

Houve uma conferência em Copenhague, em 2009, para discutir esses problemas e o que fazer com as ameaças do aquecimento global. Os Estados Unidos utilizaram o argumento de que, embora sejam os maiores responsáveis pelas emissões de gases poluentes, a China está emitindo tanto quanto eles, e, se esse país não fizer nada, não serão eles que tomarão a iniciativa. A isso o governo chinês respondeu, com certa razão, que os Estados Unidos vêm emitindo gases há um século, têm uma responsabilidade histórica. Só agora que os chineses iniciaram, portanto, os Estados Unidos é que deveriam começar a reduzir suas emissões. Só depois disso, a China poderia discutir esse assunto. Ou seja, cada um jogou a peteca para o outro. E os governos europeus disseram que se os Estados Unidos e a China, que são os principais emissores, não fazem nada, não serão eles, os europeus, que irão resolver o problema. Dessa forma, todos os governos chegaram ao acordo de que era urgente não fazer nada, cada um com seus argumentos. O resultado da conferência de Copenhague foi praticamente zero. Isso ilustra, entre outras coisas, o poder da oligarquia fóssil, ou seja, os interesses do carvão, do petróleo, da indústria automobilística, enfim, de todo esse complexo gigantesco de que dependem as energias fósseis, que não tem a mínima vontade de mudar a matriz energética.

Outra coisa que se deve dizer é que mesmo se as energias fósseis fossem substituídas pelas energias renováveis, estas também têm seus probleminhas, como os impactos socioambientais da energia hidrelétrica. Portanto, é uma ilusão achar que é só uma questão técnica, de mudar a matriz energética, embora isso seja fundamental. De qualquer maneira, teremos de reduzir significativamente o consumo de energia e, consequentemente, a produção econômica e o consumo. O desenvolvimento alternativo ao produtivismo e ao consumismo implica uma redução da produção e do consumo, a começar pelos países capitalistas avançados, evidentemente, que são os principais responsáveis e os maiores produtivistas e consumistas.

Até aqui vai o pessimismo da razão. Agora, vamos começar com o otimismo da vontade, senão fica muito triste essa história. Vou iniciar com Copenhague, onde houve a conferência oficial, que não decidiu nada, mas que também foi palco de um protesto. Saíram às ruas 100 mil pessoas da Dinamarca e da Europa, protestando contra essa inércia das potências capitalistas, levando como palavra de ordem principal: “change the system, not the climate”, ou seja, “mudemos o sistema, não o clima” — o sistema capitalista, evidentemente. Essa é a esperança, a de uma luta por transformação sistêmica, por alternativas radicais. Radical vem do latim radix, que significa raiz. Se a raiz do problema é o sistema capitalista industrial, moderno, globalizado, neoliberal, então devemos atacar a raiz do problema. Essas seriam, portanto, as alternativas radicais pós-capitalistas. Aqui vem a proposta do ecossocialismo.

Por que ecossocialismo? Em que se distingue do socialismo tradicional? O ecossocialismo é uma crítica, por um lado, do socialismo não ecológico, que foi a experiência fracassada soviética e de outros países, que do ponto de vista ecológico não representou nenhuma alternativa ao modelo ocidental. Pelo contrário, tratou de copiar o modelo produtivo do capitalismo ocidental. Ecossocialismo é uma crítica desse socialismo — ou pseudossocialismo — não ecológico, soviético, etc.

Por outro lado, é uma crítica à ecologia não socialista, que acha que podemos ter um modelo alternativo de desenvolvimento nos quadros do capitalismo, do mercado capitalista. Do ponto de vista ecossocialista, achamos que isso é uma ilusão, pela própria dinâmica de expansão necessária ao capitalismo, de crescimento, que leva necessariamente a uma colisão com a natureza e com os equilíbrios ecológicos. O capitalismo sem crescimento, sem competição feroz entre empresas e países pelos mercados, é impossível e inimaginável. Temos no ecossocialismo, desse modo, uma crítica ao ecologismo de mercado.

