quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Michael Löwy: "Sem indignação, nada de grande e significativo ocorre na história humana"


Nesta entrevista à Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, o investigador do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) diz que a dinâmica de movimentos como o dos “Indignados” é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente.
ARTIGO | ESQUERDA .NET

As revoluções sempre tomam formas imprevistas, inovadoras, originais.
Michael Löwy esteve no Brasil no final de 2012 para lançar o livro ‘A teoria da revolução no jovem Marx', que foi publicado em 1970 na França e só agora tem uma edição em português.

Durante a sua estada no país, participou de muitos eventos e falou sobre temas diversos, como literatura e a questão ecológica. Nada que surpreenda no perfil de um pesquisador que circula com desenvoltura entre o estudo dos clássicos e a análise da conjuntura atual, e isso sem abrir mão da militância política de esquerda. Nesta entrevista, ele lança mão dos conceitos que aprendeu com os clássicos – principalmente Marx e Walter Benjamin – para discutir a crise que o capitalismo atravessa e os movimentos reivindicatórios que têm surgido em diferentes cantos do mundo. Além disso, explica os princípios e limitações da ideia de ‘ecossocialismo', com a propriedade de ter sido um dos autores do Manifesto que defende essa bandeira.

Brasileiro residente na França desde 1969, Löwy é diretor de pesquisas do Centre National de la Recherce Scientifique (CNRS) e responsável por um seminário na Écoles de Hautes Études en Sciences Sociales. Só em português, é autor de mais de 20 livros.

Como a teoria da revolução do jovem Marx, de que trata o seu livro, nos ajuda a entender o momento atual, com mobilizações de indignados no Estado espanhol, Grécia e vários outros países da Europa, além de movimentos de ‘ocupação' em vários locais do mundo? Esses são movimentos anticapitalistas?

Os movimentos de ‘Indignados' opõem-se às políticas ditadas pelo capital financeiro, pela oligarquia dos bancos e aplicadas por governos de corte neoliberal, cujo principal objetivo é fazer com que os trabalhadores, os pobres, a juventude, as mulheres, os pensionistas e aposentados – isto é, 99% da população – paguem a conta pela crise do capitalismo. Esta indignação é fundamental. Sem indignação, nada de grande e de significativo ocorre na história humana. A dinâmica destes movimentos é de uma crescente radicalização anticapitalista, embora nem sempre de forma consciente. É no curso de sua ação coletiva, de sua prática subversiva, que estes movimentos poderão tomar um caráter radical e emancipador. É o que explicava Marx na sua teoria da revolução, inspirada pela filosofia da práxis.

Marx escreveu no século XIX. As revoluções socialistas a que assistimos aconteceram no século 20. O que a realidade trouxe de diferente na forma como se concretizaram e na forma como se entende revolução nos séculos 19, 20 e 21?

As revoluções sempre tomam formas imprevistas, inovadoras, originais. Nenhuma se assemelha às anteriores. A Comuna de Paris (1871) foi um formidável levante da população trabalhadora da grande cidade e a Revolução Russa foi uma convergência explosiva entre proletariado urbano e massas camponesas. Nas demais revoluções do século 20, desde a Mexicana de 1911 até a Cubana de 1959, ou nas revoluções asiáticas (China, Vietname), foram os camponeses o principal sujeito do processo revolucionário. Não podemos prever como serão as revoluções do século 21: sem dúvida, não repetirão as experiências do passado. Por outro lado, existe o que Walter Benjamin chamava de ‘a tradição dos oprimidos': a experiência da Comuna de Paris inspirou a Revolução Russa e é ainda até hoje um exemplo de autoemancipação revolucionária das classes subalternas.

Com a crise capitalista de 2008 e o movimento de intervenção dos Estados para salvar a economia dos países, acreditou-se que a era neoliberal havia chegado ao fim. No entanto, tem sido intensificada cada vez mais a destruição dos direitos conquistados com o Estado de Bem-Estar Social, como temos visto acontecer na Europa (França, agora Espanha...). O que isso significa?

A intervenção dos Estados não significou de forma alguma o fim do neoliberalismo. O único objetivo desta intervenção era salvar os bancos, resgatar a dívida e assegurar os interesses dos mercados financeiros. Para este objetivo, foram sacrificadas conquistas de dezenas de anos de lutas dos trabalhadores: direitos sociais, serviços públicos, pensões e aposentadorias, etc. Para a lógica de chumbo do capitalismo neoliberal, tudo isto são ‘despesas inúteis'.

Um debate antigo da esquerda é sobre a relação entre revolução e reforma. O contexto do final do século 20 e do início do século 21, com situações como, por exemplo, a vitória eleitoral de partidos de esquerda na América Latina e mesmo em alguns países da Europa recolocam essa questão. Como analisa essa relação hoje?

Rosa Luxemburgo já havia explicado, em seu belo livro ‘Reforma ou Revolução?' (1899), que os marxistas não são contra as reformas; pelo contrário, apoiam qualquer reforma que seja favorável aos interesses dos trabalhadores: salário mínimo, seguro médico, seguro desemprego, por exemplo. Simplesmente, lembrava ela, não podemos chegar ao socialismo pela acumulação gradual de reformas; só uma ação revolucionária, que derruba o muro de pedra do poder político da burguesia, pode iniciar uma transição ao socialismo. O problema da maioria dos governos de centro-esquerda, seja na Europa ou na América Latina, é que as ‘reformas' que aplicam são muitas vezes de corte neoliberal: privatizações, regressões no estatuto dos pensionistas, etc. Tratam-se de variantes do social-liberalismo, que aceitam o quadro económico capitalista mas, contrariamente ao neoliberalismo reacionário, têm algumas preocupações sociais. É o caso dos governos Lula-Dilma no Brasil. Temo que no caso da França (François Hollande, recentemente eleito), nem a isto chegue...

