domingo, 13 de junho de 2010

RIO NEGRO E SOLIMÕES – ENCONTROS E ENCANTOS

Por Elson de Melo (*)


Pode até parecer pavulagem, mas, é certo que ficamos todos faceiros quando ouvimos ou vemos alguém elogiar a beleza do Encontro das Águas formado na confluência dos Ris Negro e Solimões. É a partir desse fenômeno que o Grande Rio passa a ser chamado de Amazonas. Um Rio Internacional que nasce no Peru e desemboca no Oceano Atlântico. Para nós que aqui habitamos, aquele local é muito mais que uma demarcação de território das águas negras e as barrentas. É símbolo da grandeza do nosso povo expressada no gesto do nosso herói o Guerreiro Ajuricaba, que, preferiu transcender no tempo e espaço fazendo daquele local sua morada eterna, a ter que se acovardar na história. É um lugar mágico! Encantador, onde a natureza apresenta aos humanos o sentido da vida.

O Amazonas é um Estado rico em valores ecológicos e ambientais, nosso ecossistema, vem, há séculos suportando todo tipo de agressão e saques, foi portugueses, holandeses, ingleses, espanhóis e até franceses, que no passado escravizaram nossos parentes índios, saquearam nossas riquezas, depredaram nossa fauna e flora e até dizimaram muitas nações indígenas. O Encontro das Águas é testemunha ocular de todos os sofrimentos imposto ao nosso povo a gerações.

Não precisa ser místico para concluir que esse local é um encante (lugar de encantaria), sob os belos espelhos d’águas, que nossos olhos contemplam sem vontade de piscar, existem mistérios que nós simples mortais nunca vamos entender, pois é, Ajuricaba acreditou nisso e para lá migrou, pode parecer delírio, mas, é ele que manda energia aos seus parentes avisando que o perigo está rondando nosso espaço de contemplação do belo, do encontro harmônico das duas águas, do encanto e da exuberante paisagem!

Foi movido por esse mistério que no dia 25 de maio de 2010, homens e mulheres, tendo como grandes comandantes o Poeta Thiago de Mello e Raimundo Barreto (Barretinho do MOHAM), percorreram aquele grande complexo, a fim de mostrar ao mundo que pessoas inescrupulosas querem substituir as encantadoras paisagens dos igapós por um amontoado de ferros e concreto. Foi a V Caravana que o Movimento SOS Encontro das Águas promoveu.

Na caravana estavam diversas gerações de pessoas, todos comungavam do mesmo objetivo. Impedir a construção de um porto na boca do Lago do Aleixo, exigir que IPHAM cumpra com a decisão judicial de promover o tombamento definitivo do Encontro das Águas como Patrimônio Natural da Humanidade e que o Ministério do Meio Ambiente transforme a Região do entorno em Reserva Ambiental Sustentável.

Estou mais pavulo ainda por ter participado desse fato histórico, nossos olhos contemplaram tudo, a dança das águas, os redemoinhos, a corredeira, o igapó, as canaranas, o respirar dos botos, os pássaros voando ou mergulhando e o jeito calmo dos pescadores ajeitando o peixe. Confesso que foram tantas as vezes que passei por aquele lugar, mas, nenhuma delas foi tão marcante como essa.

A emoção comandou a mente desse caboclo, como um filme, passei a lembrar de todas as viagens que fiz de meu querido Urucurituba a essa grande metrópole que mi adotou como filho, chamada de Manaus, e visse-versa, o peito apertou, o coração acelerou e os olhos lacrimejaram quando veio à lembrança da primeira viajem abordo do único barco de linha regular, cujo nome era Aurora, aos meus oito anos minha mãe Elzira apresentou esse cartão postal que jamais esquecerei – O Encontro das Águas!

Abro um parêntese para contar aos mais jovens que, o barco Aurora explodiu no porto da empresa Texaco em frente à ilha do Marapatá, quando abastecia o motor e fazia o carregamento de botijas de gás, nesse acidente perdemos parente, visinhos e amigos. Foi um dos piores acidentes que aconteceu com barcos de Recreio para o interior do Estado do Amazonas.

Voltando a V Caravana do Movimento SOS Encontro das Águas, afirmo que foi uma viagem reveladora, constatamos que o lago da Aleixo precisa de socorro urgente. Quem como eu, teve a oportunidade de conhecer aquela maravilha, vai concordar que estão matando o Lago. É construção de galpões na margem do lago, as empresas ali instaladas depositam diariamente toneladas de dejetos com todo tipo de produtos químicos e outros tipos de poluição, o desmatamento da margem está acabando com os igapós e aterrando seu leito, em fim, o capital está matando barbaramente o lago do Aleixo!

Na outra margem do Rio Amazonas na costa da Terra Nova, podemos observar além do abandono do Estado aos habitantes daquela localidade, também a aflição quanto à possível construção do famigerado porto na boca do Lago do Aleixo. Segundo eles, antes a região era um paraíso, hoje já está fazendo parte da rotina, assaltos, assassinatos e outros tipos de violências, se ocorrerem de o governo do Estado do Amazonas, permitir essa construção, a localidade vai passar fazer parte da chamada Zona de Perigo. É a decretação do fim do sossego. Concluíram.

Quem pode proteger esse patrimônio da humanidade desse ser e predador chamado de capital? Deveria ser o Estado através dos governos Federal, Estadual e Municipal. Infelizmente são esses entes estatais os primeiros a poluírem a paisagem do Encontro das Águas, construindo ali, uma Doutora de capitação de águas com recursos do tal Programa de Aceleração do Crescimento – PAC!... Pior ainda, são eles os primeiros a incentivarem e licenciarem com fartos indícios de irregularidade no processo, a começar por omitirem a presença de sítios arqueológicos, a não consideração da opinião da população local, ignorar a legislação federal que disciplina as áreas de várzeas e até a legalidade da documentação das áreas envolvidas!

Dias atrás, a Justiça Federal determinou que o IPHAM, faça o tombamento definitivo do Encontro das Águas, até este momento esse Órgão do Ministério da Cultura através do Superintendente no Amazonas, nada tem feito para viabilizar a decisão judicial, na verdade, o que ele vem fazendo é obstruir a justiça. Tudo isso estava tacitamente combinado com as empresas para ganhar tempo até outra investida maligna que veio a ocorrer no dia 04 de junho, quando conseguiram um despacho assinado pelo Juiz Relator Convocado suspendendo os efeitos da determinação da Justiça federal no Amazonas.

Ainda sobre o IPHAM, recentemente o Presidente Nacional desse Órgão fez um sobrevoou na área, acompanhado do dito Superintendente do Órgão no Amazonas que introduziu na viagem o principal Lobista ligado a empresa que pretende construir o fatídico porto, Senhor Alberto Machado filho oriundo do Município de Obidos no Estado do Pará, Professor da Universidade do Amazonas e ex-superintendente adjunto da SUFRAMA e Irmão do Tesoureiro do PDT do Amazonas, empresário Stone Machado, Segundo relato do Poete Thiago de Mello feito na V Caravana do SOS Encontro das águas.

Sob a proteção de Ajuricaba, esse caboclo toma a liberdade de questionar a luz da natureza, qual o crime que os peixes, igapós, pássaros, Lajes, água e todos os seres vivos que compõem o complexo Encontro das Águas cometeram? De que são acusados? É claro que os predadores da natureza vão alegar que isso faz parte do progresso!... Então eu concluo. Se para progredir é necessário matar. Nós parentes de Ajuricaba vamos continuar a LUTA PELA VIDA.
(*) Elson de Melo - Sindicalista

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