É uma crítica também, ou autocrítica, a certas concepções tradicionais na esquerda em geral, e no marxismo em particular, sobre o que é uma transformação socialista. Há uma visão clássica de que é preciso mudar as relações de produção — propriedade coletiva, em vez da privada — para permitir que as forças produtivas se desenvolvam, já que as relações de produção são um obstáculo ao livre desenvolvimento das forças produtivas. Mas não passa por aí. Primeiro, porque não é possível o desenvolvimento ilimitado das forças produtivas. E, em segundo lugar, porque pensar em uma transformação e em um modelo alternativo de desenvolvimento implica questionar não só as formas de propriedade e as relações de produção, mas as próprias forças produtivas, o próprio aparelho produtivo.

Esse aparelho produtivo, criado pelo capitalismo ocidental, industrial, moderno, é incompatível com a preservação do meio ambiente, por sua matriz energética e por sua forma de funcionamento, que inclui o agronegócio, o uso de pesticidas, entre toda uma série de características que mostram que esse aparelho produtivo não serve. Temos que pensar em uma profunda transformação, não só das relações de produção, mas do aparelho produtivo.

Mas não é só isso: precisamos pensar em uma transformação do padrão de consumo. É insustentável o padrão de consumo do capitalismo moderno. Isso significa que seria necessária uma redução do consumo, mas para quem? Nem todo mundo tem que apertar o cinto, não é bem assim. Primeiro, é uma questão de desigualdade social. O consumo é dez ou cem vezes maior nos países avançados. Eles são os primeiros que têm que começar essa mudança. Segundo, há uma diferença enorme entre o consumo ostentatório das elites dominantes e o consumo das classes populares: uns comem feijão e milho e outros compram iates enormes, helicópteros, etc. Não é a mesma coisa. Não é o que come milho que vai ter que comer menos milho. É o que compra palácios de luxo que vai ter que reduzir drasticamente seu consumo ostentatório.

Além disso, existe no capitalismo algo que se chama obsolescência planificada dos objetos de consumo. Dentro do capitalismo, os objetos de consumo já têm, em sua própria concepção, sua obsolescência prevista para o mais rápido possível. Todo mundo sabe que a geladeira de quarenta anos atrás durava quarenta anos, e as geladeiras de agora duram três anos. Isso é necessário: para o capital vender mais e mais geladeiras, produzir mais e mais, precisa ter uma duração muito menor. É parte do padrão produtivista e consumista, e também precisa ser modificado.

Precisamos, portanto, de mudanças nas formas de propriedade, no aparelho produtivo, no padrão de consumo, no padrão de transporte. O atual modelo, baseado no carro individual para as pessoas e no caminhão para as mercadorias, é insustentável, até porque depende do petróleo. Por isso, precisamos pensar no desenvolvimento do transporte coletivo, no trem em vez do caminhão, entre outras medidas. Tudo isso vai configurando uma mudança bastante radical no padrão de civilização. Na verdade, a proposta ecossocialista, de um novo modelo de desenvolvimento mais além do produtivismo e do consumismo, coloca em questão o paradigma da civilização capitalista ocidental, industrial, moderna. É uma proposta bastante profunda. Precisamos pensar em um novo padrão de civilização, baseado em outras formas de produzir, consumir e viver. Essa é a discussão que está colocada.

É uma proposta revolucionária, mas talvez a revolução tenha que ser redefinida. Gosto muito de citar uma frase de Walter Benjamin. Em suas Teses sobre o conceito de história, ele diz: “Nós, marxistas, temos o hábito de dizer que as revoluções são a locomotiva da história. Mas talvez a coisa seja um pouco diferente. Talvez as revoluções sejam a humanidade puxando os freios de emergência para parar o trem.” É uma imagem bastante atual. Hoje em dia, somos todos passageiros de um trem, que é a civilização capitalista, industrial, ocidental, moderna. Esse trem está indo, com uma rapidez crescente, em direção ao abismo. Lá na frente há um buraco que se chama aquecimento global ou crise ecológica. Não se sabe a quantos anos de distância se encontra esse abismo, mas ele está lá. Portanto, a questão é parar esse trem suicida e mudar de direção. É o desafio colocado pela proposta ecossocialista.

Agora, muitos dirão, com razão, que é uma proposta simpática e até interessante, mas e daí, como é que vamos daqui até lá? Não basta ter uma bela utopia. Acho que temos que partir da ideia de que o ecossocialismo é algo para um futuro imaginário, mas que devemos começar aqui e agora. Começando, modestamente, com movimentações, lutas, em função da busca de alternativas. Essas alternativas já estão se construindo em movimentos, experiências e lutas atuais.