Um desafio dessa esquerda que chegou ao poder na América Latina tem sido equacionar a dependência econômica da exploração de recursos naturais (como o petróleo na Venezuela e o gás natural na Bolívia) com a tentativa de superação da lógica capitalista de destruição do meio ambiente. Na sua opinião, essa equação é possível?

Contrariamente aos governos social-liberais, os da Venezuela, Bolívia e Equador têm levado adiante uma verdadeira rutura com o neoliberalismo, enfrentando as oligarquias locais e o imperialismo. Mas dependem, para a sua sobrevivência econômica  e para financiar os seus programas sociais, da exploração de energias fósseis – petróleo, gás –, que são os principais responsáveis pelo desastre ecológico que ameaça o futuro da humanidade. É difícil exigir destes governos que deixem de explorar estes recursos naturais, mas eles poderiam utilizar uma parte do rendimento do petróleo para desenvolver energias sustentáveis – o que fazem muito pouco. Uma iniciativa interessante é o projeto ‘Parque Yasuni', do Equador, proposta dos movimentos indígenas e dos ecologistas assumida, após algumas hesitações, pelo governo de Rafael Correa. Trata-se de preservar uma vasta região de florestas tropicais, deixando o petróleo embaixo da terra, mas exigindo, ao mesmo tempo, que os países ricos paguem metade do valor (9 mil milhões de dólares) deste petróleo. Até agora, não houve iniciativas comparáveis na Venezuela ou na Bolívia.

A crítica à destruição do meio ambiente como intrínseca ao capitalismo já estava presente na obra de Marx?

Muitos ecologistas criticam Marx por considerá-lo um produtivista, tanto quanto os capitalistas. Tal crítica parece-me completamente equivocada: ao fazer a crítica do fetichismo da mercadoria, é justamente Marx quem coloca a crítica mais radical à lógica produtivista do capitalismo, à ideia de que a produção de mais e mais mercadorias é o objetivo fundamental da economia e da sociedade. O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, jogar, amar. Portanto, Marx fornece as armas para uma crítica radical do produtivismo e, notadamente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as energias do trabalhador, mas também as próprias forças da Terra, esgotando as riquezas naturais, destruindo o próprio planeta. Assim, essa perspetiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx, embora não tenha sido suficientemente desenvolvida.

O Manifesto Ecossocialista, que o sr. ajudou a escrever em 2001, diz que o capitalismo não é capaz de resolver a crise ecológica que ele produz. Como o sr. analisa as soluções a esse problema que vêm sendo apresentadas pelo capitalismo, como é o caso da economia verde?

A assim chamada ‘economia verde', propagada por governos e instituições internacionais (Banco Mundial, etc), não é outra coisa senão uma economia capitalista de mercado que busca traduzir em termos de lucro e rentabilidade algumas propostas técnicas ‘verdes' bastante limitadas. Claro, tanto melhor se alguma empresa trata de desenvolver a energia eólica ou fotovoltaica, mas isto não trará modificações substanciais se não for acompanhado de drásticas reduções no consumo das energias fósseis. Mas nada disto é possível sem romper com a lógica de competição mercantil e rentabilidade do capital. Outras propostas ‘técnicas' são bem piores: por exemplo, os famigerados ‘biocombustíveis' que, como bem diz Frei Betto, deveriam ser chamados de ‘necrocombustíveis', pois tratam de utilizar os solos férteis para produzir uma pseudogasolina ‘verde', para encher os tanques dos carros – em vez de comida para encher o estômago dos famintos da terra.

É possível implementar uma perspetiva como a do ecossocialismo no capitalismo?

O ecossocialismo é anticapitalista por excelência. Como perspetiva, implica a superação do capitalismo, já que se propõe como uma alternativa radical à civilização capitalista/industrial ocidental moderna. Por outro lado, a luta pelo ecossocialismo começa aqui e agora, na convergência entre lutas sociais e ecológicas, no desenvolvimento de ações coletivas em defesa do meio ambiente e dos bens comuns. É através destas experiências de luta, de auto-organizaçâo, que se desenvolverá a consciência socialista e ecológica.

A perspectiva ecossocialista pressupõe uma crítica à noção de progresso. Em que consiste essa crítica?

Walter Benjamin insistia, com razão, que o marxismo precisa libertar-se da ideologia burguesa do progresso, que contaminou a cultura de amplos setores da esquerda. Trata-se de uma visão da história como processo linear, de avanços, levando, necessariamente, à democracia, ao socialismo. Estes avanços teriam sua base material no desenvolvimento das forças produtivas, nas conquistas da ciência e da técnica. Em rutura com esta visão – pouco compatível com a história do século 20, de guerras imperialistas, fascismo, massacres, bombas atômicas –, precisamos de uma visão radicalmente distinta do progresso humano, que não se mede pelo PIB [Produto Interno Bruto], pela produtividade ou pela quantidade de mercadorias vendidas e compradas, mas sim pela liberdade humana, pela possibilidade, para os indivíduos  de realizarem suas potencialidades; uma visão para a qual o progresso não é a quantidade de bens consumidos, mas a qualidade de vida, o tempo livre - para a cultura, o ócio, o desporto, o amor, a democracia - e uma nova relação com a natureza. Para o ecossocialismo, a emancipação humana não é uma ‘lei da história', mas uma possibilidade objetiva.

Quais as principais diferenças entre o ecossocialismo e a forma como o socialismo real lidou com os problemas ambientais? E a socialdemocracia, conseguiu construir alternativas a essa lógica destrutiva do capital?

O assim chamado ‘socialismo real' - muito real, mas pouco socialista - que se instalou na URSS sob a ditadura burocrática de Stalin e seus sucessores tratou de imitar o produtivismo capitalista, com resultados ambientais desastrosos, tão negativos quanto os equivalentes no Ocidente. O mesmo vale para os outros países da Europa Oriental e para a China. As intuições ecológicas de Marx foram ignoradas e se levou a cabo uma forma de industrialização forçada, copiando os métodos do capitalismo. A social-democracia é um outro exemplo negativo: nem tentou questionar o sistema capitalista, limitando-se a uma gestão mais ‘social' de seu funcionamento. Mesmo nos países em que governou em aliança com os partidos verdes, a social-democracia não foi capaz de tomar nenhuma medida ecológica radical. O ecossocialismo corresponde ao projeto de um socialismo do século 21, que se distingue dos modelos que fracassaram no curso do século 20. Ele implica uma rutura com o modelo de civilização capitalista e propõe uma visão radicalmente democrática da planificação socialista e ecológica.

