segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Carlos, a Face Oculta de Marighela"

História
Paulo Marçaioli

O sentido da Face Oculta

A biografia de Carlos Marighela é também uma dissertação de mestrado de História Social. Seu objeto é a análise da trajetória pessoal e militante de Carlos Marighela, destacando as formas como sua personalidade (particularmente a sua sensibilidade no trato com as pessoas e sua impetuosidade) vão ter implicações nos desdobramentos políticos relacionados ao movimento comunista brasileiro do séc. XX., especificamente o PCB e a ALN.

A ideia da "face oculta", aqui, refere-se a uma preocupação que perpassa toda a biografia: o esforço por parte do autor da biografia(esforço até certo ponto militante) de ir desconstruindo toda imagem criada pela ditadura militar sobre a personagem.

Carlos Marighela, o "inimigo número um da ditadura militar", foi retratado pelo regime e órgãos de imprensa da época (como não poderia deixar de ser) como um terrorista, um militante "radical e profissional", sem qualquer compaixão pelo ser humano e altamente perigoso. Não é preciso aqui destacar os papeis dos aparelhos de propaganda ideológica durante o regime militar brasileiro nem é muito difícil compreender o que está por trás da forma como o regime buscou caracterizar Marighela. O personagem sofrera em 1964 um atentado por policiais em plena sessão de cinema: oficiais invadem uma sala, atiram em Carlos Marighela, este sobrevive, resiste e é levado preso. Sua prisão e o relato da tentativa de assassinato pela repressão deram origem ao relato "Por que resisti a prisão", um documento político voltado à mobilizar a luta contra o regime. Assim sendo, todo esforço em criar a face do assassino cruel e desumano sinaliza alguma preocupação das autoridades acerca das possibilidades de Marigela credenciar-se como uma liderança ou mesmo um herói.

Já a face oculta, trabalhada pela dissertação de Edson Teixeira, aborda os traços de afetuosidade, coragem pessoal e valores políticos que caracterizam Marighela. O oposto do que fora pintado pelos militares, portanto. Para tanto, há o esforço em descrever aspectos de sua vida familiar, relatos de parentes acerca da infância e adolescência do militante revolucionário e algumas históricas que vão sinalizando aspectos da personalidade individual.

Vida Privada

Marighela gostava de samba e futebol. Era mulato, baiano e lutava capoeira. Tinha 1,90 de altura e porte físico de atleta. Em reuniões do partido comunista, particularmente em momentos de tensão, fazia intervenções em versos. Tinha um gênio impetuoso, intepestivo, assumia riscos excessivos: em plena ditadura militar, procurado pela polícia, ao presenciar cena de violência policial junto a operários, reúne os trabalhadores após a dispersão da repressão e em praça pública faz discurso político contra o regime.

Outros dois traços marcantes da personalidade individual de Marighela: humildade radical no trato com os demais militantes, mesmo sendo o respeitado dirigente do PCB e ALN; bravura, tendo como exemplos a sua resistência à prisão e relatos que contam que, mesmo nos momentos de tortura, Marighela resistia aos socos aos algozes.

Um pequeno esclarecimento sobre a questão da coragem de Carlos Marighela. Não nos interessa, aqui, análises acerca da valentia individual de um militante de forma a fazer juízos de valor acerca de seu caráter ou de sua moral. Vale lembrar que tal viés de interpretação é no mínimo empobrecedor ao não levar em consideração, por exemplo, as contingências que determinam distintos momentos da consciência política individual – um militante aguerrido hoje pode perfeitamente ser amanhã um gestor qualificado do capitalismo. Não há espaço para juízos morais definitivos das personalidades individuais sem grandes riscos de maniqueísmos. O que nos interessa neste ponto da valentia de Marighela, e esta também parece ser a intenção do autor, é mostrar como aquela bravura sinaliza certa dose de confiança pessoal sobre as políticas defendidas pelos comunistas, confiança na vitória da resistência contra a ditadura e pela construção do socialismo. Algo que diz respeito a forma como os comunistas brasileiros viam o mundo e interpretavam a realidade política do país.

O Novo Homem

A biografia de Carlos Marigela pode servir como um ponto de partida para aqueles que pretendem conhecer um pouco sobre a história não só da personagem mas dos instrumentos de luta (PCB e ALN) correspondentes à trajetória de Marighela.

Outra possibilidade da obra é a de servir como certa fonte de inspiração e reflexão àqueles que militam e/ou têm expectativas acerca da transformação radical do mundo. A inspiração aqui se refere aos exemplos da vida pessoal de Carlos Marighela. (Evidentemente, a inspiração não deve implicar em certa idolatria que corrobora para personalismo político cuja conseqüência quase sempre é autoritarismo político).

Carlos Marighela aparenta possuir forte capacidade de empatia (colocar-se no lugar do outro) e isso inspira na medida em que nos faz crer ser a empatia certa condição para os revolucionários em sua luta contra o capitalismo. Não é possível solidarizar-se sinceramente com a luta dos trabalhadores sem levar em consideração as expectativas e exigências da classe que vive do trabalho.

Ademais, a experiência de militar e lutar por um novo tipo de sociedade – cujas conseqüências são também a construção de novos valores pessoais – exigem alguns compromissos individuais. Sob o capitalismo, naturalizamos valores e práticas associadas de maneira mais ou menos direta à exploração e alienação do trabalho: opressões de gênero, homofobia, individualismo, competitividade, indiferença em relação ao sofrimento alheio, etc. Os compromissos individuais devem partir de uma certa vigilância pessoal que cada militante deve ter acerca daquelas naturalizações.

A vigilância pessoal decorre da percepção crítica do mundo, do questionar as naturalizações. Porém, apenas a vigilância de consciência e exercícios de autocrítica podem não ser suficientes. Carlos Marighela, quando resolve uma prova de matemática em versos de poesia, ou quando divide tarefas de trabalho doméstico com sua companheira para além das divisões tradicionais de gênero ou, ainda, quando dedica sua vida e morre pela luta pelo socialismo não apenas pensa mas busca concretamente vivenciar e praticar os novos valores que indicam um mundo para além do capital.

Balanços inconclusos

Um último tópico que acreditamos que poderia ter sido mais trabalhado no estudo – a título, portanto, de crítica construtiva. Trata-se do debate sobre os motivos do fracasso da luta armada e mais especificamente do assassinato de Carlos Marighela. A luta armada ocorre durante um ciclo de expansão da economia – correspondente ao "milagre econômico" – que dificulta as tentativas de criar formas de adesão popular à luta armada. Num contexto em que o Brasil está próximo do pleno emprego e com o incremento das relações de consumo (decorrentes da inclusão das massas ao trabalho e à ascensão de classe média nos centros urbanos) a situação econômica contribui para o isolamento da luta contra o regime – evidentemente, o isolamento decorre igualmente da forte repressão do estado e de todo seu aparato repressivo e ideológico e de deficiências teóricas dos movimentos de resistência que tencionam promover as mudanças através de experiências estrangeiras sem as mediações que traduzam os desafios dos socialistas para a realidade brasileira. As relações entre os ciclos de expansão e crise do capital e as distintas formas de luta política seria um bom ponto de partida para novas reflexões sobre o sentido da luta armada no Brasil.

[Carlos, A Face Oculta de Marighella – Edson Teixeira da Silva Júnior – Ed. Expressão Popular]

Paulo Marçaioli é filiado do PSOL-Valinhos


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