Um exemplo de uma luta desse gênero, de um brasileiro que é para mim o precursor do ecossocialismo: Chico Mendes, um socialista confesso e convicto, e ecológico. Chico Mendes organizou a Aliança dos Povos da Floresta para defender a floresta como patrimônio comum dos povos indígenas e camponeses, patrimônio do povo brasileiro em seu conjunto, e também da humanidade. A defesa da floresta é uma causa do conjunto da humanidade porque, como se sabe, as florestas — em particular a Amazônia — são os chamados “poços de carbono” que absorvem os gases que estão na atmosfera. Se não houvesse essas florestas tropicais, o processo de aquecimento global já teria escapado de qualquer controle e já estaríamos no meio da catástrofe. O que ainda breca um pouco o processo são as florestas tropicais. Na Aliança dos Povos da Floresta, Chico Mendes fez um primeiro movimento em direção ao ecossocialismo, com a ideia de propriedade comum, bem comum dos povos, bem comum da humanidade.

No Fórum Social Mundial de Belém, em 2009, por exemplo, houve uma convergência interessante entre movimentos indígenas, camponeses, ecologistas, de mulheres, entre outros, em torno de uma exigência concreta em relação à Amazônia, ao Brasil, ao Peru e a todos os países amazônicos: desmatamento zero já. É uma exigência imediata, que tem a ver com a perspectiva de salvar a floresta tropical.

Outro exemplo interessante na América Latina é o que se deu recentemente no Equador, onde há um governo de esquerda, o do presidente Rafael Correa. Nesse país, há uma região com um grande território de floresta tropical, onde vivem comunidades indígenas, chamada Parque Yasuní. Para desgraça dos indígenas, descobriram petróleo nessas terras. As multinacionais foram correndo para lá, pedindo autorização para cortar a mata e extrair petróleo. Os indígenas resistiram, protestaram, o protesto foi apoiado pela sociedade civil, pela opinião pública, pelos ecologistas, pela esquerda. O governo, que é progressista, aceitou a proposta dos indígenas e fez a proposição de deixar esse petróleo debaixo da terra, mas pedir aos governos dos países ricos, do Norte, que os indenizem em pelo menos metade do valor desse petróleo. Porque os países do Norte, da Europa, estão dizendo que querem reduzir a emissão de gases, e a melhor maneira de reduzir a emissão de gases é não queimar o petróleo e deixá-lo debaixo da terra.

Essa é a proposta para o Parque Yasuní. Há atualmente uma negociação entre o governo do Equador e outros governos, e pelo menos um deles — o da Noruega — prometeu dar o dinheiro. Já é uma vitória e um exemplo para outros países, como a Indonésia, onde já está havendo mobilizações nesse sentido.

Mencionei a manifestação de Copenhague, que também é um exemplo de esperança, de otimismo da vontade, com 100 mil pessoas nas ruas exigindo a mudança do sistema. E essa mobilização teve continuidade. De todos os governos que estavam em Copenhague, só um se solidarizou com o protesto, o governo da Bolívia. Evo Morales saiu da conferência e foi falar com os manifestantes, dizendo que eles tinham razão. E ele convocou, depois, uma conferência na Bolívia, em Cochabamba, chamada Conferência dos Povos contra o Aquecimento Global e em Defesa da Mãe Terra, que foi um evento importante, com a participação de 30 mil delegados de movimentos sociais, indígenas, camponeses, representantes da ecologia urbana, de sindicatos, de organizações de mulheres, etc. A partir daí se lançou uma campanha internacional. Esse tipo de mobilização e luta é a esperança de que a coisa possa mudar. Em cima dessas experiências é que podemos investir nosso otimismo da vontade.

(*)Michael Löwy é sociólogo, filósofo e diretor emérito de pesquisas em Ciências Sociais no Centro Nacional de Pesquisas Científicas, da França (CNRS). É coautor, como Joel Kovel, do Manifesto Internacional Ecossocialista.

Este texto é a conferência de abertura do Seminário Abong 20 anos, intitulada “Uma nova concepção de desenvolvimento – Para superar o modelo produtivista-consumista”.