A teoria da revolução no jovem Marx | Conferência de Michael Löwy (Espaço Revista CULT)


sábado, 22 de dezembro de 2012

24 anos da morte de Chico Mendes: o percursor do Ecossocialismo


Elson de Melo(*)

Chico Mendes foi assassinado no dia 22 de dezembro de 1988 quando saia para tomar banho no quintal de sua Casa em Xapuri(AC). Tomei conhecimento da sua morte pelo rádio na manhã seguinte. Foi um choque para mim que havia conhecido, por ocasião do Congresso de Fundação da CUT em 1983 na cidade de São Bernardo do Campo(SP) no pavilhão Vera Cruz, nos encontrávamos sempre em outros eventos pelo Brasil, como no seu julgamento na Auditoria Militar no Bairro de São Jorge em Manaus(AM), na época, embora sendo Presidente do PT em Manaus e credenciado para assistir o julgamento, não pode comparecer devido não ter conseguido ser liberado na empresa que trabalhava, mas mesmo assim nos vimos depois do evento.

Passado 24 anos, ainda guardo na memoria aquela fatídica notícia, que logo a seguir, fora confirmada na TV. Nessa hora, muitas interrogações passam na mente dos que compartilham da mesma ideia e de muitas lutas semelhantes, comigo não foi diferente, afinal eu ainda era apenas um jovem que iniciava a vida como operário na Zona Franca de Manaus e como Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, queria entender porque alguém conseguiu ter a coragem de assassinar uma pessoa tão dócil e humanista como era o grande Chico.

Que mal fez o Chico? Perguntava muito inquieto e apreensivo com tudo aquilo quem aconteceu com ele, e que certamente poderá acontecer comigo, e a qualquer pessoa que ousa desafiar a ordem estabelecida. Garanto a vocês que somente há pouco tempo consegui entender a dimensão da luta do Chico e dos seus camaradas seringueiros. No princípio achava que era apenas uma questão sindical, uma espécie de reivindicação como fazemos no sindicalismo urbano.

Não! Chico combatia a fúria do latifúndio predador e sanguinário, desafiava com os empates que organizava os senhores do poder instituído e a ordem estabelecida, Chico dava inicio a construção de uma nova ordem social, uma combinação de Ecologia e Socialismo. Chico é considerado hoje como o percursor do Ecossocialismo, como afirma Michael Löwy, em artigo: Razões e estratégias do Ecossocialismo :

Um exemplo de uma luta desse gênero, de um brasileiro que é para mim o precursor do ecossocialismo: Chico Mendes, um socialista confesso e convicto, e ecológico. Chico Mendes organizou a Aliança dos Povos da Floresta para defender a floresta como patrimônio comum dos povos indígenas e camponeses, patrimônio do povo brasileiro em seu conjunto, e também da humanidade. A defesa da floresta é uma causa do conjunto da humanidade porque, como se sabe, as florestas — em particular a Amazônia — são os chamados “poços de carbono” que absorvem os gases que estão na atmosfera. Se não houvesse essas florestas tropicais, o processo de aquecimento global já teria escapado de qualquer controle e já estaríamos no meio da catástrofe. O que ainda breca um pouco o processo são as florestas tropicais. Na Aliança dos Povos da Floresta, Chico Mendes fez um primeiro movimento em direção ao ecossocialismo, com a ideia de propriedade comum, bem comum dos povos, bem comum da humanidade.

Chico Mendes está vivo em cada um de nós...

História de Chico Mendes  

Chico Mendes, ainda criança, começou seu aprendizado do ofício de seringueiro, acompanhando o pai em excursões pela mata. Só aprendeu a ler aos 19 e 20 anos, já que na maioria dos seringais não havia escolas, nem os proprietários de terras tinham intenção de criá-las em suas propriedades.[2]

Iniciou a vida de líder sindical em 1975, como secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. A partir de 1976 participou ativamente das lutas dos seringueiros para impedir o desmatamento através dos "empates" - manifestações pacíficas em que os seringueiros protegem as árvores com seus próprios corpos. Organizava também várias ações em defesa da posse da terra pelos habitantes nativos.

Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, e foi eleito vereador pelo MDB local.

Recebe então as primeiras ameaças de morte, por parte dos fazendeiros, e começa a ter problemas com seu próprio partido, que não se identificava com suas lutas.

Em 1979 Chico Mendes reúne lideranças sindicais, populares e religiosas na Câmara Municipal, transformando-a em um grande foro de debates. Acusado de subversão, é submetido a interrogatórios. Sem apoio, não consegue registrar a denúncia de tortura que sofrera em dezembro daquele ano.

Representantes dos povos da floresta (seringueirosíndiosquilombolas) apresentam reivindicações durante 2º Encontro Nacional, emBrasília
Chico Mendes foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e um dos seus dirigentes no Acre, tendo participado decomícios com Lula na região.

Em 1980 foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional a pedido de fazendeiros da região, que procuraram envolvê-lo no assassinato de um capataz de fazenda, possivelmente relacionado ao assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores de BrasiléiaWilson Sousa Pinheiro.

Em 1981 Chico Mendes assume a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até sua morte. Candidato a deputado estadual pelo PT nas eleições de 1982, não consegue se eleger após isso ele começa a sofrer ameaças de mortes.

Acusado de incitar posseiros à violência, foi julgado pelo Tribunal Militar de Manaus, e absolvido por falta de provas, em 1984.

