quarta-feira, 6 de abril de 2011

A catástrofe que anuncia um Japão radicalmente novo

Internacional
Kojin Karatani

Um reconhecido filósofo marxista libertário japonês reflete sobre a catástrofe de Fukushima e o futuro do capitalismo como cultura econômico-social.

Foto: www.flickr.com/photos/greenpeacemiami/.

Eu ia pelas ruas de Tóquio quando aconteceu o terremoto. O solo tremeu com violência, enquanto bailavam ante meus olhos e durante um bom momento os edifícios. Nunca havia experimentado, nem de longe, coisa semelhante, e me dei conta naquele instante de que algo terrível havia acontecido. O primeiro que veio à cabeça foi o terremoto de Kobe em 1995, no qual morreram mais de 6 mil pessoas. Ainda que não tenha experimentado pessoalmente o terremoto de Kobe, ele afetou minha região de origem, na qual viviam muitos parentes e amigos, de maneira que percorri sem demora o cenário do desastre. Andei pelas ruas, e vi edifício após edifício convertido em ruína.

É evidente que o atual ultrapassa por muito o desastre do terremoto de Kobe. Pois também inclui o dano inflingido pelo tsunami às regiões costeiras ao longo de centenas de quilômetros, assim como o perigo de uma catástrofe nuclear. Não são, no entanto, as únicas diferenças. O terremoto de Kobe foi completamente inesperado. À parte um punhado de especialistas, ninguém havia concebido a possibilidade de um terremoto ali. O terremoto recente, por outro lado, foi antecipado. Os terremotos e os tsunamis vêm há eras assolando a região nordeste do Japão, e nos últimos anos tinha-se ouvido frequentes alertas. Por outro lado, a energia nuclear sempre levantou uma forte oposição, fortes críticas e não menos fortes alertas. Contudo, a escala do terremoto superou qualquer prognóstico. Não é que a escala do tamanho do desastre não pudesse ser antecipada, mas sim que isto se evitou intencionalmente.

Há outra diferença. Ainda quando o terremoto de Kobe ocorreu depois do fim da economia da bolha dos 1980, quando a recessão econômica estava já em curso, as pessoas, todavia, ainda não tinham se dado conta plenamente da disfunção da economia japonesa de alto crescimento. Por isso o terremoto de Kobe apareceu inicialmente como um símbolo da decadência econômica japonesa. O que, entretanto, foi caindo no esquecimento, à medida que a nação se esforçava para recuperar uma época em que se falava do Japão como "o número um".

Mas, a consciência do declive econômico japonês estava muito difundida já antes do atual terremoto. A minguante taxa de natalidade e o envelhecimento da população não deixavam margem para uma visão cor de rosa. Ainda quando a podre retórica nacionalista a favor de um renascimento do Japão como superpotência econômica segue dominando nossos principais meios de comunicação, no coração do povo está arraigada outra visão, mais realista, pronta a admitir uma perspectiva indefinida de baixo crescimento e a necessidade de construir outra economia e outra sociedade civil novas. Neste aspecto, o recente terremoto não chega como um choque surpreendente para a economia. Na verdade, fortalecerá as já presentes tendências, vindo em certo sentido reafirmar e pôr no centro os assuntos que se deixaram de lado depois do terremoto de Kobe.

O que primeiro me impressionou do desastre de Kobe foi a relativa compostura dos anciãos que haviam perdido seus lares. Sua atitude era a de que, tendo começado do nada das arrasadas ruínas da II Guerra Mundial, não fariam agora outra coisa senão começar de novo do nada. Logo, surgiu uma multidão de jovens voluntários crescidos na época da prosperidade, vindos de todo o Japão para ajudar e formar comunidades de ajuda mútua. Esse fenômeno não era único do Japão. Escutei falar de milagres parecidos quando do terremoto de Sichuan na China.

Depois de examinar o terremoto de São Francisco em 1906 e outras catástrofes posteriores parecidas em seu livro Um paraíso construído no inferno, Rebecca Solnit concluiu que essas extraordinárias comunidades nascem do desastre. Se crê comumente que quando se dissipa a ordem surge um Estado hobbesiano de natureza no qual os humanos se comportam como lobos com outros humanos. O certo é, contudo, que as mesmas pessoas que se olham com mútuo temor sob uma ordem social criada pelo Estado, formam comunidades de ajuda mútua em meio ao caos engendrado pelo desastre, um tipo espontâneo de ordem que difere visivelmente do que se dá sob o Estado.