Liderou o 1º. Encontro Nacional dos Seringueiros, em outubro de 1985, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que se tornou a principal referência da categoria. Sob sua liderança a luta dos seringueiros pela preservação do seu modo de vida adquiriu grande repercussão nacional e internacional. A proposta da "União dos Povos da Floresta" em defesa da Floresta Amazônica busca unir os interesses dos indígenas, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas. Essas reservas preservam asáreas indígenas e a floresta, além de ser um instrumento da reforma agrária desejada pelos seringueiros.
Em 1986 participa das eleições daquele ano pelo PT-AC candidato a Deputado estadual ao lado de outros candidatos entre eles Marina Silva para Deputada federal, José Marques de Sousa o Matias para Senado, e Hélio Pimenta para Governador, não sendo nenhum deles eleito.[3]

Em 1987, Chico Mendes recebeu a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, que puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causadas por projetos financiados por bancos internacionais. Dois meses depois leva estas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Os financiamentos a esses projetos são logo suspensos. Na ocasião, Chico Mendes foi acusado por fazendeiros e políticos locais de "prejudicar o progresso", o que aparentemente não convence a opinião pública internacional. Alguns meses depois, Mendes recebe vários prêmios internacionais, destacando-se o Global 500, oferecido pela ONU, por sua luta em defesa do meio ambiente.

Ao longo de 1988 participa da implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre. Ameaçado e perseguido por ações organizadas após a instalação daUDR no Estado, Mendes percorre o Brasil, participando de seminários, palestras e congressos onde denuncia a ação predatória contra a floresta e as violências dos fazendeiros contra os trabalhadores da região.

Após a desapropriação do Seringal Cachoeira, em Xapuri, propriedade de Darly Alves da Silva, agravam-se as ameaças de morte contra Chico Mendes que por várias vezes denuncia publicamente os nomes de seus prováveis responsáveis. Deixa claro às autoridades policiais e governamentais que corre risco de perder a vida e que necessita de garantias. No 3º Congresso Nacional da CUT, volta a denunciar sua situação, similar à de vários outros líderes de trabalhadores rurais em todo o país. Atribui a responsabilidade pela violência à UDR. A tese que apresenta em nome do Sindicato de Xapuri, Em Defesa dos Povos da Floresta, é aprovada por aclamação pelos quase seis mil delegados presentes. Ao término do Congresso, Mendes é eleito suplente da direção nacional da CUT. Assumiria também a presidência do Conselho Nacional dos Seringueiros a partir do 2º Encontro Nacional da categoria, marcado para março de 1989, porém não sobreviveu até aquela data.

Morte de Chico Mendes

Em 22 de dezembro de 1988, exatamente uma semana após completar 44 anos, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa,[4] quando saía de casa para tomar banho. Chico anunciou que seria morto em função de sua intensa luta pela preservação da Amazônia, e buscou proteção, mas as autoridades e a imprensa não deram atenção. Casado com Ilzamar Mendes (2ª esposa), deixou dois filhos, Sandino e Elenira, na época com dois e quatro anos de idade, respectivamente. Em 1992, foi reconhecida, através de exames de DNA, uma terceira filha.

Após o assassinato de Chico Mendes mais de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o "Comitê Chico Mendes". Eles exigiam providencias e através de articulação nacional e internacional pressionaram os órgãos oficiais para que o crime fosse punido.

Em dezembro de 1990, a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão. Darly fugiu em fevereiro de 1993 e escondeu-se num assentamento do INCRA, no interior do Pará, chegando mesmo a obter financiamento público do Banco da Amazônia sob falsa identidade. Só foi recapturado em junho de 1996. A falsidade ideológica rendeu-lhe uma segunda condenação: mais dois anos e 8 meses de prisão (Fonte: Wikipédia).

(*) Elson de Melo é Sindicalista


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Castells vê “expansão do não-capitalismo”

Culturas econômicas alternativas teriam sido reforçadas pela crise. Mas sociólogo adverte: sistema não entrará em colapso por si mesmo

Por: Manuel Castells

Entrevista a Paul Mason | Tradução: Gabriela Leite | Imagem: Binho Ribeiro

O professor Manuel Castells é um dos sociólogos mais citados no mundo. Em 1990, quando os mais tecnologicamente integrados de nós ainda lutavam para conseguir conectar seus modens, o acadêmico espanhol já documentava o surgimento da Sociedade em Rede e estudava a interação entre o uso da internet, a contracultura, movimentos de protesto urbanos e a identidade pessoal.

Paul Mason, editor de notícias econômicas da rádio BBC, entrevistou o professor Castells na London School of Economics (Escola de Economia de Londres) sobre seu último livro, “Aftermath: The Cultures of Economic Crisis” (“Resultado: as Culturas da Crise Econômica”), ainda sem tradução para português.

Castells sugere que talvez estejamos prestes a ver o surgimento de um novo tipo de economia. Os novos estilos de viver dão sentido à existência, mas a mudança tem também um segundo motor: consumidores que não têm dinheiro para consumir.

São práticas econômicas não motivadas pelo lucro, tais como o escambo, as moedas sociais, as cooperativas, as redes de agricultura e de ajuda mútua, com serviços gratuitos – tudo isso já existe e está se expandindo ao redor do mundo, diz ele. Se as instituições políticas vão se abrir para as mudanças que acontecem na sociedade – é cedo para saber. Seguem trechos da conversa.

O que é surgimento de novas culturas econômicas?

Quando menciono essa Cultura Econômica Alternativa, é uma combinação de duas coisas. Várias pessoas têm feito isso já há algum tempo, porque não concordam com a falta de sentido em suas vidas. Agora, há algo mais — é a legião de consumidores que não podem consumir. Como não consomem — por não terem dinheiro, nem crédito, nem nada — tentam dar sentido a suas vidas fazendo alguma coisa diferente. Portanto, é por causa das necessidades e valores — as duas coisas juntas — que isso está se expandindo.

Você escreveu que as economias são culturais. Pode falar mais sobre isso?

Se queremos trabalhar para ganhar dinheiro, para consumir, é porque acreditamos que comprando um carro novo ou uma nova televisão, ou um apartamento melhor, seremos mais felizes. Isso é uma forma de cultura. As pessoas estão revertendo essa noção. Pelo contrário: o que é importante em suas vidas não pode ser comprado, na maioria dos casos. Mas elas não têm mais escolha porque já foram capturadas pelo sistema. O que acontece quando a máquina não funciona mais? As pessoas dizem “bem, eu sou mesmo burro. Estou o tempo todo correndo atrás de coisa nenhuma”.

Qual a importância dessa mudança cultural?

É fundamental, porque desencadeia uma crise de confiança nos dois maiores poderes do mundo: o sistema político e o financeiro. As pessoas não confiam mais no lugar onde depositam seu dinheiro, e não acreditam mais naqueles a quem delegam seu voto. É uma crise dramática de confiança – e se não há confiança, não há sociedade. O que nós não vamos ver é o colapso econômico per se, porque as sociedades não conseguem existir em um vácuo social. Se as instituições econômicas e financeiras não funcionam, as relações de poder produzem transformações favoráveis ao sistema financeiro, de forma que ele não entre em colapso. As pessoas é que entram em colapso em seu lugar.

A ideia é que os bancos vão ficar bem, nós não. Aí está a mudança cultural. E grande: uma completa descrença nas instituições políticas e financeiras. Algumas pessoas já começam a viver de modo diferente, conforme conseguem – ou porque desejam outras formas de vida, ou porque não têm escolha. Estou me referindo ao que observei em um dos meus últimos estudos sobre pessoas que decidiram não esperar pela revolução para começar a viver de outra maneira – o que resulta na expansão do que eu chamo de “práticas não-capitalistas”.

São práticas econômicas, mas que não são motivadas pelo lucro – redes de escambo, moedas sociais, cooperativas, autogestão, redes de agricultura, ajuda mútua, simplesmente pela vontade de estar junto, redes de serviços gratuitos para os outros, na expectativa de que outros também proverão você. Tudo isso existe e está se expandindo ao redor do mundo.

Na Catalunha, 97% das pessoas que você pesquisou estavam engajadas em atividades econômicas não-capitalistas.

Bem, estão entre 30-40 mil os que são engajados quase completamente em modos alternativos de vida. Eu distinguo pessoas que organizam a vida conscientemente através de valores alternativos de pessoas que têm vida normal, mas que têm costumes que podem ser vistos como diferentes, em muitos aspectos. Por exemplo, durante a crise, um terço das famílias de Barcelona emprestaram dinheiro, sem juros, para pessoas que não são de sua família.

O que é a Sociedade em Rede?

É uma sociedade em que as atividades principais nas quais as pessoas estão engajadas são organizadas fundamentalmente em rede, ao invés de em estruturas verticais. O que faz a diferença são as tecnologias de rede. Uma coisa é estar constantemente interagindo com pessoas na velocidade da luz, outra é simplesmente ter uma rede de amigos e pessoas. Existe todo tipo de rede, mas a conexão entre todas elas – sejam os mercados financeiros, a política, a cultura, a mídia, as comunicações etc –, é nova por causa das tecnologias digitais.

Então, nós vivemos numa Sociedade em Rede. Podemos deixar de viver nela?

Podemos regredir a uma sociedade pré-eletricidade? Seria a mesma coisa. Não, não podemos. Apesar de agora muitas pessoas estarem dizendo “por que não começamos de novo?” É um grande movimento, conhecido como “decrescimento”. Algumas pessoas querem tentar novas formas de organização comunitária etc.

No entanto, o interessante é que, para as pessoas se organizarem e debaterem e se mobilizarem pelo decrescimento e o comunitarismo, elas têm que usar a internet. Não vivemos numa cultura de realidade virtual, mas de real virtualidade, porque nossa virtualidade – significando as redes da internet – é parte fundamental da nossa realidade. Todos os estudos mostram que as pessoas que são mais sociáveis na internet são também mais sociáveis pessoalmente.

Existem diversos grupos que hoje protestam sobre o assunto A, amanhã sobre o assunto B, e à noite jogam World of Warcraft (jogo RPG online de aventura). Mas será que eles vão conseguir o que Castro e Guevara conquistaram?

O impacto nas instituições políticas é quase insignificante, porque elas são hoje impermeáveis a mudanças. Mas, se você olhar para o que está acontecendo em termos de consciência… há coisas que não existiam três anos, como o grande debate sobre a desigualdade social.

Em termos práticos, o sistema é muito mais forte do que os movimentos nascentes… você atinge a mente das pessoas por um processo de comunicação, e esse processo, hoje, acontece fundamentalmente pela internet e pelo debate. É um processo longo, que vai das mentes das pessoas às instituições da sociedade. Vamos usar um exemplo histórico: a partir do fim do século XIX, na Europa, existiam basicamente os Conservadores e os Liberais, direita e esquerda. Mas então alguma coisa aconteceu – a industrialização, os movimentos da classe trabalhadora, novas ideologias. Nada disso estava no sistema político. Depois de vinte ou trinta anos, vieram os socialistas e depois a divisão dos socialistas… e os liberais basicamente desapareceram. Isso mudará a política, mas não por meio de ações políticas organizadas da mesma maneira. Por quê? Porque as redes não necessitam de organizações hierárquicas.

Onde isso vai dar?

Tudo isso não vai virar uma grande coalizão eleitoral, não vai virar nenhum novo partido, nenhum novo coisa nenhuma. É simplesmente a sociedade contra o Estado e as instituições financeiras – mas não contra o capitalismo, aliás, contra insitituições financeiras, o que é diferente.

Com esse clima, acontece que nossas sociedades se tornarão cada vez mais ingovernáveis e, em consequência, poderá ocorrer todo tipo de fenômeno – alguns muito perigosos. Veremos muitas expressões de formas alternativas de política, que escaparão das correntes principais de instituições políticas tradicionais. E algumas, é claro, voltando ao passado e tentando construir uma comunidade primitiva e nacionalista para atacar todos os outros movimentos e, finalmente, conseguir ter uma sociedade excluída do mundo, que oprime seu próprio povo.