Foi este tipo de comunidade a que nasceu da catástrofe gerada pelo terremoto de Kobe. Mas também cumpriu seu papel a particular experiência histórica do Japão. Pois as ruínas provocadas pelo terremoto evocavam poderosamente as condições psicológicas que se seguiram à II Guerra Mundial, quando o povo se juntou para refletir sobre a guerra e sobre a história do Japão moderno que levou a ela. O "paraíso" que se formou nas sequelas do desastre foi, no entanto, efêmero, e a memória da guerra desapareceu com ele.

Quando se restaurou a ordem depois do terremoto de Kobe, a tendência que se impôs foi a de servir-se do desastre como uma oportunidade para fazer negócios com o renascimento econômico. O primeiro-ministro Koizumi incentivou mais, se possível, políticas neoliberais, e violou a pacifista constituição de pós-guerra enviando, sob a alcunha de "Auto-Defesa", forças japonesas ao Iraque. No final, o resultado foi a estagnação econômica e um hiato crescente entre ricos e pobres. Conseqüência: o Partido Liberal-Democrático, que se mantinha há eras nos poder, teve que cedê-lo ao Partido Democrático do Japão. Porém, a nova administração foi incapaz de embarcar num novo curso.

Tal é a situação em que aconteceu o recente terremoto. Uma vez mais, o desastre evocou as carbonizadas ruínas do pós-guerra. Ademais, a crise na central nuclear de Fukushima não pode senão trazer à memória as recordações de Hiroshima e Nagasaki. Os japoneses do pós-guerra têm uma grande aversão às armas nucleares e à energia nuclear em geral. Desnecessário dizer que havia uma forte oposição à construção de centrais energéticas nucleares no Japão. No entanto, a conseqüência dos choques petroleiros dos 1970, o Estado afirmou e estimulou o desenvolvimento de usinas nucleares. As primeiras campanhas proclamavam a necessidade da energia nuclear para o crescimento econômico, enquanto que nos últimos anos se preferia dizer que a energia nuclear podia contribuir com a redução das emissões de carbono, e, por isto, aliviar os impactos sobre o meio ambiente. Que tais slogans publicitários não eram senão uma forma criminosa de engano por parte da indústria e do governo é algo que ficou claro e passou a ter crédito devido aos acontecimentos destas últimas semanas.

Entre as ruínas do Japão do pós-guerra as pessoas refletiram sobre o caminho percorrido pelo Japão moderno. Entre disputas com as potências ocidentais, os japoneses modernos aspiravam ao status de uma grande potência militar. A evaporação desse sonho na derrota militar da nação levou a outro objetivo, o de converter-se em uma grande potência econômica. O colapso final desta ambição foi notavelmente explicitado pelo terremoto recente. Ainda que não houvesse o terremoto, ela estava condenada ao fracasso. A verdade é que o que está fracassando não é somente a economia japonesa. No começo dos 1970, o capitalismo mundial entrou em um período de grave recessão e desde então foi incapaz de se sobrepor à queda tendencial da taxa de lucro. O capital buscou uma via de saída deste declive através do investimento financeiro global e mediante a extensão do investimento industrial ao que antes se chamavam regiões do "terceiro mundo". O colapso desta estratégia tornou-se evidente no chamado "choque de Lehman". Além disso, o desenvolvimento acelerado de países como China, Índia e Brasil segue seu curso. Mas esse acelerado crescimento não pode durar muito. É inevitável que os salários cresçam e se alcance um limite no consumo.

Por isso o capitalismo global será insustentável em 20 ou 30 anos. Mas o final do capitalismo não é o final da vida humana. Ainda sem o desenvolvimento capitalista, ainda sem competição, as pessoas são perfeitamente capazes de viver. É verdade: a economia capitalista não se extinguirá simplesmente. Resistindo ao seu final, as grandes potências seguirão sem dúvida combatendo pelos recursos naturais e pelos mercados. Mas creio que os japoneses não voltarão nunca mais a aceitar tal caminho. Sem o recente terremoto, o Japão estaria sem disputa prosseguindo seu triste combate por um status de grande potência; este sonho é agora inconcebível, e há de ser abandonado. O que o terremoto produziu não é a morte do Japão, mas sim a possibilidade de seu renascimento. Bem poderia ser que somente entre ruínas possam os povos ganhar a valentia necessária para tomar um rumo radicalmente novo.

30 de março de 2011

Kojin Karatani (Amagasaki, agosto de 1941), professor da Universidade Meiji de Tóquio, é um filósofo marxista libertário japonês internacionalmente reconhecido.

Tradução: Cainã Vidor.

Original: Sin Permiso

Fonte: Revista Fórum

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