Mas acontece que, em qualquer processo de mudança social desorganizada e caótica, todos esses fenômenos coexistem. E o modo como atuam uns contra os outros vai depender, em última análise, de as instituições políticas abrirem suficientemente seus canais de participação para a energia de mudança que existe na sociedade. Então talvez elas possam superar a resistência das forças reacionárias que também estão presentes em todas as sociedades.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Conjuntura e projetos


ESCRITO POR WLADIMIR POMAR       

Há algumas análises sobre a presente conjuntura no Brasil, na América Latina e no mundo, para os quais haveria atualmente três grandes projetos em disputa. De um lado, o projeto do grande capital das corporações transnacionais, ainda hegemônico do ponto de vista econômico, ideológico, político e militar, que tenta se renovar e gerar um novo ciclo de acumulação e de controle. De outro, haveria um projeto de integração capitalista, no qual as burguesias locais procurariam desenvolver o capitalismo e realizar sua própria acumulação, mesmo em contradição com o grande capital hegemônico.

Marginalmente a esses dois projetos de caráter capitalista haveria um terceiro, de cunho popular, que objetivaria reorganizar a economia de cada país no sentido de dar solução aos problemas do povo, principalmente os relacionados à fome e à falta de terra, trabalho, moradia e educação. A primeira lacuna dessa análise reside no fato de que as conjunturas dos países centrais – Estados Unidos e Europa Ocidental – são diferentes das conjunturas dos países africanos, asiáticos e latino-americanos. Além disso, a conjuntura de cada um dos países desses blocos difere em muitos aspectos.

Por exemplo, a crise norte-americana tem raízes profundas na crescente desindustrialização da sua economia, na desregulamentação quase completa do seu sistema financeiro especulativo, no monstruoso déficit fiscal do seu Estado, em grande parte decorrente das despesas em armamentos e guerras, e na crescente incapacidade da sua população em manter o emprego e a capacidade de consumo. A crise na Europa está relacionada com a política alemã, e em parte francesa, de manter suas indústrias à custa da desindustrialização dos demais países europeus, cujas sociedades passaram a funcionar à custa de transferências financeiras, aparentemente como doações, que causaram grandes rombos fiscais nos Estados. Enquanto o governo Obama procura resolver a crise dos Estados Unidos através de políticas de incentivo industrial e de tributação das grandes fortunas, políticas emparedadas pelo Congresso, o governo alemão está forçando os países europeus quebrados a aplicarem arrochos neoliberais. Do ponto de vista político, a reação conservadora à crise nos Estados Unidos e na Europa continua se fortalecendo, inclusive com o surgimento de correntes ultradireitistas, enquanto a reação popular ainda parece não ter objetivos nem direção política claros.

As conjunturas de cada país latino-americano também diferem. Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Chile, que nunca conseguiram desenvolver uma indústria própria de porte e, em vários casos, nem mesmo uma agricultura moderna, embora possuam grandes reservas de recursos naturais, se veem às voltas com a necessidade de se industrializarem, até mesmo para explorar melhor alguns desses recursos, além de enfrentarem classes dominantes muito reacionárias. A Argentina e o Brasil, que já tiveram uma indústria desenvolvida, praticamente quebrada pelo período neoliberal, se encontram diante da necessidade de reconstruir suas indústrias nacionais, tendo como eixo a nova revolução científica e tecnológica e o fato de que a maior parte do parque industrial, que restou da destruição neoliberal, se encontra monopolizada por corporações transnacionais. E ambos também enfrentam a crescente concentração agrária, voltada para o mercado internacional, paralelamente a um constante processo de expropriação das economias agrícolas familiares, responsáveis pela produção para o mercado interno e, portanto, pela seguridade alimentar de suas sociedades.

Paradoxalmente, a quebradeira neoliberal na América Latina, que atingiu também os Estados de cada país, rachou as classes dominantes e as burguesias locais, permitindo a surpreendente vitória eleitoral de partidos de esquerda, em geral em coligação com partidos de centro e centro-direita, e o estabelecimento de governos de coalizão. Esses governos se veem, em geral, obrigados a resolver não só os problemas imediatos de profunda miséria e pobreza, analfabetismo real e funcional, desemprego, ausência de assistência médica etc. etc., mas também os problemas estruturais relacionados com o desenvolvimento da infraestrutura econômica e da indústria, reforma agrária, reforma política etc. etc. O problema desses governos é que eles não possuem coesão, nem força política, e nem apoio social firme, para realizar as reformas estruturais, além de enfrentarem resistências diversas para resolver os problemas imediatos, inclusive dentro dos próprios partidos tidos como de esquerda. A grande fase de descenso das mobilizações sociais nesses países parece continuar, embora haja pequenos indícios de que algo se move no sentido de sair da estagnação. Porém, não há certeza de que isso se torne uma realidade a curto prazo.

Se olharmos as coisas com realismo, talvez tenhamos que reconhecer que, com exceção da Ásia, tanto os capitalismos desenvolvidos norte-americano e europeu, quanto os capitalismos em desenvolvimento na América Latina e na África, assim como os movimentos populares em quase todo o mundo, atravessam a presente conjuntura debatendo-se para sair das crises, grandes e pequenas, em que foram jogados. Seus projetos não são claros, seja para o futuro imediato, seja para o futuro de mais longo prazo. No caso dos movimentos sociais, alguns acham que podemos lutar pelo socialismo sem passar pelas dores do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, parecendo retomar do início uma discussão da socialdemocracia operária do final do século 19 e começo do século 20. Outros acham que desenvolver as forças produtivas significa apenas desenvolver os meios de produção, a tecnologia e a capacidade de produção. Esquecem que, para um projeto popular, o aspecto mais importante do desenvolvimento das forças produtivas consiste no crescimento da força social da classe dos trabalhadores assalariados e de sua luta econômica, social e política. Em outras palavras, já deveria estar suficientemente claro que um projeto popular, para se cristalizar no mundo atual, seja nos países desenvolvidos, seja nos países em desenvolvimento, precisa ter o capitalismo como contraponto.

No caso brasileiro, como no caso de alguns outros países latino-americanos, africanos e asiáticos em que vigora o capitalismo, e nos quais a esquerda se tornou governo, ou parte importante de governos de coalizão, sem que existam fortes mobilizações reformistas e/ou revolucionárias, a situação é ainda mais complexa. Esses governos precisam ter como eixo de sua ação o revigoramento quantitativo e qualitativo da classe dos trabalhadores assalariados, o que só pode ser feito se houver o crescimento do capitalismo, em especial do capitalismo intensivo em trabalho.

A engenharia política, social e econômica necessária para isso passa por planos de desenvolvimento e investimento que saibam combinar adequadamente o crescimento de indústrias intensivas em capital, ou em ciências e tecnologias, e de indústrias que empreguem tecnologias tradicionais, mas empreguem muitos trabalhadores. Portanto, paradoxalmente, projetos populares nesses países não podem abdicar de tratar dessa questão. Mesmo porque não passa de ilusão supor que haverá uma retomada dos movimentos populares de massa sem ter como suporte um poderoso contingente de trabalhadores assalariados.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

sábado, 10 de novembro de 2012

Manual do Militante


MANUAL DO MILITANTE

MILITANTE: Logo que alguém começa a militar vemos inicialmente uma sede pela militância, que muitas vezes se não for bem direcionada acaba como faísca, vão com tanta sede ao pote que ao não verem resultados rápidos acabam desanimando.

É importante o militante compreender o processo dialético da militância, ele enxergar além daquele momento, tentar visualizar o que suas ações trarão de consequência para o futuro. Poderá ocorrer de inicialmente o militante não ter muita politização.

Neste caso ele terá que ter cuidado com os "achismos" mas nem por isso deve deixar de investigar, questionar e elaborar.

MILITANTE ORGÂNICO: É aquele que tem iniciativa própria, que pensa o partido, respira o partido, é o partido. Ele busca se informar sobre todas as atividades e se esforça para estar presente nelas. Ele não se restringe a sua célula, núcleo ou corrente. Ele quer debater com todos. Mas insufla em seu peito a politica de sua corrente e sabe da necessidade de estar bem informado para a construção de argumentos que provarão a politica de sua corrente e de seu pensamento. O militante orgânico preocupa-se em saber debater, argumentar, escrever. Ele acima de tudo quer construir o partido.

Ele percebe que um argumento seu, poderá ser decisivo em uma plenária.

O militante Orgânico procura identificar aonde mais e melhor ele pode atuar, tanto dentro do partido como no meio em que está inserido, seu trabalho, sua comunidade, etc...

Procurando por exemplo na sua comunidade o que esta faltando, quais as necessidades que os assolam. E, cria um projeto para levar ao encontro do partido, ele conversa com os membros do partido tentando identificar o que poderão fazer na construção deste projeto e dialoga a respeito com os membros de sua comunidade. Sem esquecer que este projeto deve ser em pró da questão social. Deve ser uma construção socialista e que seu dever de revolucionário é engajar a todos para a construção de um mundo melhor.

Assim como fez o jovem revolucionário Ernesto Che Guevara que em uma de suas passagens podemos destacar sua prisão no México junto com Fidel e demais revolucionários que futuramente desembarcariam em Sierra Maestra.

Durante o interrogatório que se seguiu, enquanto todos inclusive Fidel negaram serem socialistas, Che além de confessar seus ideais, ainda tentou convencer seus interrogadores a se tornarem socialistas também(livro de Jon Lee Anderson, pág. 239)

SIMPATIZANTE: É aquele que simpatiza com politicas do partido, ou simpatiza com membros do partido. Você já deve ter ouvido a expressão "eu voltei no fulano porque simpatizo com ele", ou "eu não voto no partido voto na pessoa". Normalmente este simpatizante não é politizado.

Mas há também simpatizantes que são politizados como, por exemplo, membros de DCES, ou grupos que tem alguma atuação politica mesmo que não partidária. Como ONGS, Sindicatos, estudantes, etc... Vemos muitos simpatizantes participarem de Plenárias, cursos e até atos públicos.

MILITANTE ESPORÁDICO: É aquele que é filiado, mas devido ao trabalho, faculdade, família etc... Tem pouco tempo para militar, este militante poderá contribuir muito usando seu tempo disponível utilizando, por exemplo, a internet, e é necessário não perdermos contato com este camarada, pois nem por isso ele deixa de ser valoroso e futuramente pode ser que ele tenha mais tempo pra militar, ao terminar a faculdade, por exemplo, e seu conhecimento acadêmico neste caso será de grande contribuição. Este militante independente de seus motivos no momento, serem família, Faculdade ou trabalho, tem grande probabilidade de um dia se tornar orgânico.

Glossário Marxismo-PAQ

Conceitos básicos das três fontes do marxismo:
Filosofia Dialética alemã;
Economia Política inglesa;
E, Política Socialista francesa.

Filosofia

Materialismo Histórico Dialético: O materialismo em contraposição ao idealismo é a concepção filosófica de que o ser precede a consciência, que a natureza precede o espírito, pois a consciência e o espírito são produtos da capacidade racional humana, desenvolvida pelo sua evolução concreta como espécie. A dialética, desenvolvida por Hegel é um avanço na tecnologia do pensamento filosófico, como uma superação da lógica puramente formal, e dos próprios dogmatismos sendo usada pra determinar as leis do movimento, e ela se prova pelo próprio avanço das ciências naturais. Marx por meio das contribuições do materialismo histórico-dialético elaborou um novo meio de analisar a história e a política tendo por ponto de partida as contradições, os conflitos e suas bases objetivas, possibilitando um entendimento mais universal do processo histórico e civilizatório até então inviável para outras teorias anteriores.

Totalidade Concreta: É uma categoria do materialismo que define que a unidade do mundo não se consiste no ser, mas consiste em sua materialidade, pois a concretude unifica e determina o ser e esse ser material está em constante movimento pois não há matéria sem movimento e movimento sem matéria, tal como provam as próprias ciências naturais.

Movimento da Realidade: Segundo a dialética marxista a realidade não estática, é em sua totalidade vários processos de constantes transformações e a realidade não muda de forma gradual e previsível, mas seguindo as leis da lógica dialética, ou seja em saltos de qualidade(similares aos saltos quânticos) com um desenvolvimento em espiral, pela transformação da quantidade em qualidade.

Luta de Classes: Condição na qual a história se move, por meio dos conflitos sociais econômicos e políticos entre setores sociais com interesses antagônicos nos diferentes modos de produção, entre oprimidos e opressores: tanto do entre escravo e senhor, servo e barão, trabalhador e burguês. Essa luta se dá de forma ininterrupta hora mais acirrada, hora mais velada e o marxismo é a ferramenta teórica e prática desenvolvida para que os debaixo enfrentem os de cima e mudem o mundo conforme seus interesses.

Economia Política

Mercadoria: coisa que satisfaz uma necessidade humana e pode ser trocada ou negociada e produto de determinado tempo de trabalho cristalizado.

Valor de Uso: valor estabelecido por sua utilidade.

Valor de Troca: valor relacional de proporção de troca de uma mercadoria por outra direta (escambo) ou indiretamente(compra e venda por intermédio de moeda).

Capital: ao contrário da lei geral da circulação de mercadorias em que M-D-M, o capital circula de D-M-D, onde o dinheiro fruto de lucro é reinvestido na produção (não simplesmente entesourado) e capaz de comprar meios de produção e explorar força de trabalho.

Capital Constante: Capital investido em meios de produção como máquinas e ferramentas.

Capital Variável: capital investido no pagamento de mão-de-obra
  
Mais Valia: relação social de produção em que se explora a compra de uma mercadoria cujo valor de uso fosse ser uma fonte de valor, que é a força de trabalho humana, que é comprada com salário (trabalho socialmente necessário para a manutenção da mercadoria, ou seja, a vida do trabalhador) que representa apenas uma parte do trabalho produzido. As horas não pagas, o sobre trabalho é apropriado pelo burguês, esta é a mais valia.

Mais Valia absoluta: mais valia obtida pelo aumento do tempo de trabalho sem aumento de remuneração(redução do investimento em capital variável).

Mais Valia Relativa: mais valia obtida pelo investimento em capital constante, com instrumentos de tecnologia mais eficiente obtendo um maior produto.

Exército Reserva: camada do proletariado estruturalmente desempregada a fim de desvalorizar o salário daqueles que estão empregados.

Crise de Superprodução: crise mais comum no capitalismo fruto do excessivo investimento de capitais na produção de mercadorias e a incapacidade de vendê-las.

Trabalho: aquilo que o homem faz para transformar a natureza e gerar valor.


Infraestrutura: organização social concreta das inter-relações com os homens com a natureza e a sua produção para satisfazer suas necessidades.

Superestrutura: relações de organização da vida social do ponto de vista político e ideológico, e composta pelo Estado, Exército, Justiça, Igreja, Escola, Sindicatos, Partidos...

Forças produtivas: A força de trabalho e os meios de produção (terras, maquinas, ferramentas etc...).

Classe: Grupo social em que se determina o papel social em que indivíduos ou coletivos exercem na produção e na organização social.

Estado: Entidade com monopólio do uso da força é quem garante por meio da superestrutura do aparelho repressor e o aparelho ideológico a exploração da classe dominante sobre as classes exploradas.

Modo de produção: maneira em que a sociedade se organiza historicamente para as relações de produção e as classes que o compõe

Modo de produção Comunista Primitivo: Típicos da pré-história homens trabalham e consomem coletivamente, não há classes sociais nem propriedade privada de meios de produção nem acúmulo de excedente. Igualitário, porém pouco desenvolvido.

Modo de produção Asiático: Típico da Antiguidade Oriental Sociedade de castas, com uma classe com controle burocrático de terras, águas irrigáveis e do Estado, com posse de excedente econômico, apenas administrando o trabalho de outra classe, na posição de servidão.

Modo de produção Escravista: Sociedade de classes, típica da Antiguidade Ocidental, baseada na propriedade privada de meios de produção e do excedente econômico, com a classe dominante tendo propriedade inclusive dos trabalhadores, os escravos que eram comprados e vendidos como mercadoria, sendo também um meio de produção

Modo de produção Feudal: Modo de produção medieval, em que há uma classe dos servos ligados à terra é explorada e deve sustentar as “classes” militar e eclesiásticas, e a classe dos senhores feudais, nobres que exploram os servos na terra que arrendam de outro nobre, que arrenda de outro nobre as terras que são do rei o suserano de todos.

Modo de produção Capitalista: Modo de produção predominante atualmente, consolidado com o advento da industrialização e as revoluções democráticas burguesas, em que há duas principais classes antagônicas, a burguesia, dona dos meios de produção que extrai mais-valia explorando o proletariado que apenas possui força de trabalho.

Modo de produção Comunista: modo de produção em que não há classes nem Estado, nem propriedade privada de meios de produção, a economia é planificada e os próprios trabalhadores dirigem democraticamente a produção e a política. Esse estágio civilizatório é possível por meio de uma revolução socialista internacional, fruto da mobilização dos “de baixo” e da organização de uma vanguarda versada no marxismo.

Ditadura democrática do proletariado: regime político em que há supremacia da maioria (povo proletariado) que governa em detrimento da minoria dos burgueses, que governa no capitalismo.

MEDITAÇÃO

É por força que medito em minha mente inquieta e socialista, para que eu possa fazer o meu melhor possível me tornando um autentico revolucionário, honrando tudo aquilo que eu sinto ser verdadeiro."

Campeão Fabian